O descrédito da classe política é um fenômeno sintomático e crescente em democracias ao redor do mundo, onde a população frequentemente encara promessas eleitorais com profundo ceticismo. Nesse cenário de crise de confiança, temas que despertam a curiosidade e o fascínio popular, como os Fenômenos Aéreos Não Identificados (OVNIs/UAPs), têm sido capturados como ferramentas de projeção e mobilização. Nos Estados Unidos, figuras como a senadora Lauren Boebert e até ex-presidentes como Bill e Hillary Clinton utilizaram a promessa de “revelar a verdade” sobre segredos governamentais para atrair doadores e engajar eleitores.
Mais recentemente, em meio a escândalos internos e crises internacionais, o presidente Donald Trump elevou isso a outro patamar, não apenas determinando a liberação de arquivos secretos (que até agora não revelaram realmente nada novo) mas até mesmo apelando para uma bizarra convergência entre o tema “alienígenas” a uma bandeira de ódio aos migrantes estrangeiros alçada a política de estado.
No Brasil, essa estratégia ganha um novo expoente: o pré-candidato à presidência Aldo Rebelo.
Ao traçar um paralelo entre a tendência global e a conduta de Rebelo, nota-se o uso recorrente de artifícios de linguagem que tentam sugerir autoridade, mas evitam o compromisso com fatos concretos e científicos. No dicionário das ruas, é o popular “caô”.
Em publicações e entrevistas, ele afirma categoricamente: “Eu sei o que as Forças Armadas têm nos arquivos”. Essa frase é um exemplo clássico de dubiedade: ele não afirma explicitamente que os arquivos contêm “provas de um fenômeno insólito” ou de inteligência não-humana, preferindo uma formulação vaga que permite ao interlocutor projetar suas próprias crenças sobre o que estaria escondido.
Mais grave é o uso de subterfúgios argumentativos baseados em anacronismos que ele, em sua vasta experiência política, raramente se esforça para corrigir. Durante entrevistas a pesquisadores e podcasts estrangeiros, como a recente participação no canal de Jesse Michels, é frequente a associação de sua autoridade como ex-ministro da Defesa ao conhecimento direto de eventos como o Caso Varginha. No entanto, o incidente de Varginha ocorreu em 1996, ano em que o Ministério da Defesa sequer existia — a pasta foi criada apenas em 1999. Aldo Rebelo ocupou o cargo de ministro da Defesa por um período breve, entre outubro de 2015 e maio de 2016.
Ao permitir que pesquisadores e o público acreditem que sua posição ministerial lhe deu uma visão privilegiada “na época” dos fatos, Rebelo utiliza uma lógica inválida para se colocar em uma posição de vantagem informativa que o tempo histórico desmente.
Outros exemplos de utilização da linguagem como ferramenta de desinformação aparecem em sua promessa condicionada. Rebelo afirma que abrirá os arquivos brasileiros apenas se o governo dos Estados Unidos fizer o mesmo e se for eleito presidente em 2026. Essa tática transfere a responsabilidade para uma potência estrangeira e transforma o que deveria ser um compromisso com a transparência pública em uma moeda de troca eleitoral.
Ademais, ao ser cobrado por uma posição definitiva sobre a veracidade de Varginha, Rebelo frequentemente recua da suposta autoridade institucional para o campo da crença anedótica. Em sua entrevista ao pesquisador Jesse Michels, ele admite acreditar no incidente não por apresentar as provas técnicas que diz conhecer, mas por dar crédito ao testemunho de terceiros, como o neurocirurgião Dr. Venturelli, em quem ele afirma depositar total confiança pessoal.
Ao basear sua convicção em informações de terceira ou quarta mão — o que ele “ouviu” de pessoas a quem ele considera — em vez de apresentar um lastro de documentação oficial ou análises científicas verificáveis, Rebelo nivela seu discurso ao de qualquer entusiasta. Não há, nessa postura, nenhuma diferença entre a responsabilidade de um ex-ministro e a credulidade ingênua (ou oportunista) de quem escolhe acreditar por conveniência.
É necessário cobrar honestidade de quem almeja o cargo máximo da República. A comunidade ufológica, composta por pesquisadores e cidadãos que buscam respostas sérias para fenômenos documentados, não pode ser tratada como massa de manobra para “estratégias de engajamento”. Para alguém que se apresenta como defensor da soberania nacional e crítico da “hipertrofia” de outras instituições, agir com clareza seria o primeiro passo para sair do lugar comum da desconfiança generalizada.
Em vez de reforçar o estereótipo do político que explora o mistério para obter ganhos pessoais, o sr. Aldo Rebelo deveria, por respeito à história e à inteligência dos brasileiros, separar o que é fato histórico documentado do que é apenas conveniência de campanha.


