A Hipótese Escatiana e por que o primeiro contato pode ser um grito de desespero

A Hipótese Escatiana e por que o primeiro contato pode ser um grito de desespero
Segundo a hipótese escatiana, a deteção de uma civilização é mais provável de acontecer em seu último suspiro (Ilustração por IA)

Por anos, a cultura pop, sobretudo por meio do cinema, vendeu basicamente duas versões do primeiro contato: ou uma invasão hostil ou uma irmandade galáctica de sábios benevolentes. Nos dois casos, chegar a conhecer e interagir com uma civilização extraterrestre inevitavelmente desenvolver-se-ia de uma forma impactante e irremediavelmente caótica.

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E a despeito de todas as suspeitas da Ufologia de que a visitação extraterrestre esteja ocorrendo, isso está longe de ser fato consumado para a ciência, que depende de comprovações muito mais robustas e verificáveis do que fotos borradas e relatos ambíguos. Por isso, no campo científico, ainda reverbera a pergunta que deu origem ao chamado Paradoxo de Fermi, em homenagem ao físico Enrico Fermi, seu formulador: se há tantas civilizações no universo, onde estão todas? Por que ainda não encontramos nenhuma delas?

Algumas propostas ao longo das últimas décadas têm tentado lidar com essa questão. Enquanto o astrônomo Frank Drake propôs uma equação repleta de variáveis para calcular a possível quantidade de civilizações inteligentes, ideias como a Rare Earth (ou Terra Rara), por exemplo, propôs que talvez a vida não seja tão comum assim. Por outro lado, prevendo a existência de uma sociologia do medo no Universo, o escritor Cixin Liu lançou mão da hipótese da Floresta Escura (às vezes também chamada de Floresta Negra ou Floresta Sombria), onde cada civilização procura ficar em silêncio absoluto em seu canto para evitar a aniquilação.

A hipótese da Floresta Negra e os alienígenas ocultos (Ilustração: Dall-E 2/Portal Vigília)
A hipótese da Floresta Negra e os alienígenas ocultos (Ilustração: Dall-E 2/Portal Vigília)

No entanto, uma outra proposta científica feita pelo astrônomo David Kipping, da Universidade de Columbia, sugere uma realidade ainda mais sombria e melancólica: o primeiro sinal que detectarmos de uma civilização extraterrestre pode ser, na verdade, o de suas “últimas palavras”.

É a denominada Hipótese Escatiana (do grego eschatos, que significa “o último” ou “o fim de todas as coisas”), a ideia propõe que as civilizações mais fáceis de encontrar não são as mais comuns ou estáveis, mas sim aquelas que estão em fases terminais, instáveis ou de desequilíbrio extremo.

A lógica do “barulho” astronômico

A base da proposta de Kipping não vem da ficção, mas da própria história da astronomia. Segundo o pesquisador, os fenômenos que detectamos primeiro no universo raramente são os mais comuns; eles são, quase sempre, os mais “barulhentos” e óbvios devido ao viés de observação.

Kipping cita exemplos clássicos: os primeiros exoplanetas descobertos não eram mundos como a Terra, mas planetas bizarros orbitando pulsares ou “Jupitres quentes” — gigantes gasosos tão próximos de suas estrelas que chegam a temperaturas de milhares de graus. Embora esses mundos representem menos de 1% das estrelas, eles dominaram as primeiras detecções simplesmente porque eram impossíveis de ignorar.

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O mesmo ocorre com as estrelas: cerca de um terço das estrelas que vemos a olho nu são gigantes em fase de morte, apesar de representarem apenas 1% da população estelar total. Esse efeito é conhecido como Viés de Malmquist: objetos muito brilhantes podem ser vistos de distâncias imensamente maiores, fazendo com que pareçam mais comuns do que realmente são.

O que seria uma “civilização supernova”?

Para a Hipótese Escatiana, uma civilização se torna detectável quando entra em uma fase de desequilíbrio. Isso pode ocorrer através de intervenções tecnológicas massivas, poluição atmosférica extrema ou, no limite, uma guerra nuclear global.

Kipping argumenta que, se a humanidade detonasse todo o seu arsenal nuclear de uma vez, “acenderíamos como uma árvore de Natal” para toda a galáxia ver, embora por um período muito breve. Esse estado de autodestruição ou instabilidade aguda é o equivalente civilizacional de uma supernova: um evento incrivelmente energético, mas insustentável a longo prazo.

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A matemática por trás disso é direta: a detectabilidade de um sinal cresce com a luminosidade elevada à potência de 3/2. Isso significa que uma civilização que se torna 100 vezes mais barulhenta (em termos de emissão de energia ou sinais) torna-se mil vezes mais fácil de ser detectada. Mesmo que essa fase dure apenas uma fração mínima da história daquela espécie, a enorme visibilidade pode fazer com que esses “gritos” dominem nossas pesquisas.

Implicações: testemunhas de um desastre

Se a hipótese estiver correta, o impacto psicológico para a humanidade seria profundo. Em vez de um diálogo interestelar, seríamos testemunhas silenciosas do fim de outro mundo.

“Não somos a parte vulnerável, mas sim aqueles que observam serenamente o descarrilamento de uma civilização que grita desesperadamente na noite”, explica Kipping. Em alguns cenários, uma espécie ciente de sua aniquilação iminente (seja por ameaças internas ou colapso ambiental) poderia decidir enviar mensagens finais ao vácuo como um último esforço de deixar um legado, perdendo o medo de atrair predadores espaciais, já que não tem mais nada a perder.

Como encontrar esses sinais?

A Hipótese Escatiana sugere que não devemos procurar apenas por sinais de rádio contínuos e estreitos, mas sim por anomalias transientes e eventos curtos em larga escala.

Estratégias de busca agnóstica de anomalias em levantamentos de campo amplo, como os realizados pelo Observatório Vera C. Rubin, pelo Gaia ou pelo EvryScope, seriam os nossos melhores caminhos. O objetivo é monitorar o céu em busca de fluxos, espectros ou movimentos que não podem ser explicados por fenômenos astrofísicos naturais conhecidos.

No fim, a Hipótese Escatiana nos deixa uma reflexão: talvez o silêncio do universo seja preenchido por vizinhos sustentáveis e silenciosos que nunca conheceremos, enquanto nossas únicas chances de contato residem em captar o último suspiro de quem não conseguiu sobreviver ao próprio progresso.

Redação Vigília

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