Bomba! Revelações sobre Varginha abalam credibilidade de testemunhas militares

Bomba! Revelações sobre Varginha abalam credibilidade de testemunhas militares
Bomba: Revelações sobre Varginha abalam credibilidade de testemunhas militares (ilustração gerada por IA)

O aguardado desfecho da minissérie documental “Mistério de Varginha”, da TV Globo, cuja exibição nacional deve ocorrer hoje, 8 de janeiro de 2026, aparentemente vai trazer à tona fissuras profundas na narrativa que sustentou o caso ufológico mais famoso do Brasil por três décadas. Na prévia antes do encerramento do segundo episódio, que foi ao ar ontem, ficou claro que o ponto de maior impacto virá de uma peça-chave no quebra-cabeça militar: uma testemunha anônima, anteriormente qualificada como um dos pilares da prova da captura, revelou que os eventos narrados foram forjados. Em um depoimento demolidor, o militar afirmou que participou de uma “história fictícia” e que os relatos sobre o ET de Varginha não passam de uma coleção de fatos sem conexão real, “costurados à força”.

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A confissão ganha contornos de escândalo ao sugerir que houve motivação financeira por trás dos depoimentos que deram fama mundial ao caso. Segundo o militar, o grupo envolvido chegou a aceitar dinheiro para corroborar a versão desejada pelos investigadores da época. “Aquele dia a gente vendeu a alma pro diabo conversando com ele”, declarou o homem, referindo-se ao processo de negociação com o ufólogo Vitório Pacaccini, que buscava evidências para validar sua pesquisa. O militar chegou a dizer que, se soubesse da dimensão que a história tomaria, “teria pedido mais dinheiro”.

Essa reviravolta explicaria — e é reforçada — pela mudança radical de postura de Ubirajara Franco Rodrigues, advogado e ufólogo que foi o primeiro a ouvir as irmãs Silva e a Kátia Xavier em 1996. Há quase duas décadas, Ubirajara passou a desacreditar do caso e, na entrevista exibida ontem, chegou a classificar sua própria atuação inicial como um “erro crasso”. Ele admite que a atuação dos ufólogos — a dele inclusive — pode ter influenciado as testemunhas com suas crenças e aponta que os depoimentos militares fundamentais foram conseguidos “única e exclusivamente” por Pacaccini, sugerindo que tais relatos foram “induzidos”, “fabricados” e “artificialmente construídos”.

Para muitos pesquisadores atuais, o colapso dessa base militar isola Pacaccini, cuja credibilidade agora depende da exibição de provas materiais incontestáveis que ele alega ter visto — como um vídeo de uma das criaturas supostamente capturadas. Ubirajara, que outrora foi o maior defensor da tese extraterrestre, agora sugere que o que as meninas viram é compatível com a hipótese do Inquérito Policial Militar (IPM) do Exército, ou seja, um morador local popularmente conhecido como “Mudinho”, que costumava ficar agachado na mesma posição descrita pelas testemunhas.

Para a maioria dos pesquisadores e entusiastas, no entanto, a conclusão do IPM é absurda, sobretudo frente ao testemunho original das irmãs Silva e Katia Xavier, que sempre refutaram essa hipótese por conhecerem o referido rapaz. Apesar disso, a desconstrução do “cânone” de Varginha parece inevitável diante da admissão de que o alicerce militar foi, em grande parte, uma construção negociada.

Diferentes representações artísticas do ET de Varginha, e o morador do imóvel em frente ao terreno onde ele foi visto pelas três garotas. Uma coincidência bizarra do caso (reprodução - Redes Sociais)
Diferentes representações artísticas do ET de Varginha ao longo da história, e o morador do imóvel em frente ao terreno onde a criatura foi vista pelas três garotas. Uma coincidência bizarra do caso

O enigma do material enviado à Unicamp

Enquanto a base militar do caso se desintegra, um novo mistério surge das palavras de quem sempre negou qualquer envolvimento: o Dr. Fortunato Badan Palhares. O renomado médico legista, famoso por atuar em casos de repercussão nacional, admitiu à reportagem do documentário ter recebido um telefonema atípico na época dos fatos. Segundo Badan Palhares, a orientação era para que ele não saísse do laboratório na Unicamp, pois “uma equipe do Exército Brasileiro estava levando para lá um material vindo de Varginha”. Esta é uma revelação inédita, visto que, durante décadas, o legista foi enfático ao negar qualquer contato com o episódio.

A declaração do legista é impactante e mantém uma ambiguidade estratégica que gera mais dúvidas do que certezas. Ao ser questionado se o referido material era um extraterrestre, o médico respondeu de forma esquiva: “Isso eu não me recordo”. Ele afirma que a ligação teria vindo supostamente da Secretaria de Segurança Pública e que o material seria destinado a um trabalho de exumação completo, mas ressalva que, apesar do aviso, esse conteúdo “não nos chegou até hoje”.

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Para a comunidade de pesquisadores e curiosos, o fato de Badan ter guardado essa informação por trinta anos é, no mínimo, suspeito. Anteriormente, em embates com ufólogos como o próprio Ubirajara Rodrigues, o legista chegou a ameaçar processos caso seu nome fosse vinculado ao caso. A admissão atual de que existiu, sim, uma expectativa de receber material biológico vindo de Varginha sob escolta militar altera a percepção de que tudo não passou de um boato que cresceu sozinho.

A inconsistência entre a negação absoluta do passado e a confirmação parcial do presente coloca o departamento de medicina legal da Unicamp sob novos holofotes. Se houve uma preparação oficial para receber algo vindo de Varginha, as instituições envolvidas podem ter operado em um nível de coordenação que as negativas anteriores tentavam ocultar. Entretanto, sem a confirmação do que era esse material, a fala de Badan Palhares paira no ar como uma “ponta solta” que pode tanto validar parte da movimentação militar quanto servir como uma explicação mundana para o aparato visto na época.

ET de Varginha Configencial Foto Portal Vigilia

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As sombras projetadas por Misael Filho

Diante do impasse, emerge uma hipótese antiga de que o “material de Varginha” mencionado por Badan Palhares tenha uma explicação terrena. Trata-se do caso de José Maria Misael Filho, abordado em alguns textos e declarações da época. O jovem de 23 anos faleceu dentro da cadeia de Varginha em 16 de janeiro de 1996, poucos dias antes do auge dos avistamentos ufológicos. A morte, classificada oficialmente como suicídio, foi contestada pela família, que suspeitava de espancamento policial e solicitou uma exumação para realizar exames detalhados, incluindo raios-X da coluna lombar.

Os céticos conjecturaram que a movimentação de cerca de 30 veículos, incluindo o “rabecão”, policiais civis e militares no Hospital Regional de Varginha, possa ter sido o catalisador para a histeria coletiva. O diretor do hospital na época, Adilson Usier Leite, confirmou que houve uma operação para a necropsia de um rapaz vindo da cadeia entre os dias 20 e 22 de janeiro, datas que coincidem com os relatos das irmãs Silva. Seria plausível, portanto, que o “material” que Badan Palhares esperava na Unicamp fosse, na verdade, o corpo de Misael, enviado para uma análise independente devido à gravidade das denúncias contra a polícia mineira.

Entretanto, diversas fontes apontam contradições temporais que impedem o fechamento definitivo dessa tese. Documentos do IML indicam que a necropsia de Misael Filho só foi realizada em 30 de janeiro, mais de uma semana após a data em que as testemunhas afirmam ter visto a movimentação intensa no hospital. Além disso, o Corpo de Bombeiros negou oficialmente ter participado do transporte desse cadáver, contradizendo a fala do diretor do hospital. Essa discrepância de datas e versões mantém viva a chama da suspeita de que dois eventos distintos — um policial e outro possivelmente anômalo — ocorreram simultaneamente.

À medida que o Caso Varginha completa 30 anos, as revelações da minissérie da TV Globo, embora tragam clareza sobre a fragilidade de alguns testemunhos, parecem aprofundar o abismo de incertezas. A admissão de suborno por militares e a fala ambígua de Badan Palhares não encerram o mistério; pelo contrário, elas sugerem uma trama de desinformação e erros humanos ainda mais complexa. O caso, que outrora foi uma questão de naves e seres espaciais, transformou-se em uma visceral investigação sobre a memória, a ética na pesquisa e as sombras de um passado que a cidade de Varginha não só não enterrou como vinha tentando explorar positivamente, na forma de turismo.

Hoje, 8 de janeiro, vai ao ar, depois de “Auto da Compadecida 2”, o terceiro e último episódio da minissérie. É melhor já reservar a pipoca!

Jeferson Martinho

Jornalista, o autor é empresário de comunicação, dono de agência de marketing digital e assessoria de imprensa, publisher de um portal de notícias regionais na Grande São Paulo, fundador e editor do Portal Vigília. Apaixonado por Ufologia de um ponto de vista científico, é autor do livro "Nem Todo OVNI é Extraterrestre - Um guia para entusiastas da ufologia que não querem ser iludidos", disponível na Amazon.

Um comentário em “Bomba! Revelações sobre Varginha abalam credibilidade de testemunhas militares

  1. O Pacaccini realmente tem um “perfil” de querer vender sua história a todo custo, sem absolutamente nada de documental e concreto sobre o caso. Suas características comportamentais, alegações de perseguição, sumiço e reaparecimento sempre me soaram “convenientes demais” para tentar corroborar sua história. A postura do Ubirajara, a meu ver, sempre foi muito mais sincera, analítica e investigativa, principalmente ao admitir seus próprios erros na condução dos eventos à época.

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