Nova rodada do programa PURSUE reúne 28 documentos, incluindo um relato recente de objeto triangular observado por agentes federais, investigações no chamado Rancho Skinwalker e arquivos históricos sobre recuperação de materiais espaciais pela NASA e pelo Pentágono.
O governo dos Estados Unidos divulgou nesta sexta-feira, 23 de outubro, o sétimo lote de documentos do programa PURSUE, iniciativa federal de identificação, revisão e publicação de registros relacionados a fenômenos anômalos não identificados (UAPs), conhecidos popularmente como OVNIs. A nova remessa reúne 28 arquivos em formato PDF, com relatos que remontam à década de 1940 e documentos produzidos até 2026.
Desta vez, o material é exclusivamente documental. São 25 registros atribuídos ao Departamento de Defesa, um ao FBI, um ao Gabinete Executivo da Presidência e outro identificado como documentação geral do governo norte-americano. Não foram divulgados vídeos novos.
Com a atualização, o catálogo do PURSUE chega a 478 registros distribuídos em sete lotes, desde a primeira liberação, em 8 de maio de 2026. O conjunto inclui relatórios militares, entrevistas, registros históricos, gravações, imagens e documentação administrativa de programas governamentais.
O anúncio faz parte da iniciativa lançada pelo presidente Donald Trump em fevereiro, quando determinou que órgãos federais identificassem e tornassem públicos arquivos relacionados a OVNIs, fenômenos anômalos e alegações sobre vida extraterrestre. A coordenação ficou sob responsabilidade do Departamento de Defesa, com apoio do Escritório do Diretor de Inteligência Nacional.
A nova remessa contém um caso recente que chamou a atenção da imprensa norte-americana: a observação de um objeto triangular escuro por agentes federais em uma região montanhosa do oeste dos Estados Unidos. Também reúne relatos históricos de diferentes países, documentação sobre o programa AAWSAP e correspondências da década de 1960 referentes à recuperação de fragmentos de veículos espaciais.

Objeto triangular teria realizado manobras incomuns
O episódio de maior destaque envolve três agentes federais que, em 2026, teriam observado um objeto triangular de cor preta fosca, aparentemente sem mecanismos convencionais de propulsão.
O caso aparece em dois documentos oficiais: um memorando da AARO, órgão do Pentágono responsável pela investigação de fenômenos anômalos (DOW-UAP-D176), e um formulário de entrevistas do FBI (FBI-UAP-D043).
Segundo o memorando da AARO, o objeto teria uma envergadura estimada entre quatro e cinco metros, comprimento aproximado de dois a três metros e espessura máxima inferior a um metro. Sua superfície foi descrita como uniforme, sem janelas, hélices, entradas de ar ou outras estruturas identificáveis.
O incidente teria começado quando um agente localizado em um posto de observação secundário detectou um objeto com equipamento térmico e alertou dois colegas que estavam em outra posição. Estes se deslocaram para obter contato visual, utilizando binóculos e um dispositivo portátil de observação infravermelha.
De acordo com os depoimentos, o objeto subiu verticalmente cerca de 60 a 90 metros acima de uma linha de montanhas, permanecendo estável, sem inclinar ou oscilar. Após aproximadamente dez segundos de ascensão, teria parado abruptamente e permanecido imóvel por outros vinte segundos.
Em seguida, segundo os observadores, iniciou um deslocamento horizontal extremamente rápido, realizou uma curva e desapareceu na direção de um cânion, aparentemente acompanhando o relevo. Toda a movimentação final teria ocorrido em dois ou três segundos.
Os agentes afirmaram não ter ouvido qualquer ruído produzido pelo objeto. Também relataram uma assinatura térmica relativamente uniforme, sem concentrações de calor que indicassem motores ou gases de exaustão.
Uma busca terrestre realizada na manhã seguinte não encontrou destroços, marcas no solo ou danos à vegetação na área examinada.
O memorando da AARO ressalva, entretanto, que as características descritas representam interpretações dos observadores, não medições conclusivas das propriedades físicas do objeto. A velocidade foi estimada visualmente, sem registro instrumental que permitisse confirmá-la.
O que a Axios destacou sobre o caso
O episódio foi o principal destaque de uma reportagem publicada nesta sexta-feira pela Axios, assinada pelo jornalista Marc Caputo.
A publicação ressaltou a experiência dos agentes com aeronaves convencionais e drones, além do fato de a observação ter ocorrido em uma instalação relacionada à segurança nacional. A descrição de um objeto capaz de permanecer imóvel e depois deslocar-se rapidamente, sem ruído perceptível, foi apresentada como motivo de interesse para autoridades militares e de inteligência.

A reportagem também sugeriu que o desempenho atribuído ao objeto excederia capacidades conhecidas de equipamentos dos Estados Unidos e de seus adversários. Essa interpretação, porém, não equivale a uma demonstração técnica de desempenho extraordinário.
Os documentos não incluem medições independentes de velocidade ou aceleração capazes de sustentar essa conclusão.
O relatório do FBI (FBI-UAP-D043) inclui uma sequência de imagens que reconstitui visualmente a trajetória descrita pelos agentes, utilizando fotografias da paisagem montanhosa com a inserção de uma silhueta triangular. Não se trata de registros fotográficos do objeto, mas de ilustrações do avistamento.
Há, entretanto, uma divergência significativa entre os documentos oficiais. Enquanto o memorando da AARO (DOW-UAP-D176) descreve uma sequência de aproximadamente 33 segundos, incluindo subida vertical, permanência estacionária e deslocamento horizontal, o depoimento registrado pelo FBI (FBI-UAP-D043) afirma que o avistamento durou cerca de três segundos. Os documentos não esclarecem essa diferença, que chama a atenção por envolver relatos do mesmo episódio.
Portanto, embora a documentação confirme que o caso foi formalmente registrado por órgãos federais, ela ainda não permite determinar o que foi observado nem comprovar as características extraordinárias atribuídas ao objeto.
Relatos antigos de OVNIs voltam aos arquivos oficiais
Outra parcela significativa do sétimo lote reúne ocorrências históricas registradas principalmente nas décadas de 1940 e 1950.
Há documentos envolvendo episódios na Arábia Saudita, Guam, Itália, Canadá, Alemanha, Marrocos, Alasca, Suécia e diferentes regiões dos Estados Unidos.
Quatro registros tratam especificamente de observações na região da Ilha Catalina, na Califórnia, entre 1949 e 1955 (DOW-UAP-D181, DOW-UAP-D179, DOW-UAP-D178 e DOW-UAP-D177). A área integra a história inicial da Ufologia norte-americana, com numerosos relatos de objetos não identificados sobre o litoral do Pacífico.
Entre os casos citados pela Axios está o depoimento de um piloto sueco da Transair que, após observar um objeto descrito como metálico, arredondado e ligeiramente elíptico, teria reconsiderado seu ceticismo em relação aos relatos desse tipo (DOW-UAP-D163). O documento, de 1953, reproduz informações da imprensa local e também registra questionamentos sobre a confiabilidade da testemunha.
Outro documento descreve uma observação realizada pela tripulação de um bombardeiro B-52 sobre a Arábia Saudita, em 1957, quando um retorno não identificado teria aparecido no equipamento de pontaria da aeronave durante aproximadamente cinco a sete minutos (DOW-UAP-D155).

O lote também inclui registros ligados ao coronel Howard McCoy, oficial associado aos primeiros esforços da Força Aérea norte-americana para investigar relatos de objetos voadores não identificados (DOW-UAP-D180).
A importância desses arquivos está sobretudo em preservar a documentação histórica das observações. Sua publicação não significa que os episódios tenham sido recentemente investigados, nem que novas evidências tenham surgido sobre sua natureza.
O retorno do Rancho Skinwalker e dos programas secretos
Um dos documentos mais extensos da nova remessa é o relatório de 60 páginas (DOW-UAP-D174) produzido pela Bigelow Aerospace Advanced Space Studies (BAASS), empresa contratada no contexto do Programa de Aplicações de Sistemas Avançados de Armas Aeroespaciais (AAWSAP), administrado pela Agência de Inteligência de Defesa.
Datado de abril de 2010, o relatório descreve visitas realizadas por investigadores e cientistas a uma propriedade rural de Utah e seus arredores, região associada ao chamado Rancho Skinwalker. Os investigadores entrevistaram moradores, fazendeiros e outras testemunhas que relataram fenômenos incomuns, incluindo luzes esféricas, criaturas bípedes semelhantes a cães, pequenas figuras humanoides e animais de aparência supostamente pré-histórica.
A equipe também recolheu amostras de pelos, instalou sete câmeras automáticas e planejou experimentos com plantas que poderiam funcionar como sensores biológicos de alterações ambientais.
Apesar da variedade de relatos, o documento não apresenta comprovação científica da existência dessas criaturas ou de atividades sobrenaturais. O próprio relatório esclarece que uma amostra de pelos encontrada em uma rocha com manchas avermelhadas revelou-se pertencente a um guaxinim, enquanto outras amostras analisadas apresentaram material genético compatível com cães domésticos.
O conteúdo tampouco representa uma descoberta inteiramente nova. As investigações conduzidas pela BAASS já haviam sido abordadas em livros, reportagens e documentos que circularam anteriormente. Relatórios sobre o rancho também apareceram na internet antes da atual liberação. O significado da publicação está, portanto, principalmente na incorporação formal desses registros ao arquivo governamental.
A sétima rodada complementa documentação divulgada em setembro, quando o PURSUE publicou dezenas de contratos e estudos técnicos ligados ao AAWSAP, incluindo pesquisas especulativas sobre antigravidade, propulsão avançada, deformação do espaço-tempo e materiais de propriedades incomuns. Os novos arquivos incluem relatórios de gestão (DOW-UAP-D168), avaliações de capacidade investigativa (DOW-UAP-D175), estudos preparados pela organização ufológica MUFON (DOW-UAP-D166) e registros de atividades da BAASS.
Embora demonstrem que recursos públicos foram utilizados em programas que investigaram hipóteses pouco convencionais, esses documentos não demonstram que o governo tenha adquirido tecnologias extraterrestres ou confirmado a existência dos fenômenos extraordinários pesquisados. As hipóteses mais especulativas sobre tecnologias exóticas não foram acompanhadas de demonstrações experimentais capazes de comprovar sua aplicação aos fenômenos relatados.
NASA, inteligência e recuperação de materiais espaciais
Uma das partes historicamente mais interessantes da divulgação não envolve diretamente observações de OVNIs, mas a organização de operações governamentais para recuperar e examinar fragmentos de veículos espaciais durante a Guerra Fria.
Embora a documentação utilize expressões abrangentes, como “fragmentos de veículos espaciais de todos os tipos”, seu contexto é claramente terrestre. Os textos mencionam equipamentos lançados pelo próprio governo norte-americano e por países estrangeiros, além de procedimentos para identificação, análise e eventual devolução dos materiais aos países responsáveis pelos lançamentos.
A distinção é importante porque, em inglês, a palavra foreign significa estrangeiro no sentido de procedência de outro país, diferentemente de extraterrestrial, que designa algo originário de fora da Terra. Nos documentos examinados, não há indicação de que os materiais recuperados fossem extraterrestres ou apresentassem propriedades tecnológicas desconhecidas.
Dois arquivos reúnem documentos produzidos entre 1962 e 1964, quando diferentes órgãos norte-americanos discutiam suas responsabilidades na identificação, recolhimento, análise e destinação de materiais provenientes de veículos espaciais (EOP-UAP-D002 e USG-UAP-D002).
A documentação envolve a NASA, o Departamento de Defesa, a Força Aérea, a CIA, o Departamento de Estado e outras instituições. Os registros mostram que havia interesse militar e de inteligência na obtenção de fragmentos de equipamentos espaciais estrangeiros, especialmente no contexto da competição com a União Soviética. O material recuperado poderia fornecer informações sobre tecnologias de foguetes, satélites e sistemas utilizados por países adversários.

Um memorando de 29 de maio de 1963 (EOP-UAP-D002), encaminhado ao secretário-executivo do Conselho Nacional de Aeronáutica e Espaço, registra uma conversa na qual um funcionário da NASA manifestou a percepção de que a agência espacial poderia servir como cobertura institucional para atividades militares de recuperação de materiais.
Segundo o autor, o funcionário acreditava que o Departamento de Defesa e a Força Aérea pretendiam utilizar a agência espacial civil como fachada para determinadas operações, preservando o controle militar sobre a análise dos equipamentos. Trata-se, porém, de uma avaliação registrada na correspondência, não de uma operação de encobrimento comprovada pelo documento.
Outras correspondências estabelecem procedimentos pelos quais fragmentos de origem estrangeira poderiam ser encaminhados prioritariamente ao Departamento de Defesa para exame, antes de retornar à custódia da NASA. Há referências inclusive à recuperação de veículos completos e à participação da Comissão de Energia Atômica quando houvesse suspeita de materiais radioativos ou nucleares (USG-UAP-D002).
Essas passagens poderiam parecer particularmente sugestivas quando isoladas do contexto, sobretudo diante das alegações recorrentes sobre supostos programas secretos de recuperação de naves extraterrestres. Mas os documentos tratam explicitamente de equipamentos espaciais terrestres, incluindo satélites e veículos lançados por outros países. Não apresentam evidências de materiais de origem não humana, tecnologias impossíveis ou resultados laboratoriais extraordinários.
Seu valor está em mostrar como operações de recuperação de tecnologia podiam ser conduzidas por meio de procedimentos sigilosos, disputas de competência e diferentes níveis de divulgação pública.
Uma documentação extensa e uma ausência persistente
O sétimo lote reforça uma característica que vem marcando o PURSUE desde sua estreia: quanto mais documentos são publicados, mais evidente se torna a dimensão histórica e institucional dos esforços norte-americanos para investigar fenômenos anômalos, mas não necessariamente aumenta a quantidade de evidências capazes de explicar sua origem.
Ao longo das liberações, aparecem sucessivamente programas pouco conhecidos, operações de inteligência, empresas contratadas, bancos de dados, investigações de campo, entrevistas com testemunhas, estudos tecnológicos e procedimentos de recuperação de materiais.
Uma parte desses registros permaneceu classificada por décadas. Outra chegou ao conhecimento público por vazamentos, investigações jornalísticas ou pedidos baseados na legislação de acesso à informação. Mesmo os documentos agora divulgados apresentam omissões, trechos censurados e lacunas que dificultam a reconstrução completa das atividades.
Esse histórico alimenta uma impressão paradoxal: a de um aparato governamental que buscava informações sobre fenômenos potencialmente extraordinários, mas cuja atuação deixou um registro público fragmentado e, em muitos aspectos, insuficiente para avaliar seus resultados.
A combinação de sigilo, contratações indiretas, dispersão documental e divulgação tardia é compatível com práticas destinadas a restringir a circulação de informações sensíveis. Isso, entretanto, não permite concluir automaticamente que tenha existido uma operação coordenada para apagar provas de uma origem extraterrestre.
O paradoxo mais importante é outro.
Décadas de relatos, programas de investigação, recursos públicos, procedimentos de coleta e alegações sobre recuperação de materiais continuam sem produzir, no conjunto agora acessível ao público, uma demonstração concreta e reproduzível de tecnologia não humana.
A ausência também se estende à história mais ampla da Ufologia. Apesar de testemunhos de militares, declarações de antigos integrantes de programas secretos, supostas amostras de materiais e relatos de engenharia reversa, nenhuma dessas alegações apresentou até agora evidências físicas independentemente verificadas e amplamente disponíveis que comprovem a existência de veículos extraterrestres em poder do governo.
Isso não significa que todos os episódios estejam explicados ou que novos documentos não possam alterar o quadro. Significa apenas que a gravidade das alegações continua muito distante da força das provas apresentadas. A própria proposta do PURSUE é tornar públicos registros anteriormente inacessíveis para permitir novas análises. Nesse sentido, a abertura dos arquivos é relevante, independentemente de suas conclusões.
Mas a sétima divulgação deixa uma pergunta cada vez mais difícil de ignorar: se tantos órgãos investigaram, registraram, coletaram informações e discutiram a recuperação de materiais ao longo de tantas décadas, onde estão os resultados concretos capazes de sustentar as alegações mais extraordinárias?
Por enquanto, a resposta continua ausente. E essa talvez seja a constatação mais importante da nova rodada de documentos.

