Detectada em dados de 2021 e divulgada cientificamente em 2026, emissão de rádio na direção de um sistema planetário a 238 anos-luz continua sem origem identificada. Embora os pesquisadores considerem mais provável uma interferência terrestre, uma nova investigação independente mantém o caso em análise.
Um sinal de rádio de origem ainda não identificada, registrado pelo gigantesco radiotelescópio chinês FAST durante observações de um sistema planetário situado a aproximadamente 238 anos-luz da Terra, voltou a despertar interesse nas últimas semanas. A emissão, identificada como NBS 260108, apresenta algumas características procuradas por cientistas envolvidos na busca por inteligência extraterrestre (SETI), mas também indícios que apontam para uma explicação mais convencional: interferência provocada por equipamentos de comunicação humanos ou pelos próprios instrumentos de observação.
Apesar de manchetes recentes sugerirem uma nova descoberta, a história começou em 2021, quando o radiotelescópio coletou os dados posteriormente analisados pelos pesquisadores. O estudo científico foi publicado em agosto de 2026, e uma nova rodada de divulgação ocorreu entre setembro e outubro. Em 31 de outubro, uma equipe independente anunciou avanços na reconstrução do sinal a partir dos registros originais, acrescentando um novo capítulo à investigação.
Até agora, no entanto, não existe confirmação de que a emissão tenha origem extraterrestre, mas sua fonte específica também não foi determinada.
Um sinal incomum na direção de uma possível super-Terra
O registro foi identificado em observações realizadas pelo FAST (Five-hundred-meter Aperture Spherical radio Telescope), radiotelescópio de abertura esférica de 500 metros instalado na província de Guizhou, na China. Considerado um dos instrumentos mais sensíveis de sua categoria, ele também é utilizado em pesquisas destinadas a identificar possíveis sinais tecnológicos produzidos por civilizações extraterrestres.
O telescópio estava direcionado ao sistema K2-155, uma estrela anã vermelha que abriga três planetas conhecidos. Um deles, K2-155 d, é classificado como uma super-Terra, com aproximadamente 1,6 vez o raio terrestre, e orbita nas proximidades da região potencialmente habitável de sua estrela. Isso significa que, dependendo de características ainda desconhecidas, como sua atmosfera, o planeta poderia apresentar condições compatíveis com água líquida em sua superfície.
A existência de um planeta potencialmente habitável torna o sistema interessante para pesquisas SETI, mas não demonstra que ele abrigue vida. Também não há evidências de que o sinal detectado tenha partido de K2-155 d: sabe-se apenas que foi registrado quando o telescópio observava aquela direção do céu.
A emissão apareceu na frequência de aproximadamente 1.148,4167 megahertz (MHz), apresentando uma largura de banda muito estreita e uma pequena variação de frequência ao longo do tempo.
Esse último comportamento, conhecido como desvio Doppler, é particularmente interessante porque pode ocorrer quando uma fonte transmissora e um observador estão em movimento relativo. Um transmissor instalado em um planeta que gira e orbita sua estrela, por exemplo, poderia produzir uma variação desse tipo.
Os pesquisadores também observaram que o sinal apareceu em apenas um dos 19 feixes receptores do radiotelescópio, característica que, em princípio, pode ser compatível com uma fonte localizada em determinada direção do céu.
O conjunto dessas propriedades justificou uma investigação mais detalhada. Entretanto, nenhuma delas é exclusiva de transmissões extraterrestres. Equipamentos terrestres e satélites também podem produzir emissões estreitas, apresentar variações de frequência e alcançar os receptores de maneira aparentemente localizada.
Uma descoberta feita anos depois da observação
O registro ganhou destaque graças a um trabalho de pesquisadores chineses liderados por Zi-Qi Li, que desenvolveram um novo método computacional para examinar observações de 33 sistemas planetários realizadas pelo FAST.
O estudo, intitulado A Wavelet-Integrated Search Pipeline for Narrowband Technosignatures in FAST Observations of 33 Exoplanet Systems (Um sistema de busca com análise por ondas para identificar possíveis sinais tecnológicos de banda estreita em observações de 33 sistemas de exoplanetas pelo FAST), combinou técnicas de análise de sinais e aprendizado de máquina para localizar padrões que poderiam passar despercebidos em grandes volumes de dados.
A pesquisa foi disponibilizada inicialmente em maio de 2026 e publicada na revista científica The Astronomical Journal, em 27 de agosto. Uma versão revisada do manuscrito também foi disponibilizada em setembro.
O processamento produziu 139.127 detecções iniciais, posteriormente agrupadas e submetidas a diferentes filtros para eliminar possíveis interferências. Desse conjunto, 803 candidatas sobreviveram à etapa automática de exclusão por comparação entre os feixes receptores. Depois de inspeções adicionais, dois eventos se destacaram.
Um deles, associado à direção da estrela Kepler-438, já havia sido estudado anteriormente e acabou classificado como interferência de radiofrequência. O segundo era o sinal observado na direção de K2-155.
Embora o trabalho tenha chamado atenção por sua possível relação com a busca por inteligência extraterrestre, seu principal objetivo científico era demonstrar a eficiência de uma nova metodologia de identificação e triagem de sinais, e não anunciar a descoberta de uma transmissão alienígena.
Por que os cientistas suspeitam de interferência?
A investigação revelou características que enfraquecem consideravelmente a interpretação extraterrestre.
A primeira delas envolve a polarização. O sinal foi detectado com intensidade elevada em apenas um dos dois componentes de polarização analisados pelo equipamento, uma assimetria que também pode ocorrer em interferências terrestres ou instrumentais.
Outro indício surgiu quando os cientistas compararam as observações de K2-155 com registros obtidos na mesma sessão, em direções de outros sistemas estelares, incluindo K2-18, GJ-9066 e Ross 128.
Nessas observações apareceram sinais com características semelhantes, próximos da mesma frequência e predominantemente no mesmo componente de polarização. Embora não fossem reproduções idênticas do evento original, a recorrência em diferentes apontamentos do telescópio tornou mais provável a existência de alguma fonte comum de interferência.
Os pesquisadores avaliaram possíveis contribuições de sistemas de comunicação por satélite, navegação por satélite, equipamentos aeronáuticos e transmissores militares. Também examinaram a possibilidade de sinais espúrios gerados por processos eletrônicos internos ao equipamento.
Algumas dessas fontes poderiam produzir emissões semelhantes à registrada, mas nenhuma foi diretamente identificada como responsável pelo evento. Os mecanismos propostos também apresentam dificuldades para reproduzir todas as características observadas.
O próprio estudo reconhece essa limitação ao classificar o sinal como não identificado e afirmar que sua atribuição definitiva a uma fonte externa de interferência dependeria de novas observações.
Ao mesmo tempo, os autores consideram mais plausível uma origem humana ou instrumental do que extraterrestre, rebaixando o evento à categoria de candidato de baixa prioridade para futuras investigações SETI.
A distinção é importante: a hipótese de interferência é sustentada por evidências concretas, mas ainda não representa a identificação conclusiva da fonte. Por outro lado, a ausência dessa identificação não constitui, por si só, evidência de inteligência extraterrestre.
Uma nova investigação retoma os dados originais
O caso ganhou um novo desenvolvimento em outubro de 2026, quando o grupo independente The Contact Project passou a examinar diretamente registros arquivados das observações do FAST.
Em 31 de outubro, a organização divulgou um relatório sobre a reconstrução preliminar do sinal NBS 260108 e disponibilizou os resultados técnicos na plataforma científica Zenodo.
A equipe informou ter recuperado, em dados selecionados da observação original, uma característica espectral próxima à frequência de 1.148,4167 MHz. A análise envolveu 13 integrações amostradas, distribuídas por oito blocos temporais, além da comparação de 18 feixes receptores disponíveis em um dos momentos observados.
Os resultados permitiram reconstruir aspectos mensuráveis do evento, mas não estabeleceram sua origem. A própria equipe ressaltou que a amostragem disponível ainda não equivale a uma reanálise completa, com todos os dados e calibrações necessários.
O grupo também relatou ter recebido, em 31 de outubro, orientações do centro de dados do FAST para localizar arquivos adicionais das observações realizadas em setembro de 2021. A intenção é ampliar a análise temporal, verificar o comportamento do sinal entre diferentes receptores e investigar com maior precisão a possibilidade de interferência.
A iniciativa representa uma tentativa de verificar independentemente os resultados anteriores, mas seu relatório é preliminar e ainda não passou por revisão científica por pares.
Por enquanto, a investigação deixa duas questões distintas em aberto: qual equipamento ou fenômeno produziu a emissão e por que ela apresentou aquela combinação específica de características.
A possibilidade de uma origem extraterrestre não foi demonstrada e permanece menos favorecida pelas evidências disponíveis. Ainda assim, a ausência de uma identificação definitiva da fonte mantém o registro como um caso tecnicamente não resolvido.
O interesse científico está justamente na possibilidade de testar essas hipóteses com novas observações e análises independentes, em vez de presumir que uma explicação já tenha sido definitivamente estabelecida.
SETI anuncia nova estratégia para procurar mensagens de outras civilizações
Enquanto o sinal registrado pelo FAST continua em investigação, o Instituto SETI, nos Estados Unidos, anunciou em 3 de novembro de 2026 uma estratégia diferente para procurar possíveis transmissões extraterrestres, combinando astronomia e teoria dos jogos.
O projeto utiliza o conjunto de radiotelescópios Allen Telescope Array, na Califórnia, e parte de uma pergunta: se uma civilização distante desejasse enviar uma mensagem à Terra, como poderia escolher um momento em que os seres humanos também estivessem atentos à sua transmissão?
A proposta considera que duas civilizações, mesmo sem contato prévio, poderiam identificar uma mesma referência astronômica para tentar estabelecer comunicação. Uma dessas referências seria o chamado ponto antissolar, localizado na direção oposta à do Sol no céu terrestre.
Para um observador distante situado nessa direção, a Terra poderia aparecer transitando diante do Sol. Esse alinhamento forneceria uma referência potencialmente reconhecível tanto pelo transmissor quanto pelos observadores terrestres.
Segundo o comunicado oficial do Instituto SETI, uma campanha preliminar realizada em 2023 reuniu aproximadamente 17 horas de observações e produziu cerca de 32 terabytes de dados. A análise inicial identificou aproximadamente 1,9 milhão de ocorrências de sinais de rádio, mas nenhuma resistiu aos procedimentos de verificação como evidência de tecnologia extraterrestre.
A pesquisa prossegue como parte de um programa de observações planejado para vários anos. O objetivo é testar a hipótese de que uma civilização tecnologicamente avançada poderia escolher momentos astronômicos previsíveis para transmitir sinais, em vez de emitir mensagens continuamente em todas as direções.
O anúncio não possui relação direta com a emissão identificada pelo FAST, mas ilustra uma das principais dificuldades enfrentadas pelas pesquisas SETI: além de distinguir eventuais transmissões extraterrestres das inúmeras interferências produzidas pela tecnologia humana, os cientistas precisam determinar onde, quando e em quais frequências procurar.

