Uma transmissão destinada a acompanhar a migração de alces nas florestas da Suécia acabou produzindo, involuntariamente, mais um pequeno mistério ufológico da internet.
Imagens do programa Den stora älgvandringen (“A Grande Migração dos Alces”), produzido anualmente pela emissora pública sueca SVT, mostram pontos luminosos surgindo durante uma gravação noturna, aparentemente sobre a floresta. Alguns mudam rapidamente de posição; outros parecem acelerar ou mesmo se dividir.
Não demorou para que os registros circulassem em redes sociais e canais dedicados à ufologia, onde foram interpretados como possíveis objetos voadores não identificados — em alguns casos, como uma verdadeira “frota” movimentando-se sobre a região.
Um dos argumentos empregados para reforçar a estranheza das imagens foi justamente sua procedência. Não se tratava de um vídeo anônimo publicado nas redes, mas de imagens provenientes das câmeras da televisão pública sueca, instaladas para monitorar a fauna.
Em uma das repercussões do caso, um comentarista chamou atenção para esse aspecto e procurou antecipadamente afastar a hipótese de insetos:
“Isso é incrível, pessoal, porque simplesmente é uma câmera que é do governo […] À primeira vista a gente poderia pensar: pode ser um inseto passando na frente […] Mas tem uma parte aí que tem um inseto passando ali embaixo e você vê que é nítida a diferença.”
A comparação com um inseto, entretanto, parte de uma premissa errada. O que aparece diante da câmera não precisa ter a forma reconhecível de um animal.
O fenômeno está no céu ou diante da lente?
O analista de imagens Jorge Uesu, parceiro de longa data do Portal Vigília, examinou as gravações e encontrou uma explicação consideravelmente mais terrestre — e muito próxima da câmera.
Segundo Uesu, os pontos luminosos são compatíveis com fios de teia de aranha próximos da lente, iluminados pelo sistema infravermelho utilizado pela câmera durante a noite.
Câmeras desse tipo normalmente iluminam a cena com LEDs no infravermelho próximo. Essa radiação é invisível aos nossos olhos, mas registrada pelo sensor da câmera. O problema aparece quando pequenos objetos — insetos, partículas, gotas ou fios de seda — passam perto da lente e recebem diretamente essa iluminação.
Como estão muito fora do plano de foco, não aparecem com sua forma real. Transformam-se em manchas ou pontos luminosos difusos.
O fundo, entretanto, continua perfeitamente reconhecível: árvores, céu e horizonte permanecem em foco. Nosso cérebro tende então a interpretar os pontos sobrepostos à paisagem como objetos existentes na mesma profundidade da cena, quando na realidade podem estar a poucos centímetros da câmera.
É daí que nascem muitos dos famosos “orbes” registrados por câmeras de segurança.
No caso sueco, há ainda uma característica particularmente enganosa: alguns dos pontos parecem mudar de direção abruptamente ou dividir-se em dois.
Uesu explica por quê:
“Repare que as luzes mudam rapidamente de posição e parecem se dividir em duas. Mas, apesar de parecer algo fantástico, já vi muita coisa parecida. Esses vídeos mostram teias de aranha refletindo a luz infravermelha da própria câmera.”
Segundo ele, o comportamento aparentemente complexo surge do próprio movimento dos fios:
“Não são pontos de luz no céu, mas sim uma teia desfocada bem perto da câmera, onde cada fio cria um ponto de reflexo e, com a teia flutuando ao vento, os reflexos ficam mudando de posição.”
Assim, uma alteração mínima na posição ou inclinação de um fio pode fazer um reflexo desaparecer e outro surgir imediatamente em outro ponto da imagem. Visto sem uma referência de profundidade, o efeito se parece muito mais extraordinário do que realmente é.
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A prova aparece na própria câmera
Uesu foi além da comparação com casos semelhantes.
Para testar a hipótese, procurou gravações posteriores feitas pela mesma câmera da SVT. Nas imagens obtidas sob outras condições de iluminação, aquilo que durante a noite praticamente desaparecia tornou-se perceptível.
Havia teias diante da câmera.
“Para comprovar isso, peguei imagens dessa mesma câmera na noite seguinte, onde, com atenção, podemos ver que essa área está cercada por teia de aranha”, explicou.
A observação é especialmente importante porque resolve uma dificuldade comum desse tipo de registro. Durante a gravação infravermelha, o espectador vê os pontos brilhantes, mas não enxerga necessariamente os fios que os produzem. Sem a estrutura que liga um reflexo ao outro, cada brilho parece um objeto independente.
Quando a teia se torna visível, a geometria do fenômeno muda completamente.
E se a teia estiver flutuando?
A análise de Uesu não deixa dúvidas quanto à origem do registro curioso, mas acabou não explorando um aspecto que favorece ainda mais esse tipo de vídeo em áreas de floresta, com fios que parecem mover-se livremente diante de câmeras sem permanecer exatamente presos à lente ou à carcaça do equipamento.
Aranhas jovens de diversas espécies utilizam um comportamento conhecido em inglês como ballooning, ou balonismo aracnídeo. Elas liberam fios extremamente finos de seda e podem ser transportadas pelo ar, aproveitando correntes atmosféricas e até forças associadas ao campo elétrico da atmosfera.
Esses filamentos podem viajar pelo ambiente e atravessar momentaneamente o campo de visão de uma câmera. As malhas de teias podem facilmente chegar a 4 metros de diâmetro para uma aranha (ou grupos delas) minúscula.
Isso não significa que seja possível determinar, apenas pelas imagens da SVT, que os fios registrados tenham sido produzidos especificamente durante um episódio de ballooning. A presença de teias diante da câmera é observável; sua origem exata, não.
Mas o fenômeno ajuda a explicar por que seda de aranha pode aparecer suspensa ou deslocando-se pelo ar sem formar a clássica teia geométrica que esperamos encontrar presa entre dois pontos.
E basta um filamento suficientemente próximo do iluminador infravermelho para produzir um espetáculo bastante convincente.
Um velho conhecido das câmeras noturnas
O caso sueco está longe de ser excepcional.
Insetos, poeira, gotas d’água e principalmente teias próximas da lente estão entre as fontes mais comuns de “orbes” em câmeras de vigilância e equipamentos de monitoramento ambiental.
A configuração desses sistemas favorece o efeito. A fonte infravermelha costuma ficar instalada junto à própria lente. Qualquer objeto muito próximo recebe, portanto, uma iluminação intensa exatamente na direção do sensor.
Além disso, câmeras externas oferecem às aranhas um lugar particularmente conveniente. A estrutura fornece abrigo e, durante a noite, a região ao redor do equipamento pode concentrar pequenos insetos — justamente as presas que interessam aos aracnídeos.
O resultado é uma combinação perfeita para fabricar falsos mistérios: teias a centímetros da lente, iluminadas por uma fonte invisível ao observador e completamente fora de foco, sobrepostas a uma paisagem distante e perfeitamente nítida.
Dependendo do vento e da geometria dos fios, os reflexos podem acelerar, desaparecer, reaparecer, multiplicar-se ou mudar subitamente de direção.
Exatamente o tipo de comportamento que, quando observado sem contexto, costuma ser descrito como incompatível com objetos convencionais.
Antes de procurar algo no céu, olhe para a câmera
Há uma lição metodológica simples no episódio.
A procedência oficial de uma gravação pode garantir que as imagens sejam autênticas, mas não garante que a interpretação feita sobre elas esteja correta.
What was picked up on my security camera in my backyard last night? Why does it reflect on my house?
by
u/fledglingbirdnerd in
creepy
As câmeras da SVT realmente estavam na floresta. Os pontos luminosos realmente foram registrados. Não há necessidade de fraude, manipulação digital ou montagem para explicar o vídeo.
O erro acontece depois: ao pressupor que aquilo que aparece sobre o céu na imagem necessariamente está no céu.
A análise de Jorge Uesu e, principalmente, a identificação posterior das teias diante da própria câmera fornecem uma explicação que reproduz tanto a aparência quanto o comportamento dos supostos objetos.
E o episódio deixa uma regra útil para qualquer investigação de imagens anômalas produzidas por câmeras noturnas: antes de calcular velocidades impossíveis, acelerações extraordinárias ou imaginar frotas sobrevoando uma floresta, vale descobrir o que havia poucos centímetros ou metros diante da lente.


