Vazamentos do MJ-12 dividem pesquisadores após descoberta de novos registros da CIA

Vazamentos do MJ-12 dividem pesquisadores após descoberta de novos registros da CIA
Vazamentos do MJ-12 dividem pesquisadores após descoberta de novos registros da CIA

Investigadores civis e analistas dos fenômenos anômalos e não identificados travam uma nova batalha documental sobre a veracidade dos controversos arquivos Majestic-12 (MJ-12). A disputa ganhou força nas últimas semanas após a publicação de análises em plataformas digitais que tentam validar a proveniência de relatórios secretos das décadas de 1940 e 1950 através de cruzamentos com metadados administrativos da CIA e da NSA, e estabelecendo uma linha do tempo que chega até 2022.

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O debate central ocorre em fóruns de pesquisa e redes sociais, onde críticos e defensores comparam carimbos de identificação de arquivos da Operação Paperclip com memorandos da presidência de Harry Truman. O objetivo é determinar se os registros, que descrevem uma organização de elite para lidar com tecnologias não humanas, são evidências históricas genuínas ou se os novos “vazamentos” representam uma falha metodológica na análise de documentos que já estavam disponíveis ao público há décadas.

A relevância desse embate reside na natureza do Majestic-12, descrito como um comitê ultra-secreto composto por 12 cientistas, generais e oficiais de inteligência, supostamente estabelecido por Truman após o incidente de Roswell em 1947. De acordo com os registros em disputa, o papel do grupo era coordenar a recuperação de destroços, o estudo científico de naves recuperadas e a análise de entidades biológicas não humanas. A validação desses papéis confirmaria a existência de um governo paralelo operando fora do controle constitucional, tornando o MJ-12 uma peça tão fundamental para o Caso Roswell quanto para a própria a ufologia em geral.

O surgimento dos arquivos Majestic-12 remonta ao período entre 1984 e 1987, quando um rolo de filme contendo documentos supostamente secretos foi enviado de forma anônima ao produtor de TV Jaime Shandera. O conteúdo desses arquivos descrevia a criação de um comitê de elite composto por 12 membros e seu tema central. Embora pesquisadores pioneiros como Stanton Friedman tenham investigado e defendido a autenticidade de partes do material, o conjunto foi alvo de intenso ceticismo e alegações de fraude, sendo frequentemente associado a operações de desinformação da inteligência militar conduzidas por figuras como Richard Doty.

O peso dos carimbos administrativos

A nova onda de discussões foi impulsionada por um pesquisador que se identifica apenas pelo pseudônimo MJ12 Logic e se diz interessado no “complexo científico-industrial-militar de inteligência”, que afirma ter encontrado uma “validação definitiva” para diversos documentos da coleção Majestic. Seu argumento central baseia-se na identificação do número de controle “834021-“, encontrado em relatórios do MJ-12 e que supostamente teria aparecido em 345 páginas de documentos da CIA sobre a Operação Paperclip desclassificados apenas em 2022. De acordo com essa tese, seria tecnicamente impossível para um falsificador na década de 1980 conhecer códigos de roteamento interno que o governo só tornaria públicos quase quarenta anos depois.

Essa descoberta gerou um entusiasmo imediato em setores da comunidade de inteligência civil, que viram nos números de registro “ER-1-2735” e “A-1762.1” a prova final de uma burocracia estatal oculta. O pesquisador e autor de ‘Communion’, Whitley Strieber, que se dedica há décadas ao estudo do tema, afirmou para seus leitores em sua página pessoal no Substack que “o encobrimento foi desmascarado pelas novas evidências sobre a proveniência dos arquivos MJ-12”. Para Strieber e outros entusiastas, os códigos administrativos representam a digitalização da realidade de um governo paralelo.

A análise técnica sugere que esses números de roteamento não são aleatórios, mas referem-se a localizações físicas de armazenamento e lotes de processamento de documentos de inteligência. No caso do código “A-1762.1”, pesquisadores apontam que ele aparece em um documento de 2003 da CIA que detalha a contratação de cientistas alemães no pós-guerra, reforçando a conexão entre o grupo Majestic e as operações de inteligência científica dos Estados Unidos. O impacto dessas informações foi descrito como um choque para os céticos que, por anos, classificaram os arquivos como ficção.

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Entretanto, a validade dessas conexões depende inteiramente da cronologia da desclassificação desses arquivos. Se os códigos burocráticos estivessem protegidos por sigilo absoluto até 2022, a presença deles em papéis “vazados” em 1984 seria uma evidência forense poderosa. Caso contrário, a tese de que apenas um membro do alto escalão do governo poderia ter tido acesso a tais marcas de autoridade perde sustentação técnica, transformando o que parecia uma prova irrefutável em uma coincidência administrativa ou em um erro de pesquisa.

MJ 12 Logic vê relação entre código dos documentos do MJ 12 e 345 páginas papeis da CIA sobre a Operação Paperclip desclassificados apenas em 2022 (Crédito - MJ 12 Logic - Reprodução)
MJ 12 Logic vê relação entre código dos documentos do MJ 12 e 345 páginas papeis da CIA sobre a Operação Paperclip desclassificados apenas em 2022 (Crédito – MJ 12 Logic – Reprodução)

A falha na cronologia da desclassificação

A reviravolta no caso surgiu quando pesquisadores independentes começaram a auditar as fontes citadas por MJ12 Logic e descobriram discrepâncias nas datas de liberação dos arquivos da CIA. O crítico conhecido como Bookwrrm, que atua na comunidade de pesquisa r/UFOs, identificou que os documentos da Operação Paperclip usados como base para a prova de autenticidade continham carimbos de aprovação datados de novembro de 1985. Isso indica que as informações sobre os números de controle “834021” já circulavam no ecossistema de pesquisadores da Lei de Liberdade de Informação (FOIA) no mesmo período em que os primeiros documentos MJ-12 surgiram.

A análise detalhada mostra que o selo de “2022” refere-se meramente ao momento em que os arquivos foram digitalizados para o portal online da CIA, e não à data de sua desclassificação original. O pesquisador independente conhecido como Bookwrrm afirmou em uma discussão técnica para o veículo Reddit que “a literal primeira página dos documentos usados para provar a hipótese mostra claramente que estes foram pedidos de FOIA feitos em uma época contemporânea ao lançamento dos arquivos MJ-12 em meados dos anos 80”. Segundo ele, isso invalida o argumento de que um falsificador daquela época não teria acesso aos modelos burocráticos reais para aumentar a credibilidade de uma fraude.

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A crítica se estende à falta de rigor na verificação de outros códigos, como o “ER-1-2735”, que é um número de registro executivo comum a milhares de documentos processados pelo mesmo escritório da CIA. Analistas apontam que, longe de ser um código secreto e único, esses identificadores eram de conhecimento de jornalistas e historiadores que investigavam o governo na década de 1980, como Linda Hunt, cujas pesquisas sobre cientistas nazistas foram fundamentais para a liberação desses mesmos lotes de arquivos. A facilidade com que esses dados poderiam ser replicados por terceiros torna a descoberta de MJ12 Logic, na melhor das hipóteses, neutra.

Essa lacuna na pesquisa levantou debates sobre o papel de agregadores de conteúdo em redes sociais que, muitas vezes, replicam “bombas jornalísticas” sem a devida checagem dos documentos originais. Outros membros da comunidade destacam que, embora a prova específica tenha caído por terra, isso não encerra o debate sobre a existência de uma força-tarefa secreta, mas apenas sublinha a necessidade de métodos de validação mais sofisticados do que a simples comparação de carimbos de roteamento. Algumas correntes acreditam que os documentos podem ser uma mistura de arquivos autênticos e falsificações deliberadas criadas pela própria comunidade de inteligência para confundir investigadores.

Conexões profundas com a criação da NSA

Uma abordagem distinta sobre o tema foca em um documento intitulado “Unidentified Aircraft Sightings Over the United States”, datado de setembro de 1947, que ligaria a origem do MJ-12 à fundação da Agência de Segurança Nacional (NSA). De acordo com a análise de SeniorTrender, este relatório carrega a autoridade NSCID 6, a diretiva fundamental que governa a inteligência de sinais (SIGINT) e que serviu de base para a criação da NSA por Harry Truman em 1952. O documento traz uma nota atribuída ao próprio Truman, determinando que o diretor da então recém-criada agência deveria guardar o arquivo para referência futura.

A correlação mais impressionante apontada por SeniorTrender é que o relatório de avistamentos possui o mesmo número de controle do memorando presidencial secreto que estabeleceu a NSA, um detalhe visual que só se tornou amplamente acessível ao público em 2000. O analista SeniorTrender defende em seu boletim informativo que “a convergência de detalhes corroborantes torna a fabricação uma explicação cada vez mais difícil”, referindo-se ao fato de que o documento do Majestic foi indexado em 1999, meses antes que esses detalhes visuais específicos da fundação da NSA fossem publicados.

A investigação sugere que o Majestic-12 pode ter sido o núcleo de um aparato de guerra psicológica projetado para gerenciar o impacto social do fenômeno UFO. Documentos da época, como as propostas para a criação de uma agência nacional de informação (NSIA), mostram estruturas quase idênticas às que a NSA viria a adotar, com supervisão do Conselho de Segurança Nacional e ligação estreita com a CIA. Essa arquitetura institucional teria sido desenhada para unificar operações domésticas e estrangeiras sob o pretexto de segurança nacional, permitindo o controle da narrativa pública sobre avistamentos inexplicáveis.

A linha do tempo de 1952 é apresentada como uma sequência de resposta a crises, começando com o relatório do comitê Brownell em junho, passando pelos sobrevoos de Washington D.C. em julho e culminando na criação da NSA em outubro. Analistas argumentam que, se a agência foi criada como sucessora de um aparato de guerra psicológica que gerenciava a questão UFO desde 1947, o controle absoluto das comunicações globais seria a ferramenta definitiva para manter esse segredo. A discussão agora se volta para novos pedidos de FOIA que foquem especificamente na transição burocrática entre essas entidades de inteligência do pós-guerra.

Whitley Striber em defesa da pesquisa MJ12 Logic

A polêmica em torno dos documentos, diante de tantas teorias, está longe de terminar. Whitley Strieber, em defesa da pesquisa de MJ12 Logic, declarou abertamente que ela conseguiu romper o encobrimento governamental ao comprovar a veracidade dos documentos Majestic-12. Segundo Strieber, o fato de as páginas dos arquivos Majestic compartilharem o mesmo número de relatório “834021” e paginação manuscrita de um documento oficial da CIA sobre o Projeto Paperclip é uma evidência definitiva da realidade do grupo.

Ele argumenta que essa descoberta valida as investigações clássicas de Stanton Friedman, sugerindo que o MJ-12 foi o nome correto de um comitê estabelecido por Truman em 1947. Para Strieber, essa validação documental indica que o esforço para estudar tecnologias e biologia de origem não humana começou quase imediatamente após o incidente de Roswell.

Para corroborar essa visão, Strieber resgatou o testemunho do General Arthur Exon, a quem entrevistou, que afirmou ter servido como ligação da Força Aérea com o grupo científico original do Majestic durante os anos 1950. Exon teria revelado a Strieber que o alto escalão do governo soube em menos de 24 horas que o material recuperado em 1947 “não era deste mundo”.

Em sua publicação no Substack, Strieber descreve uma cultura de segredo absoluto, onde registros formais eram evitados através de práticas como o “pencils up” em reuniões estratégicas. Até mesmo a Wikipedia o autor acusa de braço do acobertamento. Embora admita que nem todo documento da coleção seja necessariamente autêntico, Strieber sustenta que a existência operacional do MJ-12 é agora uma certeza histórica estabelecida pela dedicação da pesquisa civil.

Redação Vigília

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