Seis objetos aparentemente esféricos, registrados por uma câmera infravermelha militar e descritos como capazes de “atingir aproximadamente 772 km/h”, podem ter uma explicação consideravelmente mais comum: um pequeno bando de pássaros. Essa é a conclusão mais provável apresentada por uma equipe de seis pesquisadores, incluindo o astrofísico de Harvard Avi Loeb e o conhecido cético Michael Shermer, em um estudo divulgado agora em outubro de 2026.
O trabalho analisou um vídeo identificado como DOW-UAP-PR135, liberado pelo Departamento de Guerra dos Estados Unidos em 18 de setembro de 2026, como parte da iniciativa presidencial de divulgação de registros sobre fenômenos anômalos não identificados (UAPs), denominada PURSUE.
Nas imagens, seis pontos luminosos se deslocam em conjunto, mudando suas posições relativas. O relatório militar que acompanhou o vídeo descreve os objetos como aparentemente ágeis, capazes de alterar rapidamente suas trajetórias, e atribui a eles uma velocidade estimada de 480 milhas por hora, equivalentes a cerca de 772 km/h.
A nova análise, entretanto, encontrou indícios de que os pontos luminosos poderiam ser aves observadas a uma distância menor do que a presumida pela tripulação. O principal deles está em pequenas oscilações periódicas de brilho, identificadas individualmente nos seis objetos.
Oscilações de brilho semelhantes a batimentos de asas
O estudo, liderado por Jacob Haqq-Misra, examinou quadro a quadro a intensidade luminosa e o tamanho aparente dos seis pontos registrados pela câmera infravermelha.
Os pesquisadores descobriram que todos apresentavam variações regulares de brilho, com frequências entre 7,11 e 7,85 oscilações por segundo. As variações também apareciam nas medidas do tamanho aparente dos objetos.
O detalhe mais significativo é que cada ponto oscilava independentemente dos demais, com pequenas diferenças de frequência e sem sincronização entre eles. Isso enfraquece a possibilidade de que as oscilações tenham sido produzidas por alguma interferência geral do equipamento de gravação.
A equipe também realizou testes com objetos artificiais de brilho constante inseridos nas imagens, buscando identificar possíveis efeitos da compressão do vídeo, da amostragem dos pixels ou de características do sensor. Os resultados não reproduziram as oscilações observadas.
Para verificar a hipótese de que as variações correspondessem a batimentos de asas, os cientistas aplicaram o mesmo método a gravações infravermelhas de animais voadores feitas pelo Projeto Galileo, iniciativa de pesquisa dirigida por Loeb, nas proximidades de Las Vegas.
Nas imagens de referência, encontraram frequências entre 3,4 e 10 oscilações por segundo, compatíveis com batimentos de asas de aves em voo. As frequências dos seis objetos militares estavam dentro dessa faixa.
O resultado não permite identificar uma espécie específica, mas oferece uma explicação física para um comportamento que, à primeira vista, poderia passar despercebido nas imagens.
Velocidade de 772 km/h também é questionada
Outro ponto central do estudo é a velocidade atribuída aos objetos no relatório militar. A estimativa de 480 milhas por hora não foi acompanhada de uma medição direta da distância entre a câmera e os alvos. Sem essa informação, não é possível calcular com segurança a velocidade real de um objeto registrado em vídeo.
Os pesquisadores demonstraram que o deslocamento aparente poderia resultar de um efeito conhecido como paralaxe, no qual objetos próximos parecem se movimentar rapidamente em relação ao fundo quando observados de uma plataforma em movimento.
Segundo os cálculos apresentados, um grupo praticamente estacionário, situado a uma altitude equivalente a 60% a 80% da altura da aeronave, poderia produzir a velocidade aparente mencionada no relatório.
Isso significa que os seis pontos não precisariam estar voando a 772 km/h. Um pequeno bando de pássaros, observado de uma aeronave em movimento e projetado visualmente contra o solo, poderia produzir um deslocamento semelhante.
Os autores consideram que essa interpretação também é compatível com as mudanças de formação observadas no vídeo, no qual os seis pontos aparecem em diferentes configurações ao longo da gravação.
O que ainda impede uma identificação definitiva
É importante ressaltar que conclusão de Loeb e demais participantes não é nova. O pesquisador cético Mick West, no mesmo dia em que foi liberado o vídeo, 18 de setembro de 2026, precisou apenas fazer a estabilização da imagem original para demonstrar que a trajetória era compatível com pássaros e cravou a explicação em seu perfil no X.com (antigo Twiter). Sobre o estudo de Loeb e colegas, ele elogiou, mas fez uma ressalva:
Nem todos os UAPs são pássaros. Mas alguns são.
Esses obviamente eram pássaros, como todo mundo com experiência em analisar vídeos de UAP disse semanas atrás. Este artigo está bom, mas talvez seja exagero.
Camera motion with thermal cameras can often create the illusion of motion because the camera’s burnt-in noise is often higher contrast than the ocean surface.
Stabilize on the object to see the motion relative to the ocean of these birds from PR135 https://t.co/mIKgJ3ScGD
— Mick West (@MickWest) September 18, 2026
A equipe de Loeb, apesar disso, mantém cautela e reconhece limitações importantes. O estudo foi disponibilizado como uma versão preliminar de artigo científico, ainda sem revisão por pares, e não representa uma identificação oficial dos objetos pelo governo estadunidense.
A principal dificuldade está na ausência de informações técnicas essenciais. A versão pública do vídeo apresenta dados ocultados, incluindo parâmetros que permitiriam reconstruir com maior precisão a posição da aeronave, a distância dos objetos e suas trajetórias.
O relatório original atribuiu aos objetos uma altitude estimada de aproximadamente 6,7 quilômetros, mas os pesquisadores argumentam que essa estimativa também depende de informações insuficientes.
Na interpretação proposta, os possíveis pássaros estariam mais próximos da aeronave e a uma altitude inferior à indicada inicialmente. Avi Loeb também observa, em artigo publicado sobre o estudo, que a região da ilha de Qaruh, próxima ao Kuwait, abriga aves marinhas, incluindo espécies que se reproduzem durante o verão. A localização específica, entretanto, não foi divulgada nos metadados oficiais do vídeo e corresponde à interpretação dos pesquisadores.
Mesmo as oscilações de brilho, embora compatíveis com batimentos de asas, não constituem uma identificação inequívoca. Outros fenômenos físicos, como a rotação de objetos, também podem produzir variações periódicas de luminosidade.
Assim, os pesquisadores defendem que a hipótese de um pequeno bando de aves é a que melhor explica o conjunto de características observadas, mas reconhecem que os dados disponíveis não permitem excluir completamente outras possibilidades, incluindo objetos mais distantes e velozes.
Pesquisadores de diferentes perspectivas
O artigo é assinado por Jacob Haqq-Misra, Ravi Kopparapu, Richard Cloete, Omer Eldadi, Michael Shermer e Abraham (Avi) Loeb. Entre os autores estão integrantes do Conselho Consultivo Científico sobre UAPs (UAP Science Advisory Council), pesquisadores associados ao Projeto Galileo e especialistas com diferentes posições sobre a investigação de fenômenos não identificados.
Loeb, conhecido por defender a pesquisa científica da possibilidade de tecnologias extraterrestres, participa do trabalho ao lado de Shermer, fundador da revista Skeptic e crítico frequente de alegações extraordinárias sem evidências suficientes.
A colaboração é particularmente significativa porque mostra como pesquisadores com perspectivas distintas podem submeter registros ufológicos a métodos quantitativos, sem pressupor antecipadamente uma origem convencional ou extraordinária.
Embora alguns autores integrem um conselho consultivo ligado ao tema dos UAPs, o artigo não deve ser confundido com uma conclusão institucional do governo ou do Escritório de Resolução de Anomalias em Todos os Domínios (AARO), órgão responsável pela análise oficial desses fenômenos nos Estados Unidos.
Sigilo dificulta a própria investigação científica
O estudo também evidencia uma contradição recorrente na política estadunidense de divulgação de registros militares de UAPs: embora vídeos sejam tornados públicos, informações técnicas necessárias para compreendê-los frequentemente permanecem ocultas.
Em agosto, Haqq-Misra e Kopparapu já haviam publicado uma análise sobre as limitações dos vídeos divulgados pelo programa PURSUE, apontando que informações como distância dos objetos, velocidade da aeronave e características dos sensores são essenciais para determinar se um fenômeno apresenta movimentos realmente incomuns.
No caso dos seis pontos infravermelhos, os pesquisadores conseguiram contornar parcialmente essa ausência ao examinar uma característica que independe da distância: a frequência das oscilações de brilho.
O resultado ilustra como uma análise científica pode revelar detalhes não identificados na observação original, mas também demonstra os limites impostos pela divulgação incompleta dos registros.
Mais do que a natureza dos seis objetos, o episódio evidencia que vídeos militares aparentemente impressionantes podem adquirir interpretações bastante diferentes quando examinados com métodos científicos e informações suficientes.
Fontes: estudo científico original; análise de Avi Loeb; vídeo militar DOW-UAP-PR135.

