Duas lives sobre o Caso Varginha e a grande novidade é a reunificação da “velha guarda”

A polêmica pela minissérie documental “Mistério de Varginha”, exibida pela TV Globo de 6 a 8/01/2026, foi alvo de um contra-ataque da comunidade ufológica com a realização de duas atividades relevantes: uma live “histórica” para a cena UFO no Brasil, em 18 de janeiro, e uma conferência de imprensa nos Estados Unidos, em 20 de janeiro — também transmitida em diversas ‘lives‘ no Youtube — que buscaram rebater as teses de fraude e uma suposta tentativa de descredibilizar o famoso caso Brasileiro.
A união estratégica dos pioneiros contra a narrativa oficial
O cenário ufológico brasileiro testemunhou o que pode ser considerado um evento diplomático interno de grande relevância: a live intitulada “Caso Varginha, 30 anos depois”, promovida pela Revista UFO. O ponto central deste encontro não foi apenas o debate técnico, mas a clara “reunificação da velha guarda” da pesquisa nacional. Thiago Ticchetti, atual editor da revista, abriu a transmissão com um convite direto à reconciliação ao receber Edison Boaventura Jr., afirmando que era o momento de “deixar tudo para trás” em prol de um objetivo maior. Essa união é simbólica porque encerra anos de divergências públicas entre pesquisadores que estiveram “in loco” desde os primeiros dias de 1996.
A motivação para este armistício ufológico foi a reação ao documentário da Rede Globo, que os pesquisadores classificaram como “tendencioso” e uma tentativa absurda de sepultar o caso. Para Marco Petit, que também compôs a mesa virtual, a unificação é necessária para confrontar o que chamam de “história coberta” — uma mentira estruturada pelo Exército para acobertar fatos anômalos. A crítica reside na percepção de que a emissora deu voz excessiva à tese do “Mudinho”, um civil com deficiência mental, como sendo o ser avistado pelas irmãs Silva e por Kátia Xavier.
A coesão do grupo buscou resgatar a credibilidade de Vitório Pacaccini, um dos investigadores originais, cuja honra foi atacada por depoimentos militares no documentário. Petit e Boaventura argumentam que testemunhas chaves estão rompendo o silêncio justamente agora para falar a verdade de maneira definitiva. O grupo se posicionou como guardião de uma verdade que, segundo eles, o Inquérito Policial Militar 18/97 (IPM) tentou adulterar burocraticamente ao longo de três décadas.
Este movimento de união entre Revista UFO e o pesquisador de campo Boaventura visa preparar o terreno para as celebrações dos 30 anos do caso em Varginha. Eles planejam uma ofensiva de informações que inclui a denúncia nominal de militares que teriam participado do acobertamento e da produção de documentos que consideram falsos. A live, portanto, serviu como um grito de resistência de uma geração que se recusa a ver o principal caso da ufologia brasileira ser reduzido a um erro de identificação de um morador local.
O incidente de Minas Gerais ganha o palco diplomático de Washington
Simultaneamente ao debate brasileiro, o caso Varginha foi alçado a um novo patamar de relevância internacional com uma conferência de imprensa no National Press Club, em Washington, organizada pelo cineasta James Fox. O evento buscou apresentar o incidente mineiro para um público norte-americano que, embora saturado por histórias de Roswell, ainda conhece pouco os detalhes do episódio brasileiro. Fox descreveu o esforço para levar as testemunhas aos EUA como uma “tarefa colossal”, enfrentando inclusive negativas de vistos para seis testemunhas oculares (ocasionadas por novas regras que visam dificultar a imigração para os EUA, não por questões de “segurança nacional”).
A importância histórica dessa apresentação reside no contexto de abertura política sobre os Fenômenos Anômalos Não Identificados (UAPs) nos Estados Unidos. O evento contou com a presença do congressista Eric Burlison e do Coronel da Força Aérea Fred Clawson, que forneceram um verniz de seriedade militar e política ao debate. A narrativa apresentada em Washington focou na suposta cooperação entre o Exército Brasileiro e a Força Aérea dos EUA (USAF), sugerindo que aeronaves americanas C-17 entraram no espaço aéreo brasileiro sem autorização formal para recolher os destroços e as criaturas.
Testemunhos gravados de Liliane, Valquíria e Kátia foram exibidos, mantendo a consistência dos relatos de 1996 sobre a criatura de pele marrom e olhos vermelhos. A conferência também trouxe o depoimento de Carlos de Souza, que reafirmou ter visto a queda de um objeto e ter sido ameaçado por um soldado com um rifle. O impacto emocional de Souza, que pediu para não serem abandonados novamente pela verdade, ressoou como um apelo por justiça histórica e transparência governamental. O testemunho de Souza sobre a ameaça por arma de fogo contradiz flagrantemente suas próprias falas anteriores, conforme já apontado anteriormente, mas isso não foi levantado na coletiva.
A conferência serviu para integrar o caso Varginha no debate global de “crash-retrieval” (recuperação de destroços), pressionando por proteções a denunciantes (whistleblowers) norte-americanos. A participação do senador brasileiro Eduardo Girão, que esteve presente, segundo ele, pagando suas próprias despesas, tentou reforçar a criação de uma ponte política entre os dois países no esforço de transparência.
Uma coisa é fato: para o público internacional, Varginha deixou de ser apenas parte do folclore sul-americano para ser tratado como um evento com implicações de segurança nacional e diplomacia secreta entre potências.
Entre relatos antigos e o testemunho inédito da Unicamp
Apesar do tom bombástico das transmissões, ambas as apresentações careceram de novidades fáticas sobre o Caso Varginha e a tônica da maior parte das falas foi o reforço de teses já conhecidas. A exceção notável foi um relato trazido pelo pesquisador Edison Boaventura sobre o suposto uso da Unicamp como ponto de passagem de uma das criaturas.
O depoimento do neurocirurgião Dr. Ítalo Venturelli em Washington, embora apresentado como uma grande revelação, já era de conhecimento da comunidade ufológica, sendo agora apenas oficializado em um fórum público nos EUA. Venturelli descreveu ter visto a criatura em uma sala de urgência, notando sua pele branca e olhos lilás, o que difere dos relatos iniciais de olhos vermelhos e pele marrom. Seu relato, novamente, não acrescentou dados técnicos ou médicos pertinentes a uma visão da biologia e fisiologia da suposta criatura.
Curiosamente, na live da Revista UFO dois dias antes, Edison Boaventura Jr. tentou conciliar a gigantesca discrepância entre a descrição do médico e o “cânone” de Varginha sobre as características do ser afirmando que, em um fórum reservado “ele [Venturelli] disse que a criatura era marrom só que depois que ela morreu ela ficou esbranquiçada”, algo que o médico nunca declarou em qualquer uma de suas aparições públicas. Ao contrário, Venturelli sempre afirmou que, no momento de sua observação, o ser “estava respirando bem, sem dificuldade” e parecia “consciente”.
Mas Boaventura foi o responsável por apresentar uma das únicas “novidades” do caso, com a identificação nominal de Ana Diva Giralde Correa, uma funcionária que trabalhava na Unicamp. Segundo o pesquisador, Ana Diva relatou um evento que ele apelidou de “banho de loja”. Ela afirmou que duas máquinas de hemograma quebraram ao tentar analisar o sangue da criatura, que coagulava instantaneamente nos sensores. No dia seguinte, equipamentos novos teriam chegado, com ordens expressas para trocar os números de série das máquinas velhas pelas novas, visando apagar qualquer rastro burocrático da substituição. Não há, no entanto, qualquer prova rastreável de que isso tenha acontecido, além do próprio relato dado ao pesquisador.
Ainda assim, o testemunho foi considerado um dos pontos fortes de evidência de acobertamento civil-militar, pois apontaria para uma logística de substituição de hardware que envolveria fornecedores estrangeiros e fraude documental dentro da universidade. Boaventura sustenta que conversou pessoalmente com ela em 2022 e que tais detalhes corroboram a passagem do ser pelas instalações de Campinas.
Fora esse ponto, as lives focaram na reinterpretação de fatos conhecidos. A morte do soldado Marco Eli Chereze foi revisitada sob o prisma da declaração do patologista Dr. Janini, que sugeriu que a bactéria Klebsiella aerogenes poderia ter sido um mecanismo de defesa de origem alienígena devido à sua agressividade letal em um jovem saudável. O contraste é que, como já mencionado em reportagens anteriores do Portal Vigília, os micro-organismos encontrados na análise patológica da morte do soldado já eram conhecidos da medicina e de origem perfeitamente terrestre.
A simulação técnica no inquérito militar sob diferentes perspectivas
Um dos pontos tratados como destaque — uma espécie de denúncia, sobretudo por ter sido ignorado pela reportagem da TV Globo — na live da Revista UFO foi a interpretação da Folha 307 do Inquérito Policial Militar referente ao Caso Varginha. Marco Petit denunciou o que considera uma prova de “adulteração digital” por parte do Exército. Ele apresentou o documento onde o Tenente-Coronel Lúcio Carlos solicita que a foto do morador “Mudinho” seja modificada com filtros, inversões e simulação de ambiente escurecido para que se assemelhasse ao desenho constante nos autos (Folha 132).
Contudo, uma análise objetiva do documento sugere uma tese muito mais simples e perfeitamente plausível dentro de uma investigação criminal: a de simulação técnica. O objetivo das solicitações — ampliação escanerizada, inversão de ampliação e realce de contornos — parece ser a tentativa de emular as condições visuais exatas sob as quais as meninas avistaram o ser (anoitecer, distância e ângulo). Ao colocar a imagem modificada ao lado do desenho das testemunhas, o IPM buscava verificar a viabilidade técnica de uma confusão visual, e não necessariamente criar uma prova falsa.

Enquanto Petit interpreta o pedido de “chegar o mais próximo do desenho” como uma ordem para forjar uma evidência, o contexto administrativo do IPM indica um procedimento de reconstituição visual. A tese de simulação explica por que as fotos originais e naturais do morador também constam no documento: o Exército não escondia a identidade do civil, mas tentava provar que, sob certas condições de luz e sombra, ele poderia ser confundido com a criatura descrita. É o princípio da Navalha de Occam, onde a explicação que exige menos suposições complexas tende a ser a mais provável.
Ambos os eventos, a live da Revista UFO e a conferência no Clube de Imprensa em Washington, mostraram que mesmo 30 anos depois o Caso Varginha está longe de ter pontos de convergência entre céticos e ufólogos. E mesmo assim, diante da falta de evidências materiais conclusivas e de relatos não raramente contraditórios, ainda parece menos sobre a biologia de um suposto ser (ou seres) capturado(s) e mais sobre a interpretação de documentos e a persistente desconfiança entre a sociedade civil e as instituições militares.








