Projeto SETI@home investiga 100 sinais “candidatos a alienígenas” no telescópio FAST

Projeto SETI@home investiga 100 sinais “candidatos a alienígenas” no telescópio FAST
Captura de tela de um PC rodando o software colaborativo SETI@Home em busca de sinais alienígenas (Credito: Robert Sanders/UC Berkeley)

Cientistas da Universidade da Califórnia, em Berkeley, estão atualmente conduzindo observações detalhadas de 100 sinais de rádio promissores utilizando o Five-hundred-meter Aperture Spherical Telescope (FAST), localizado na China. Este esforço é o ápice de 21 anos de coleta de dados pelo projeto SETI@home, que entre 1999 e 2020 utilizou o poder computacional de milhões de voluntários ao redor do mundo para analisar transmissões captadas pelo agora extinto Observatório de Arecibo, em Porto Rico. O objetivo central desta nova fase é verificar se esses sinais, selecionados entre 12 bilhões de detecções iniciais, representam tecnoassinaturas de civilizações alienígenas avançadas ou se são apenas interferências terrestres sofisticadas.

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A reobservação ocorre através de um processo analítico rigoroso que busca confirmar a persistência e a natureza das fontes identificadas na rede de computação distribuída. Os pesquisadores utilizam as 19 antenas do telescópio FAST para apontar diretamente para as coordenadas espaciais onde os sinais foram detectados originalmente, aproveitando uma sensibilidade oito vezes superior à de Arecibo. Este trabalho é fundamental para encerrar formalmente o legado do SETI@home, transformando décadas de processamento voluntário em conclusões científicas publicáveis e lições para futuras buscas por inteligência extraterrestre.

 

Símbolo da busca SETI, segundo maior radiotelescópio do mundo, Arecibo, em Porto Rico está definitivamente desativado e será demolido. (Foto: David Broad/Wikipedia)
Símbolo da busca SETI, segundo maior radiotelescópio do mundo, Arecibo, em Porto Rico foi desativado e está sendo demolido. (Foto: David Broad/Wikipedia)

Uma herança de dados massivos em busca de alienígenas

O legado do SETI@home é medido pela escala sem precedentes de sua participação popular e do volume de dados gerado. Ao longo de duas décadas, o software do projeto transformou computadores domésticos em uma rede global de análise, produzindo 12 bilhões de detecções descritas como “momentâneos surtos de energia em uma frequência particular vinda de um ponto particular no céu”, de acordo com o cientista da computação e cofundador do projeto David Anderson. O sucesso do projeto superou as estimativas mais otimistas dos seus criadores, que inicialmente esperavam atrair apenas 50 mil voluntários, mas acabaram alcançando a marca de milhões de usuários em mais de 100 países.

O projeto operava de forma comensal, o que significa que ele registrava dados passivamente enquanto outros astrônomos utilizavam o prato de 300 metros de Arecibo para estudar pulsares ou mapear o hidrogênio na galáxia. Essa estratégia permitiu cobrir um terço de todo o céu visível de Porto Rico, observando a maioria das estrelas da Via Láctea múltiplas vezes. No entanto, a vastidão desses dados trouxe o desafio colossal de filtrar o que era ruído e o que poderia ser um sinal artificial real, um processo que consumiu anos de análise após o encerramento da coleta de dados em 2020.

Para gerenciar essa montanha de informações, os cientistas de Berkeley contaram com a colaboração do Instituto Max Planck na Alemanha, utilizando clusters de computação de alta performance para reduzir as bilhões de detecções a cerca de um milhão de candidatos viáveis. Esse refinamento estatístico foi necessário para identificar os chamados “multiplets”, grupos de detecções que ocorrem no mesmo local do céu e na mesma frequência ao longo do tempo. David Anderson ressalta que “até cerca de 2016, não sabíamos realmente o que íamos fazer com essas detecções que havíamos acumulado”, evidenciando que a fase de análise final foi tão complexa quanto a própria coleta.

O impacto cultural e educacional do SETI@home também é um componente vital de sua história. Ele não apenas popularizou o conceito de busca por inteligência extraterrestre (SETI), mas também validou o modelo de computação voluntária através da plataforma BOINC, criada por Anderson. Projetos atuais como o Rosetta@home, focado em proteínas, e o Einstein@home, que busca pulsares, devem sua existência à infraestrutura e ao entusiasmo gerados pelo SETI@home. Como observa Anderson, “eu gostaria de deixar essa comunidade e o mundo saberem que nós realmente fizemos ciência”, reforçando que o projeto foi muito além de um simples protetor de tela.

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China Fast Telescope Foto Reproducao
China Fast Telescope – Foto: Reprodução

A ciência por trás dos candidatos a extraterrestres

A identificação dos 100 sinais foco exige uma distinção técnica precisa entre interferência de rádio (RFI) e possíveis mensagens alienígenas. O astrônomo e diretor do projeto SETI@home, Eric Korpela, explica que o maior desafio é desenvolver algoritmos que descartem sinais espúrios causados por satélites, transmissões de TV ou até fornos de micro-ondas, sem “jogar fora o bebê com a água do banho”. Segundo Korpela, “não há como fazer uma investigação completa de cada sinal possível, porque fazer isso ainda exige uma pessoa e olhos”, justificando a necessidade de reduzir o campo de busca para uma elite de candidatos.

Para testar a eficácia dos seus filtros de RFI, a equipe utilizou uma técnica chamada injeção de sinais falsos, conhecidos como “birdies”. Eles inseriram cerca de 3.000 sinais artificiais na base de dados, simulando tecnoassinaturas com diferentes níveis de potência e movimento planetário. Ao verificar quais desses sinais falsos os algoritmos conseguiam recuperar, os cientistas puderam estimar a sensibilidade real do projeto e ajustar os critérios de seleção para os 100 sinais que estão sendo reobservados agora pelo FAST.

Inteligência Artificial em Busca de Sinais Extraterrestres (Portal VIgília e Dall-E via Bing)

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A natureza dos sinais procurados foca em transmissões de banda estreita, que concentram muita energia em uma frequência muito fina, algo que não ocorre naturalmente no universo. A teoria vigente sugere que uma civilização avançada usaria um farol de banda estreita para chamar a atenção, possivelmente perto da frequência de 21 centímetros do hidrogênio neutro, por ser um ponto de referência universal para astrônomos. Se um sinal desses fosse confirmado, Korpela conjectura que “teríamos todos os telescópios, de rádio e ópticos, apontando para aquele ponto no céu”.

Atualmente, os 100 alvos selecionados passam por um escrutínio manual e automatizado no telescópio FAST, que realiza varreduras de cerca de 15 minutos em cada ponto. Os pesquisadores buscam sinais “baricêntricos”, cujas frequências foram corrigidas pelo transmissor para compensar o movimento do seu próprio planeta, ou sinais que apresentem desvios Doppler consistentes com órbitas em zonas habitáveis de estrelas do tipo F e G. Mesmo que as chances de uma descoberta definitiva sejam baixas, o rigor deste processo garante que o SETI@home estabeleça um novo patamar de sensibilidade para a astronomia de rádio.

O futuro da computação voluntária

Embora o SETI@home esteja em hibernação e não distribua mais novas unidades de trabalho, o debate sobre sua continuidade e as lições aprendidas permanece aquecido. Eric Korpela admite que alguns erros foram cometidos devido às limitações tecnológicas de 1999, como o uso de larguras de banda muito estreitas para a internet discada da época. Ele afirma que, “em um mundo onde eu tivesse o dinheiro, eu reanalisaria [os dados] da maneira correta”, pois existe a possibilidade remota de que um sinal extraterrestre tenha sido perdido por uma margem mínima.

As publicações geradas por essa fase final, submetidas ao The Astronomical Journal, detalham tanto o processamento inicial quanto as descobertas da infraestrutura analítica chamada Nebula. Esses artigos servem como um guia para futuros levantamentos do céu, apontando que a computação cidadã ainda é viável e necessária, especialmente com o aumento das velocidades de internet e o poder das GPUs modernas. Korpela acredita que o interesse público em procurar inteligência extraterrestre continua vivo e que telescópios como o FAST poderiam alimentar novos projetos de ciência cidadã via plataforma BOINC.

Controvérsias e desafios orçamentários marcam este momento de transição, já que manter pessoal qualificado para analisar bilhões de sinais é custoso. Atualmente, Korpela é o único membro remunerado da equipe, e o financiamento depende de doações e subsídios limitados da National Science Foundation e da NASA. No entanto, novos projetos como o levantamento de RFI da UCLA mostram que a colaboração com o público continua sendo uma ferramenta indispensável para filtrar o ruído terrestre e isolar anomalias espaciais.

O desdobramento mais significativo do SETI@home pode não ser a descoberta de um sinal alienígena, mas a prova de conceito de que a humanidade pode se unir globalmente para resolver questões existenciais. A mensagem do ex-presidente Jimmy Carter no Voyager 1, citada nos canais do projeto, ressoa com essa missão: a busca por outras civilizações representa nossa “determinação e boa vontade em um universo vasto e inspirador”. Assim, os 100 sinais alvo no FAST representam o último capítulo de uma jornada que transformou a curiosidade individual em um esforço científico planetário.

Redação Vigília

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