Descoberta de ingredientes da vida em asteroide Ryugu reforçam a teoria da panspermia

Descoberta de ingredientes da vida em asteroide Ryugu reforçam a teoria da panspermia
Descoberta de ingredientes da vida em asteroide Ryugu reforçam a teoria da panspermia (ilustração por IA)

Segundo artigo publicado pela Nature Astronomy em 16 de março de 2026, uma equipe internacional de pesquisadores liderada por Toshiki Koga, do Centro de Pesquisa em Biogeoquímica (BGC) da agência japonesa JAMSTEC, identificou pela primeira vez o conjunto completo das cinco “nucleobases canônicas” em amostras coletadas diretamente de um asteroide.

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O achado ocorreu em fragmentos do objeto tipo C (162173) Ryugu, trazidos à Terra pela missão Hayabusa2 da JAXA, e revela a presença de adenina, guanina, citosina, timina e uracila, as moléculas fundamentais que compõem as sequências de DNA e RNA em todos os seres vivos conhecidos.

A descoberta é considerada um marco para a astrobiologia, pois fornece evidências diretas de que os blocos de construção da vida estavam disponíveis no espaço muito antes de a biologia emergir em nosso planeta. Utilizando técnicas avançadas de extração sequencial e espectrometria de massa de alta resolução, os cientistas analisaram os agregados A0480 e C0370 do Ryugu, demonstrando que essas moléculas não são apenas subprodutos químicos raros, mas componentes integrados à matriz carbonácea de asteroides primitivos.

Este processo analítico foi fundamental para superar as limitações de estudos anteriores, que dispunham de quantidades menores de material e não haviam detectado a diversidade completa de nucleobases agora confirmada.

Os blocos fundamentais da herança genética no espaço

A detecção de todas as cinco bases nitrogenadas em uma única fonte extraterrestre isolada da atmosfera terrestre reforça a teoria de que a química necessária para a vida é um fenômeno universal no Sistema Solar, conceito fundamental da chamada hipótese da Panspermia, segundo a qual a vida começou na Terra com a “ajuda” externa.

Conforme explicam os autores do estudo, as purinas (adenina e guanina) e as pirimidinas (citosina, uracila e timina) constituem o código que armazena e transmite as informações genéticas. Além de sua função na hereditariedade, essas moléculas são essenciais para o metabolismo energético celular, servindo como base para transportadores de energia como o trifosfato de adenosina (ATP).

O estudo detalha que as concentrações de nucleobases nas amostras do Ryugu variam entre os locais de pouso da sonda, sendo cerca de três vezes maiores no agregado C0370 do que no A0480. Essa variação é consistente com a distribuição de outras moléculas orgânicas hidrofílicas encontradas anteriormente no asteroide, como aminoácidos e aminas. A capacidade de identificar essas substâncias em quantidades tão pequenas, da ordem de picomols por grama, destaca a sensibilidade das técnicas de cromatografia líquida de alto desempenho acoplada à espectrometria de massa por eletrospray (HPLC/ESI-HRMS) utilizadas pelo grupo de Koga.

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Além das bases canônicas, os pesquisadores encontraram intermediários importantes para a biossíntese de nucleotídeos, como a hipoxantina e a xantina, bem como isômeros estruturais que não costumam ser utilizados pela biologia terrestre. A presença dessas variedades moleculares indica que o asteroide funcionou como um laboratório químico complexo, onde múltiplas rotas sintéticas ocorreram simultaneamente. Para os cientistas, entender essa diversidade é crucial para reconstruir as condições físico-químicas que prevaleciam no Sistema Solar primitivo e nos corpos parentais que deram origem aos asteroides atuais.

A análise comparativa com o meteorito Orgueil, que possui composição mineralógica semelhante à do Ryugu, revelou diferenças marcantes na distribuição dessas moléculas. Enquanto no Orgueil a uracila era a base predominante, no Ryugu a guanina apresentou maior abundância relativa em certas frações. “A detecção de diversas nucleobases em materiais de asteroides e meteoritos demonstra sua presença generalizada em todo o Sistema Solar”, afirma o pesquisador Toshiki Koga em sua descrição dos resultados, reforçando a hipótese de que asteroides carbonáceos foram os grandes fornecedores do inventário químico pré-biótico da Terra.

Cientistas descobrem o conjunto de nucleobases do DNA e RNA em amostras do asteroide Ryugu, reforçando a teoria da panspermia, de que a vida na Terra veio do espaço
Cientistas descobrem o conjunto de nucleobases do DNA e RNA em amostras do asteroide Ryugu, reforçando a teoria da panspermia, de que a vida na Terra veio do espaço

Provas de uma natureza não biológica das nucleobases

Um dos pontos mais críticos do estudo é a confirmação de que as nucleobases encontradas no Ryugu possuem uma origem abiótica e extraterrestre, descartando qualquer possibilidade de contaminação terrestre após a chegada das amostras. As evidências para essa afirmação baseiam-se na análise de isótopos estáveis de carbono e nitrogênio, que mostraram assinaturas significativamente “pesadas” em comparação com os padrões encontrados na matéria orgânica da Terra. As composições isotópicas nas frações solúveis das amostras estão muito além das faixas terrestres típicas, o que atesta a natureza indígena do material espacial.

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Além das assinaturas isotópicas, a equipe de Koga observou que a distribuição das nucleobases no Ryugu não segue a chamada Regra de Chargaff, que determina uma proporção de 1:1 entre purinas e pirimidinas no DNA de todos os organismos vivos terrestres. No asteroide, as proporções variam de forma que indica um processo de formação puramente químico e aleatório, longe das restrições metabólicas de sistemas biológicos. A presença de isômeros como a 6-metiluracila, um composto raramente visto em contextos biológicos, serve como mais um indicador da síntese abiótica no corpo parental do Ryugu.

Os cientistas argumentam que essas moléculas são o resultado natural da evolução química em ambientes espaciais, podendo ser formadas por reações em gelos interestelares ou através de processos hidrotermais dentro dos asteroides. A estabilidade dessas bases nitrogenadas, mesmo em condições extremas de radiação e vácuo, sugere que elas poderiam sobreviver ao transporte em meteoritos e à entrada na atmosfera terrestre primitiva. Isso coloca os asteroides como reservatórios estáveis de matéria-prima orgânica que podem ter “semeado” planetas em formação.

O rigor metodológico da equipe incluiu o uso de “brancos procedimentais” — testes com materiais inertes submetidos aos mesmos processos de extração — que não revelaram picos significativos de nucleobases. Essa precaução garante que as descobertas são exclusivas das amostras de Ryugu e Orgueil. Portanto, o estudo estabelece com alta confiança que o conjunto completo de bases nitrogenadas necessárias para a vida pode emergir de processos químicos espontâneos no universo, independentemente da existência prévia de biologia.

A influência da amônia na síntese espacial

Ao comparar os dados do Ryugu com amostras do asteroide Bennu e de outros meteoritos como o Murchison, os pesquisadores identificaram que a proporção entre purinas e pirimidinas (razão Pu/Py) varia drasticamente entre os corpos celestes. O Ryugu apresenta uma razão equilibrada de aproximadamente 1,1 a 1,2, enquanto o Murchison é dominado por purinas e o Bennu por pirimidinas. Essa disparidade sugere que, embora os ingredientes básicos sejam comuns, o ambiente químico específico de cada “corpo parental” dita o resultado final da síntese orgânica.

A pesquisa revelou uma correlação direta e forte entre a disponibilidade de amônia livre e a abundância relativa de pirimidinas em relação às purinas. Nos corpos celestes onde a amônia era mais abundante, como Bennu e Orgueil, as pirimidinas (especialmente a uracila) tornaram-se predominantes. Já no Ryugu, onde a química parece ter sido mais rica em enxofre e com menor presença de amônia em comparação ao Bennu, as proporções de bases nitrogenadas seguiram caminhos distintos. Essa descoberta sugere que a amônia é um regulador chave na química prebiótica espacial.

Simulação de análise de amostras do asteroide Bennu (Reprodução - NASA)
Simulação de análise de amostras do asteroide Bennu (Reprodução – NASA)

Os cientistas propõem que essas moléculas podem ter se formado a partir de precursores simples como o cianeto de hidrogênio (HCN), a formamida e a ureia, sob a influência de fontes de energia como raios gama emitidos por elementos radioativos de vida curta no interior dos asteroides. Experimentos laboratoriais citados no estudo demonstram que a irradiação desses compostos pode induzir a formação de aminoácidos, açúcares e nucleobases, validando os mecanismos propostos para a evolução química asteroidal. No caso do Ryugu, a síntese parece ter sido influenciada por um período de hidrotermalismo frio no seu corpo original.

O estudo hipotetiza que as variações na entrega de gelos ricos em voláteis, provenientes das regiões externas do Sistema Solar para os corpos parentais dos asteroides, modularam a síntese de nucleobases. “A disponibilidade de amônia pode ter sido um fator chave impulsionando caminhos semelhantes de formação de nucleobases nesses ambientes distintos”, indica o texto assinado por Koga e seus colaboradores. Essa análise permite que os cientistas utilizem a proporção de nucleobases como um termômetro químico para entender a história evolutiva de diferentes objetos espaciais.

Um inventário químico para a Terra primitiva: a Panspermia

A presença universal das cinco bases canônicas em asteroides carbonáceos como o Ryugu e o Bennu reforça drasticamente a hipótese da Panspermia, na medida em que praticamente confirma “entrega extraterrestre” de materiais orgânicos para a consolidação da vida na Terra primitiva. Durante o período de intenso bombardeio meteorítico, bilhões de anos atrás, esses corpos celestes podem ter depositado uma quantidade massiva de nucleobases, aminoácidos e polióis na superfície terrestre, criando o caldo primordial necessário para a evolução molecular.

Este inventário químico teria fornecido as peças prontas para a montagem dos primeiros sistemas autorreplicantes, como os propostos pela hipótese do “Mundo de RNA”.

A descoberta também sugere que a vida, ou pelo menos seus precursores químicos, pode não ser um evento fortuito exclusivo da Terra, mas uma consequência natural das leis químicas que operam em todo o universo. Se os blocos de construção do DNA e RNA são produtos comuns da evolução química em asteroides, é provável que outros sistemas planetários também tenham recebido materiais semelhantes. Isso amplia significativamente o escopo da busca por vida extraterrestre, indicando que a infraestrutura molecular básica está amplamente distribuída no cosmos.

O estudo conclui que a análise detalhada das amostras retornadas por missões espaciais é insubstituível para validar teorias de síntese orgânica que, até então, eram baseadas principalmente em meteoritos que sofreram algum grau de alteração terrestre. A preservação de moléculas delicadas como a citosina e a timina no Ryugu demonstra que os asteroides são cápsulas do tempo quase perfeitas da química primordial. O trabalho de Koga e sua equipe abre caminho para novas investigações sobre como esses compostos interagiram com minerais e água na Terra primitiva para dar o salto da química para a biologia.

Olhando para o futuro, os pesquisadores ressaltam que a análise das composições isotópicas e da distribuição de isômeros em outros meteoritos carbonáceos continuará a oferecer visões críticas sobre as origens da vida. A detecção do conjunto completo de nucleobases em Ryugu e Bennu é apenas o começo de uma nova fase na “cosmoquímica”, onde o foco muda de “o que existe no espaço” para “como o que existe no espaço se tornou o que somos hoje”. Através deste estudo, a ciência moderna confirma que os alicerces da nossa existência estavam escritos nas estrelas e nos detritos espaciais muito antes de o primeiro fôlego de vida ocorrer na Terra.

Redação Vigília

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