Jacques Vallée, IA extraterrestre e a fratura de seu sistema de controle

Em uma recente coletiva de imprensa realizada em Washington e organizada por James Fox, dedicada ao controverso caso Varginha, muitos participantes se surpreenderam ao assistir a um vídeo do pesquisador Jacques Vallée apresentando uma interpretação do fenômeno OVNI significativamente diferente da sua posição clássica associada ao chamado Sistema de Controle e mais próxima das Hipóteses Extraterrestres (HE). Em sua apresentação, Vallée afirmou que o fenômeno “parece ser um fenômeno extraterrestre potencializado por inteligência artificial avançada”.
Esta declaração entra em conflito quase frontal com décadas de firme defesa da ideia de que essas manifestações têm pouca ou nenhuma relação com visitas extraterrestres em um sentido não clássico, mas ocasionalmente se abre a possibilidade de “tecnologia alienígena”, embora não se aprofunde muito no assunto. Em seu livro Forbidden Science: Journals, 1957-1969 (1992), ele afirmou:
“Minha própria especulação é que os OVNIs operam em uma realidade multidimensional na qual o espaço-tempo é um subconjunto.” “A inteligência que o fenômeno representa poderia coexistir na Terra tão facilmente quanto poderia se originar em outro planeta do nosso universo, ou em um universo paralelo.”
Embora Vallée já tivesse publicado o artigo “Five Arguments Against the Extraterrestrial Origin of Unidentified Flying Objects” [nota do editor: Cinco Argumentos Contra a Origem Extraterrestre de Objetos Voadores Não Identificados, em português] em 1990, no qual argumentava que tanto o número extremamente elevado de pousos de OVNIs quanto o antropomorfismo suspeito dos supostos ocupantes invalidavam completamente a Hipótese Extraterrestre como explicação para o fenômeno OVNI, suas palavras causaram considerável surpresa.
Para aprofundar essa aparente divergência, o pesquisador Joe Murgia decidiu contatar Vallée diretamente por e-mail: “Aqui, durante uma coletiva de imprensa sobre Varginha organizada por James Fox, você afirmou que o fenômeno ‘parece ser um fenômeno extraterrestre potencializado por inteligência artificial avançada’”. Isso representa “uma mudança de opinião em relação à origem do fenômeno? Porque, ao longo de dois anos, você falous outras realidades e dimensões e tendeu a se distanciar da Hipótese Extraterrestre (HE). Busco um esclarecimento que possa publicar no Twitter/X.”
A resposta de Vallée foi imediata: “Não creio que essas ideias sejam mutuamente excludentes. Começamos a usar IA de forma bastante ativa e devemos esperar que outras espécies também o façam — e melhor do que nós. Para mim, as criaturas vistas em Trinity, Socorro e Valensole, e agora reveladas com bastante clareza em Varginha, podem ser ‘robôs’ biológicos artificiais, projetados para suportar nossa gravidade, respirar nosso ar e parecer ‘humanoides’ o suficiente para interagir conosco — ou simplesmente para aprender sobre nós. Quando discuti isso com Bill Powers por volta de 1966, logo após Socorro, ele disse, meio brincando, que poderiam ser ‘máquinas observadoras’. Isso poderia significar que qualquer projeto secreto destinado a estudar sua biologia, por mais interessante que seja, não nos ensinará nada sobre a origem dos OVNIs, cujos verdadeiros controladores estão em outro lugar e evoluíram como nós. Cheguei à conclusão de que existem pelo menos dois níveis envolvidos.”
Contudo, longe de esclarecer definitivamente sua posição, essas explicações parecem adicionar um novo nível de confusão às suas recentes declarações ambíguas, incluindo o livro Trinity (2024), onde ele flertou mais abertamente do que nunca com a Hipótese Extraterrestre (HE). A introdução de conceitos como “robôs artificiais biológicos”, “inteligências artificiais extraterrestres” ou “outras espécies” claramente entra em conflito com a linha de argumentação que Vallée mantém há décadas dentro da estrutura do Sistema de Controle. Em seu livro Confrontations (2022), ele escreveu:
“Como alternativa à HET, proponho considerar o fenômeno OVNI como uma manifestação física de uma forma de consciência que é estranha aos humanos, mas que é capaz de coexistir conosco na Terra […] O fenômeno OVNI não pode ser compartimentalizado. É um fenômeno holístico que se conecta com todos os aspectos do conhecimento humano, do folclore à astrofísica, da etnologia à física quântica, da física de partículas à parapsicologia.”
Vallée argumentava que: “O fenômeno OVNI existe. Ele esteve presente ao longo de toda a nossa história. É de natureza física e a ciência atual é incapaz de explicá-lo. Corresponde a um nível de consciência que ainda não alcançamos, é capaz de manipular as dimensões temporais e espaciais que conhecemos e afeta nosso próprio nível de consciência de uma maneira incompreensível, comportando-se globalmente como um sistema de controle” (Vallée, 1992).
Embora ele insista que essas ideias não são mutuamente excludentes, o seu próprio reconhecimento de “dois níveis” e da existência de “controladores reais” localizados em outro plano sugere, na verdade, uma espécie de hipótese extraterrestre de segunda ordem. Em última análise, Vallée parece admitir implicitamente, nos últimos tempos, a existência de um componente alienígena não fenomenal, um extremo do qual, como vimos, nunca se distancia completamente, enquanto, ao mesmo tempo, tenta preservar, por meio de seus balanços conceituais, a força de um imponente edifício teórico construído ao longo de seis décadas precisamente sobre a exclusão dessas possibilidades.
*Artigo publicado originalmente no blogue do autor, traduzido e reproduzido com autorização. Conheça as ideias do autor neste link.








