A pressão internacional pelo desacobertamento de arquivos secretos sobre fenômenos aéreos não identificados atingiu um novo patamar de influência com a união de parcela da classe política à comunidade ufológica. E retomou esforços também no Brasil. Impulsionados pela recente liberação de documentos, fotos e arquivos confidenciais pelo governo dos Estados Unidos, pesquisadores brasileiros articulam uma nova ofensiva pela transparência institucional. O movimento busca sensibilizar o governo federal para que o Brasil siga a tendência de países como França, Uruguai e Chile, que têm avançado na divulgação de informações sobre o tema.
O foco central da mobilização atual é uma petição pública direcionada ao Presidente da República, solicitando o acesso irrestrito a registros classificados como “Secretos” e “Ultrassecretos”. Os ufólogos defendem que tais arquivos, em posse das Forças Armadas e órgãos de inteligência, contêm dados cruciais sobre Fenômenos Anômalos Não Identificados (UAPs) observados em território brasileiro. A justificativa é que, se potências democráticas estão desclassificando esses dados sem prejuízo à segurança nacional, não haveria razão para a manutenção do sigilo no país.
A nova campanha, liderada por figuras como Edison Boaventura Júnior, vice-presidente da Agência de Ufologia (ANUBIS), enfatiza que a ocultação de informações confirmadas por militares fere a soberania do saber do povo brasileiro. Entre os documentos visados estão novos registros sobre a Operação Prato, o Caso Varginha e a Noite Oficial dos OVNIs, casos que permaneceriam com lacunas oficiais apesar do vasto acervo já conhecido. A proposta inclui a revisão imediata de arquivos sob sigilo e a atualização do acervo do Arquivo Nacional com novos dados coletados por décadas.
A estratégia de atuação vai além da mera liberação de papéis, propondo uma mudança estrutural na forma como o Estado brasileiro lida com o fenômeno. Os ativistas pleiteiam a criação de uma Comissão Mista, composta por civis e militares, para a análise e divulgação periódica de novos avistamentos. Esse modelo permitiria um avanço científico significativo sobre o tema, garantindo que as implicações sociais e de segurança aérea desses registros sejam discutidas de forma aberta e democrática com a sociedade.
Participação popular e o direito à informação
Para aqueles que desejam apoiar a iniciativa, a principal forma de engajamento é a adesão à petição online disponível neste link. A participação popular é considerada um pilar fundamental para demonstrar ao Poder Executivo que o interesse pelo tema não é restrito a um pequeno grupo de especialistas, mas uma demanda social legítima. O documento será formalmente enviado à Presidência da República para fundamentar o pedido de revisão dos sigilos vigentes.
O movimento fundamenta suas solicitações na Lei de Acesso à Informação (LAI – Lei nº 12.527/2011), argumentando que o direito à informação deve prevalecer sobre políticas de sigilo obsoletas. Os ufólogos ressaltam que a transparência global é um caminho sem volta e que o Brasil precisa atualizar seus protocolos para não ficar isolado no cenário internacional. A campanha incentiva que entusiastas e ativistas divulguem a petição para ampliar o alcance do clamor pelo fim do acobertamento.
Além da coleta de assinaturas, a mobilização atual exige a realização de uma Audiência Pública no Congresso Nacional para debater a natureza desses registros. O objetivo é reunir especialistas civis e autoridades militares para discutir a segurança do espaço aéreo e os possíveis impactos da presença desses objetos em solo brasileiro. Acredita-se que o diálogo público é a melhor ferramenta para desmistificar o assunto e promover uma investigação científica séria.
A urgência do pedido também se baseia no fato de que ex-autoridades da Defesa e militares de alta patente já confirmaram a existência de pesquisas oficiais conduzidas nas sombras por décadas. Documentos do antigo SIOANI (Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados) e relatórios de fragmentos coletados nas décadas de 60 e 70 são citados como exemplos de material que já deveria estar sob domínio público. O engajamento da população é visto como o motor necessário para que o governo brasileiro finalmente rompa com a política de silêncio.
O eco de lutas históricas pelo desacobertamento
Essa não é a primeira vez que membros da comunidade ufológica brasileira se unem para exigir transparência governamental. O histórico de mobilização remonta a eventos como o I Fórum Mundial de Ufologia, realizado em Brasília em 1997, que resultou na Carta de Brasília. Naquela ocasião, pesquisadores entregaram o documento a parlamentares e comandantes da Aeronáutica, reivindicando formalmente a liberação de arquivos das Forças Armadas para estudo civil.

Um dos marcos mais significativos dessa trajetória foi a campanha nacional “UFOs: Liberdade de Informação Já!“, lançada oficialmente em 2004 pela Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU). Liderada pelo falecido editor Ademar José Gevaerd, a iniciativa utilizou o site da Revista UFO para reunir milhares de assinaturas, exigindo o fim do sigilo oficial. A campanha argumentava que os ufólogos tinham o direito de conhecer o funcionamento de pesquisas oficiais e de se oferecerem para participar de investigações conjuntas.
O sucesso dessa pressão histórica culminou em um encontro sem precedentes em 20 de maio de 2005, quando militares da FAB receberam a CBU em Brasília. Durante a visita, os pesquisadores tiveram acesso às instalações do Cindacta 1 e do Comdabra, onde foram apresentadas pastas com documentos confidenciais, incluindo registros da Operação Prato. Pela primeira vez na história, a Força Aérea reconheceu oficialmente a existência de tal operação, embora tenha minimizado seu rigor científico na época.
A atual campanha de 2026 recupera esse fôlego histórico, buscando consolidar o que Gevaerd chamou de “um primeiro passo” dado décadas atrás. Enquanto as mobilizações passadas conseguiram o reconhecimento da existência dos arquivos, a luta atual foca na desclassificação definitiva dos documentos de mais alto nível de sigilo. O legado de persistência da comunidade ufológica brasileira serve de alicerce para que a nova geração de ativistas continue pressionando por uma parceria civil-militar transparente.


