Ainda precisamos falar sobre o Caso Varginha

O Caso Varginha, frequentemente rotulado como o “Roswell Brasileiro”, vive um paradoxo sem precedentes. Trinta anos após os eventos de 1996, em vez de caminharmos para uma conclusão definitiva, assistimos à construção de uma mitologia que parece se sustentar em alicerces cada vez mais frágeis. É um cenário de certa forma triste para quem até alguns anos atrás, como eu, já foi um entusiasta da solidez da história — ou pelo menos de parte dela.
O recente ressurgimento do caso, impulsionado por uma minissérie jornalística da TV Globo, do documentário Moment of Contact de James Fox e pelas declarações bombásticas do neurocirurgião Dr. Ítalo Venturelli, trouxe à tona uma questão incômoda: estamos diante da revelação do século ou da exposição derradeira da fragilidade do relato testemunhal na Ufologia? As incoerências são gritantes demais para serem ignoradas ou relegadas ao esquecimento sob o manto do mistério ou do silêncio.
Deixando de lado a polêmica sobre os testemunhos militares e a possibilidade de fraude para tratar especificamente sobre o contundente relato do neurocirurgião, diversas análises detalhadas nos muitos vídeos e escritos produzidos por pesquisadores críticos — como João Lucas (canal Operação Fogo no Céu), Roberto Munhóz (Projeto 93), com Ubirajara Rodrigues e João Marcelo Rios, e até mesmo um extenso mas coerente dossiê investigativo anônimo (o autor usa apenas o pseudônimo r/BoulderRivers) denominado Moment of Con — revelam uma narrativa que, sob escrutínio incisivo, começa a desmoronar em seus pontos mais vitais.
O paradoxo da credibilidade atribuída a um neurocirurgião
O depoimento do Dr. Ítalo Venturelli é, talvez, o ponto mais crítico dessa nova fase. Como bem pontuado pelo biólogo João Lucas em seu react à entrevista do médico nos Estados Unidos, há uma desconexão profunda entre a credencial da testemunha e o conteúdo apresentado. Venturelli, um exímio neurocirurgião, afirma ter sido chamado para validar ou revisar um procedimento realizado por seu colega, o Dr. Marcos Vinícius, em uma criatura de biologia desconhecida.
Entretanto, quando pressionado por perguntas técnicas pelo jornalista Michael Shellenberger, o médico esquiva-se de forma preocupante. Como pode um especialista em sistema nervoso central não oferecer um único detalhe anatômico, fisiológico ou técnico sobre a maior descoberta da história da medicina?
Em vez disso, Venturelli recorre a justificativas vagas, como a “ética médica” e o “sigilo sobre o paciente” (sic!), para explicar por que nunca discutiu os detalhes da cirurgia com seu colega de décadas. É uma aplicação de ética surreal para um ser que, legalmente, não possui registro civil ou proteção pelo CRM. Ninguém, nem os entrevistadores — nem a produção do documentário — explicou ao médico que muito provavelmente a família do suposto alienígena não estaria interessada em discutir na Justiça uma eventual decisão sua de falar da condição do “paciente”?
Se o ser fosse uma descoberta biológica sem precedentes, ele seria um objeto de estudo científico de Estado, e não um “paciente” sob a jurisdição do Código de Ética Médica do CFM, que rege a relação entre médicos e seres humanos (cidadãos).
Além disso, a mudança na narrativa sobre o procedimento em si é flagrante. Se antes mencionava-se a colocação de uma válvula, o relato recente minimiza o ato para “alguns pontos” simples. A contradição é lógica: por que um neurocirurgião sênior seria convocado em regime de urgência apenas para supervisionar suturas que qualquer residente saberia realizar?
Mais ainda, em seu relato, Venturelli diz não ter visto sinais de procedimento algum. Ainda assim, afirma que foi instado pelo colega a opinar sobre a condição do ser em si… Que “parecia calmo, respirando bem…”. Mas respirando “bem e calmo” segundo qual conhecimento anterior do doutor acerca da fisiologia extraterrestre?
Vi muitos internautas saindo em defesa do testemunho, lançando mão do argumento do suposto medo inicial da testemunha e das eventuais pressões que ele eventualmente recebeu ou possa vir a receber, para justificar as contradições. Mas trata-se de um argumento raso e fraco: não estou tratando aqui das discrepâncias de antes e depois de a testemunha resolver “contar tudo”. Mesmo porque o relato original deu um plot twist completo! Passou de “ver um vídeo” para “ver um ser frente a frente”! Portanto, tratam-se de inconsistências presentes apenas no estágio atual do relato, quando o doutor diz ter vencido o medo e decidido revelar uma história que não poderia ficar guardada para si.
A repórter fantasma e o vídeo inexistente
Outro ponto de ruptura no relato de Venturelli envolve o incidente com a Rede Globo. O médico afirma categoricamente que, no dia 20 de janeiro de 1996, foi abordado por uma repórter da emissora na porta do Hospital Regional, questionando se ele havia “operado o ET”.
Ocorre que, conforme demonstrado pelas investigações de todas as reportagens já feitas e pelos próprios pesquisadores da época, não há registro de qualquer matéria, imagem ou movimentação jornalística da Globo naquela data específica ou logo nos dias seguintes. Nem mesmo Ubirajara Rodrigues, o principal investigador local, havia iniciado qualquer busca naquele fatídico dia 20 de janeiro!
Somado a isso, temos o mistério do vídeo da cirurgia. Venturelli afirma que o Dr. Marcos Vinícius mostrava o vídeo do procedimento “para todo mundo” em sua casa. No entanto, o pesquisador João Marcelo Rios, junto com o pesquisador Marco Aurélio Leal, que inclusive faz parte da produção de Moment of Contact, estiveram com a viúva do Dr. Marcos, tiveram acesso ao seu HD e não encontraram absolutamente nada! Nem ao menos o relato da viúva corroborando a existência de tal filmagem: ao contrário, ela teria dito — com genuína sinceridade, segundo Rios — que sequer ouviu essa história alguma vez. Tanto que simplesmente entregou aos pesquisadores o HD de backup do notebook guardado de seu falecido marido.
Como um vídeo que era “mostrado para todo mundo” (segundo Venturelli) nunca foi visto pela própria esposa do médico ou encontrado em seus arquivos pessoais? A onipresença do vídeo no relato de um contrasta violentamente com a inexistência total no acervo do outro.
O silêncio póstumo de “Moment of Contact“…
As incoerências narrativas expostas aqui são apenas uma fração daquelas reveladas no escrutínio recente do caso confrontado com um olhar mais crítico. Não é a intenção deste artigo abordar cada uma delas, o que o leitor ou leitora pode fazer visitando os muitos links aqui citados (e é, aliás, fortemente recomendado a fazê-lo).
Mas elas são um contexto importante para observar que a fragilidade do relato não reside apenas na testemunha, mas também na postura da própria produção do documentário. O pesquisador Marco Leal, coprodutor de Moment of Contact, foi procurado pelo Portal Vigília para responder a questionamentos diretos sobre essas lacunas. As perguntas eram claras:
- A produção não se questionou sobre a impossibilidade cronológica da repórter da Globo no dia 20?
- Como explicar a ausência do vídeo no HD do Dr. Marcos Vinícius?
- Com tanto acesso ao médico, por que o documentário não aprofundou a inquirição sobre os detalhes cirúrgicos e a fisiologia do ser?
Leal, sempre prestativo e proativo em todos os contatos anteriores deste editor para matérias acerca de Varginha, recebeu as mensagens e a ligação mas não chegou a responder. E o silêncio diante de perguntas como essas é ensurdecedor. Indica uma camada da narrativa que a produção parece não querer — ou não poder — esmiuçar sem comprometer o tom bombástico da obra.
A Ufologia tem o direito de saber se estamos diante de um registro histórico ou de um produto de entretenimento que, ao selecionar evidências, mantém viva uma narrativa que os fatos apontam ser, no mínimo, produto de uma lembrança problemática.
…e a desconcertante indisponibilidade do Dr. Venturelli
Mas não é apenas o silêncio de Leal que é decepcionante. Este editor entrou diretamente em contato com o Dr. Ítalo Venturelli, via aplicativo de mensagens, durante sua turnê de apresentação de Moment of Contact nos Estados Unidos. Educadamente, o neurocirurgião declinou da realização de uma entrevista naquele momento, dado que estava com a agenda cheia de compromissos. Muito cordial e animado, por mensagem de áudio, deu detalhes da maratona de conversas no Congresso norte-americano e prontamente se dispôs a conversar conosco assim que retornasse.
Logo após o retorno, soube que a testemunha iria participar de live com outros pesquisadores no canal/perfil da recém criada Revista Fenômeno UFO, do ufólogo Thiago Ticchetti. Interessado em ver as perguntas que considero essenciais respondidas, e preocupado em não conseguir acessar a transmissão a tempo de participar do debate, encaminhei ao coordenador da live sugestões de questões que permitiriam entender e responder praticamente todas as dúvidas levantadas acima. E foi então que descobri, poucas horas antes da transmissão, que o evento havia sido cancelado, com a alegação de problemas de saúde da testemunha.
Pouco menos de uma semana depois, fiz mais duas tentativas de conversar diretamente o Dr. Ítalo Venturelli: com a resposta de que a questão de saúde continua sendo ainda um impedimento, na primeira vez deixei apenas votos de pronto restabelecimento. Na segunda, dias depois, além de renovar os votos, encaminhei as perguntas por escrito, na esperança de que o mais breve possível o doutor se restabeleça e possa efetivamente fornecer um testemunho que esclareça as discrepâncias que se acumularam a cada nova aparição e a cada nova análise crítica.
Esse é, aliás, um apelo que mantenho aqui, neste artigo, reforçando que o Portal Vigília, em sua missão de divulgar a Ufologia de forma séria e responsável, ouvindo e reportando todos os lados da questão de forma jornalística e crítica, mantém suas páginas abertas aos posicionamentos tanto do Dr. Venturelli quanto da produção do documentário Moment of Contact.
Ainda assim, é impossível não lamentar a indisponibilidade do doutor, e da produção do documentário, num momento em que perguntas relevantes e apontamentos técnicos pertinentes estão ecoando em diversos vídeos e canais.
O relato como pilar frágil
O Caso Varginha expõe a crise do “relato fidedigno”. Como discutido por Daniel Gontijo e Nicolas Junqueira (Neuromágico) — canal Prof. Daniel Gontijo, a memória humana é um instrumento falho, sujeito a distorções, falsas lembranças e ao efeito do tempo. O dossiê Moment of Con detalha, aliás, como a narrativa de Varginha como um todo evoluiu de um “tamanho de um demônio” avistado por três meninas para um “extraterrestre da cultura pop” moldado por ufólogos e pela mídia ao longo de décadas.
A desconstrução feita pelo ufólogo como Ubirajara Rodrigues, que hoje reconhece ter influenciado o depoimento das irmãs Silva sob o peso de suas próprias crenças, é um alerta. Se o pilar principal de um caso é o relato, e este se mostra mutável e incoerente, o que sobra da realidade física do evento?
Por isso, ainda precisamos falar sobre o Caso Varginha. Porque a verdade não pode ser refém do desejo de acreditar. Se há chances de a história ser uma construção fantasiosa, ainda que bem-intencionada, ou uma interpretação equivocada de vivências pueris — como a hipótese do morador “Mudinho” ou de confusões com animais e procedimentos hospitalares rotineiros — a busca pela verdade deve prevalecer sobre o espetáculo.
O Caso Varginha é hoje a medida do rigor científico da Ufologia; se ela não for capaz de enfrentar suas próprias sombras e contradições, continuará sendo vista não como ciência, mas como uma seita em busca de confirmação...







