Defesa dos EUA controla e filtra dados do observatório Vera Rubin (e provavelmente outros)

Defesa dos EUA controla e filtra dados do observatório Vera Rubin (e provavelmente outros)
Observatório Vera Rubin - Crédito: RubinObs-NOIRLab-SLAC-DOE-NSF-AURA-W. O'Mullane

No início de 2023, o astrônomo Željko Ivezić, diretor do Observatório Vera Rubin, envolveu-se em uma negociação incomum e sigilosa no deserto do Atacama, no Chile, para garantir que o novo telescópio de 1 bilhão de dólares não comprometesse a segurança nacional dos Estados Unidos. A intervenção ocorreu porque o Vera Rubin, com sua capacidade sem precedentes de mapear todo o céu a cada três noites, poderia detectar e distribuir em tempo real a localização de satélites espiões e outras naves secretas do Pentágono para o público global.

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O processo de controle foi estabelecido por meio de intermediários da Fundação Nacional de Ciências, uma vez que Ivezić sequer sabia com quais agências de inteligência estava tratando durante as conversas. A solução encontrada para proteger os ativos militares envolve a criptografia imediata de cada imagem capturada, que é enviada a uma instalação segura na Califórnia para que um sistema automatizado filtre objetos sensíveis antes de liberar os alertas para a comunidade científica internacional. Esse monitoramento é justificado pelo governo como uma medida necessária para evitar que o aparato de vigilância espacial dos EUA, operado por agências como o Escritório Nacional de Reconhecimento (NRO), seja exposto publicamente.

O embargo invisível sobre o Cosmos

O Observatório Vera Rubin representa um salto tecnológico que permite observar até a borda do universo, capturando imagens de 40 bilhões de objetos em cada varredura completa do céu. No entanto, essa potência visual gerou um dilema ético e científico quando agências governamentais, que Ivezić descreveu como “muito preocupadas com segurança”, exigiram o controle sobre o que é divulgado. O temor das autoridades é que o telescópio faça o que chamam de “contato visual desconfortável” com frotas de satélites espiões cujas órbitas e capacidades são estritamente sigilosas.

As 'primeiras luzes' do Observatório Vera C. Rubin - uma janela para o céu que promete mudar para sempre a nossa astronomia e cosmologia (Crédito_ NSF–DOE Vera C. Rubin Observatory)
As ‘primeiras luzes’ do Observatório Vera C. Rubin – uma janela para o céu que promete mudar para sempre a nossa astronomia e cosmologia (Crédito: NSF–DOE Vera C. Rubin Observatory)

Para evitar o comprometimento de segredos de Estado, as agências de defesa investiram 5 milhões de dólares em uma rede dedicada para o transporte de dados sensíveis do observatório. Ivezić explicou que o sistema funciona comparando imagens novas com registros anteriores para identificar transientes, como asteroides ou supernovas, mas também para interceptar qualquer ativo secreto que cruze o campo de visão. Em entrevista ao jornalista Ross Andersen, do periódico The Atlantic, Željko Ivezić, diretor do Observatório Vera Rubin, detalhou o receio de que o governo impusesse um sistema rudimentar de censura:

“Eu estava mais preocupado com a possibilidade de ser obrigado a adotar um sistema semelhante ao que a Força Aérea impôs ao projeto Pan-STARRS há cerca de doze anos”.

A experiência anterior com o Pan-STARRS serve como um alerta para a comunidade científica sobre as limitações da liberdade de pesquisa sob a vigilância militar. Naquele projeto, as imagens eram enviadas para uma instalação militar — apelidada por Ivezić de “o lado obscuro” — onde os dados eram editados antes de chegarem aos astrônomos.

Željko Ivezić relatou à fonte The Atlantic o impacto destrutivo dessa prática: “Você recebia de volta sua imagem, e todos os ativos militares ficavam cobertos de preto. Parecia que alguém havia passado um marcador nela, e isso teve um grande impacto na ciência que as pessoas conseguiram fazer”.

Atualmente, o acordo prevê que as imagens completas do Vera Rubin sejam liberadas aos astrônomos apenas após um embargo de três dias e oito horas, período considerado suficiente para que os satélites espiões mudem de posição e não possam ter suas órbitas rastreadas com precisão. Embora o diretor do observatório tenha se mostrado satisfeito com o meio-termo alcançado, a existência desse filtro automatizado levanta questões sobre a integridade dos dados astronômicos. O fato de uma inteligência artificial decidir o que é “sensível” antes que qualquer cientista civil veja a imagem bruta cria uma barreira permanente entre a realidade observada e a informação pública.

A ciência sob a sombra da vigilância

A interferência das agências de segurança na astronomia não é um fenômeno isolado, mas uma estrutura sistemática que coloca sob suspeição qualquer dado divulgado publicamente. A Dra. Beatriz Villarroel, pesquisadora do Instituto Nórdico de Física Teórica da Suécia e professora associada na Universidade de Estocolmo e premiada pesquisadora de fenômenos transientes, também já manifestou preocupações com uma camada de análise na Força Espacial dos EUA que filtra informações antes que elas retornem à NASA. Segundo Villarroel, o público e até mesmo pesquisadores de alto nível podem estar recebendo apenas uma fração da verdade, processada para excluir o que o governo classifica como “alvos não correlacionados” (UCTs).

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Em entrevista ao canal American Alchemy, de Jesse Michels, a Dra. Beatriz Villarroel explicou como o fluxo de informações é controlado por militares:

“Acho que é a Força Espacial que tem essas listas; essas listas são classificadas, inclusive as mais antigas, da década de 1960”.

Essa revelação sugere que objetos detectados por sensores ópticos e radares que não se comportam como satélites convencionais são sistematicamente removidos dos bancos de dados civis. Essa prática de “limpeza” de dados, muitas vezes justificada como remoção de ruído ou proteção de tecnologia proprietária, impede que a ciência independente investigue anomalias que poderiam representar descobertas revolucionárias ou a presença de tecnologias não humanas.

Dra. Beatriz Villarroel acredita ter descoberto objetos artificiais em orbita geoestacionária na Terra (Reprodução Ted Talks Youtube_Fotomontagem)
Dra. Beatriz Villarroel acredita ter descoberto objetos artificiais em orbita geoestacionária na Terra (Reprodução Ted Talks Youtube/Fotomontagem)

A suspeição sobre os dados públicos é ampliada pelo histórico de ocultação relatado por diversos especialistas, indicando que a astronomia civil sempre operou sob a sombra do aparato de inteligência. O historiador espacial Dwayne Day observou que a comunidade de inteligência já operava grandes ópticas no espaço muito antes do lançamento do telescópio Hubble, e que tecnologias para corrigir distorções atmosféricas foram desenvolvidas primeiro pelos militares. Essa relação de dependência cria um ambiente onde o governo detém as ferramentas e o poder de veto sobre o que o público tem permissão para enxergar no cosmos.

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A Dra. Villarroel destacou que essa censura pode ser tão profunda que afeta a percepção do que acreditamos ser possível no espaço. Ao comentar sobre o controle de informações para o American Alchemy, ela afirmou:

“Provavelmente há uma carga enorme de resultados classificados relacionados a isso; não há nada relacionado à descoberta de ser o primeiro, mas apenas dados científicos confirmando algo que já é conhecido”.

Essa afirmação ressoa com o sentimento de desconfiança de parte da comunidade acadêmica, que vê na colaboração entre agências espaciais civis e órgãos de defesa uma barreira para a transparência científica plena.

Transientes e o enigma do passado

O trabalho de Beatriz Villarroel com transientes — flashes de luz de curta duração no céu — trouxe evidências físicas de que o controle de informações astronômicas poderia estar ocultando anomalias históricas significativas. Ao analisar placas fotográficas do Observatório Palomar da década de 1950, Villarroel e sua equipe descobriram cerca de 100.000 objetos que refletiam luz de forma intensa, assemelhando-se a espelhos planos, antes mesmo do lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 1957. Esses objetos foram submetidos a um teste de “sombra da Terra”, que provou que eles desaparecem quando entram no cone de sombra do planeta, confirmando que são objetos físicos no espaço refletindo a luz solar.

A pesquisa de Villarroel ganha contornos ainda mais intrigantes ao ser correlacionada com eventos históricos de segurança nacional e testes nucleares. Seus estudos encontraram uma correlação estatisticamente significativa entre o surgimento desses transientes e as detonações de bombas atômicas nos anos 50. Beatriz Villarroel, qualificando os achados na entrevista ao American Alchemy, comentou sobre essa tríade de evidências: “Temos essa tríade: OVNIs, armas nucleares e transientes. No dia seguinte a um teste nuclear, há um aumento nos transientes observados”.

 

That NASA DETECTS AND SCRUBS “Uncorrelated Targets” (UFOs) All The Time! And Space Force keeps the data!👇 Dra. Beatriz Villarroel
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UFOs


Essas revelações confrontam décadas de negação governamental e sugerem que a vigilância sobre o que os astrônomos veem tem raízes profundas na Guerra Fria. Villarroel menciona o caso de Donald Menzel, diretor do Observatório de Harvard na década de 1950, que foi flagrado destruindo placas astronômicas logo após o famoso “surto” de avistamentos de OVNIs em Washington, D.C., em 1952. A coincidência entre a destruição de dados e a interferência direta em observatórios sugere que o controle de informações astronômicas é uma política de Estado consolidada para gerenciar o impacto social e científico de descobertas anômalas.

A pressão sobre cientistas que tentam publicar esses dados “não higienizados” é descrita pela Dra. Villarroel como um processo agressivo de marginalização. Ela relatou ter sido desencorajada por colegas a divulgar seus resultados, sob o pretexto de proteger sua reputação acadêmica. Em um desabafo à American Alchemy, ela expressou o choque ontológico que sua pesquisa provoca: “Os cientistas serão mais lentos em aceitar certos resultados. O choque ontológico entre cientistas será mais brutal do que entre a população em geral, porque temos muita autoconfiança de que somos os mais inteligentes do universo”.

Jeferson Martinho

Jornalista, o autor é empresário de comunicação, dono de agência de marketing digital e assessoria de imprensa, publisher de um portal de notícias regionais na Grande São Paulo, fundador e editor do Portal Vigília. Apaixonado por Ufologia de um ponto de vista científico, é autor do livro "Nem Todo OVNI é Extraterrestre - Um guia para entusiastas da ufologia que não querem ser iludidos", disponível na Amazon.

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