A pegadinha da foto dos “não-OVNIs” de Barras, no Piauí

O acontecimento das chamadas “ondas ufológicas” de tempos em tempos — quando num intervalo de tempo específico há um aumento repentino e notável da quantidade de relatos e registros de OVNIs — é um fenômeno bem conhecido na Ufologia. O impacto dessas ondas pode ser percebido em tempo real na cobertura de imprensa e, mais recentemente, pelas redes sociais, de forma muito mais visível, inclusive. E tudo indica que o Piauí, no Brasil, viveu uma onda dessas entre o final do ano passado e o início desse ano, conforme já noticiamos em diversas matérias.

Também é um fato conhecido que a ocorrência de tais períodos de intensa atividade UFO levam a uma explosão de relatos exagerados, erros de interpretação e até mesmo iniciativas fraudulentas que buscam captar o momento e “surfar” a onda, principalmente nos tempos atuais, com o poder de disseminação das redes sociais. E é neste contexto que se enquadra a “espetacular” foto de dois supostos OVNIs captada por João Teixeira, um morador da cidade de Barras, que chegou a ser considerada “um dos melhores registros dos OVNIs do Piauí” por canais sensacionalistas.
No dia 1º de janeiro, às 18h23, Teixeira fez um registro fotográfico impactante no bairro Boa Vista, no centro da cidade. O técnico em manutenção de fogões capturou a imagem de duas luzes intensas e silenciosas que segundo pairavam em diferentes altitudes — uma sobre uma árvore e outra acima de uma residência próxima. O avistamento ocorreu durante o anoitecer, em um local descrito como “sem postes de iluminação pública”, e o fenômeno foi tão forte que chegou a iluminar o teto das casas, o que teria causado espanto ao morador pela magnitude e pelo silêncio absoluto dos objetos.
A fotografia teria sido foi obtida de forma espontânea após João notar o comportamento agitado de sua gata, que parecia acuada pela presença das luzes no céu. Motivado pelo medo e pela convicção de que o que viu **não era de origem humana**, João buscou o canal “TV A Grande Barras”, através de seu irmão, para documentar o caso com a ajuda de um repórter de credibilidade. Segundo a reportagem da TV A Grande Barras, a imagem passou inclusive por uma verificação que constatou ser um registro original, sem uso de inteligência artificial ou edições, reforçando o histórico de fenômenos ufológicos na região, que já atraiu o interesse de muitos ufólogos.
A verdade sobre a foto dos “OVNIs” fotografados no bairro Boa Vista, em Barras
A história e a foto viralizaram rapidamente. E seria justificável, já que a composição, com resolução mediana e reflexos nas luzes alaranjadas no céu ao anoitecer parece até uma cena do filme “Contatos Imediatos de 3º Grau”, do Steven Spielberg. Exceto por um detalhe: a história é uma fantasia, criada sobre uma foto que mostra no mesmo enquadramento a lâmpada de um poste de luz e a Lua.
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O entusiasta mais fervoroso talvez queira protestar, lembrando que a reportagem esteve no local e mostrou que “não existem postes de iluminação” e o morador disse que a Lua não estava no céu neste dia. Mas foi a própria reportagem que permitiu rapidamente elucidar o caso, através do olhar experiente do analista de imagens Jorge Uesu. Parceiro do Portal Vigília e de outros grupos dedicados à divulgação responsável do fenômeno UFO na Internet, o pesquisador primeiro verificou que, ao contrário do que disse a testemunha, a Lua estava no céu do Piauí (e de todo o Brasil) em 1º de janeiro.
Junto com Uesu, o Portal Vigília trabalhou nas imagens para ilustrar como foi feita a análise e apresentar outros detalhes que complementam o vídeo divulgado pelo pesquisador em seu perfil no Instagram em colab com o Portal.

Localizando a rua exata e recriando o cenário celeste, ele identificou que a localização do satélite natural da Terra em termos de direção e altura (em ângulo) a partir do horizonte, coincide com a posição exata de visualização da luz mais alta, que parece “mais próxima” da perspectiva da câmera.
Faltava explicar a luz mais baixa, quase igualmente intensa. E a decisão da reportagem da própria TV A Grande Barras, de gravar as passagens do repórter quase na mesma posição em que o morador registrou a foto, foi fundamental para identificar a pegadinha: trata-se, sim, de um poste de iluminação pública. Acontece que o poste, ao invés de apontar em direção à via pública, está virado sobre uma casa, iluminando um telhado — coisas, estas sim, inexplicáveis, típicas do Brasil. O poste fica visível durante boa parte da reportagem.

Mas a análise mais apurada da imagem também indica outra pegadinha. Apesar da reportagem afirmar que a imagem teria sido “avaliada por um perito” para atestar que não houve uso de edição por inteligência artificial, a comparação entre imagens recentes dos imóveis, tanto feitas pelo Google Street View (de 2025) quanto as imagens da própria matéria da TV mostram mudanças grosseiras na composição.

O formato de uma janela em um dos imóveis, por exemplo, foi modificado. Um poste de distribuição de energia em frente a outra residência foi suavizado, e a fiação que chega até ele atravessando a rua foi completamente apagada. Vale lembrar que o apagamento de fiações de fotos externas é um recurso presente em celulares básicos de várias marcas, e é especialmente eficiente em aparelhos da Motorola.

Outro detalhe é a frente dessa mesma residência, que ganhou “calçamento” onde antes, tanto na imagem do Google Street View (maio de 2025) quanto depois, na filmagem da reportagem (fevereiro de 2026) claramente trata-se de terra tomada por mato e grama.

A acirrada disputa entre o like e a verdade
O caso da foto de Barras serve como um lembrete oportuno de que, na era da informação instantânea, o desejo pelo espetacular em busca de audiência e likes muitas vezes atropela a verificação rigorosa dos fatos. O que foi inicialmente apresentado como um dos “melhores registros” de OVNIs do estado desmorona diante de uma análise técnica simples, capaz de identificar elementos mundanos como a Lua e um poste de iluminação pública mal posicionado.
Mais do que uma simples confusão visual, as alterações grosseiras identificadas na composição da imagem — como as modificações no cenário — sugerem uma tentativa deliberada de ajustar a realidade ao relato. Quando uma “evidência” precisa ser editada para excluir elementos da paisagem urbana que a contradizem, ela deixa de ser um documento ufológico para se tornar uma peça de ficção digital. O trabalho de analistas como Jorge Uesu destaca que a verdadeira investigação ufológica não busca confirmar crenças, mas sim filtrar o ruído para encontrar o que é genuinamente inexplicável.
Em última análise, a foto dos “OVNIs de Barras” pode não mostrar objetos vindo de outro planeta, mas revela muito sobre a nossa própria cultura de consumo de mistérios. Em uma região com histórico de avistamentos que já atraíram pesquisadores internacionais, a pressa em validar qualquer luz no céu como um fenômeno extraterrestre acaba por prejudicar a própria credibilidade da pesquisa. O episódio encerra-se não com um contato imediato, mas com uma lição sobre a importância da responsabilidade editorial e da análise científica frente ao fascínio pelo desconhecido.
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