Loeb vs Shermer: cientistas apostam mil dólares por descoberta de alienígenas

Uma aposta formal e altamente detalhada no valor de US$ 1.000 foi registrada no site de apostas Long Bets, da Long Now Foundation, colocando em lados opostos um renomado astrônomo de Harvard e um proeminente historiador da ciência cético, em um desafio sobre a descoberta de inteligência extraterrestre (ETI). A questão central é se haverá a descoberta ou divulgação de visita alienígena à Terra – seja na forma de UFOs, UAPs (Fenômenos Anômalos Não Identificados), artefatos tecnológicos ou formas biológicas – até o prazo final de 31 de dezembro de 2030.
A aposta, identificada como BET 964, tem duração de cinco anos (2025-2030) e foi estabelecida em um contexto de intensa busca por artefatos tecnológicos, especialmente após eventos como a descoberta do objeto interestelar anômalo 3I/ATLAS, em 2025.
O astrônomo de Harvard e diretor do Projeto Galileo, Dr. Avi Loeb, aceitou o desafio como proponente de que a descoberta ocorrerá, impulsionando a busca científica. Do outro lado, como preditor da aposta, está o Dr. Michael Shermer, historiador da ciência e editor da revista Skeptic, que propôs o desafio para forçar os defensores de alegações alienígenas a “colocar seu dinheiro onde suas crenças parecem estar”.
A aposta foi feita através do programa Long Bets, uma organização que incentiva o pensamento a longo prazo e utiliza um calendário de 10.000 anos, adicionando um zero à frente de todas as datas, por isso o prazo é 2030. Para que Loeb vença, a confirmação da existência dos alienígenas deve vir de pelo menos duas grandes instituições científicas, como a NASA, a Fundação Nacional de Ciência (NSF) ou a Sociedade Astronômica Americana (AAS).
O cético e a exigência de evidências rigorosas
O argumento do Dr. Michael Shermer, famoso por desmistificar alegações paranormais, segundo ele próprio, é profundamente ancorado em sua história de 33 anos documentando as previsões da Ufologia. Desde a fundação da Skeptics Society e da revista Skeptic em 1992, ele tem acompanhado as previsões audaciosas de ufólogos de que a chegada alienígena está “por vir a qualquer momento”. Ele afirma que, passadas mais de três décadas, ainda está “esperando pela dita prova” de contato alienígena.
O historiador da ciência critica abertamente a abordagem e a falta de transparência dos proponentes de UAPs. Shermer, de forma geral, reclama dos denunciantes que compareceram perante o Congresso dos EUA alegaram ter visto e até tocado em alienígenas ou suas naves, e até mesmo ter realizado engenharia reversa em suas tecnologias, sem apresentar provas.
No entanto, em seu argumento registrado para o Long Bets, Shermer afirma que, quando esses indivíduos são pressionados por evidências, “eles sempre se esquivam, dizendo que é ‘classificado’, ‘ultrassecreto'”. Ele menciona que eles justificam a retenção de provas alegando ameaças de “Homens de Preto” ou risco para suas carreiras e vidas, e que só poderiam revelar a evidência em uma “SCIF” (Sensitive Compartmented Information Facility), mas não no Congresso.
Para Shermer, a aposta não pode ser resolvida com base em “vídeos granulados, fotografias borradas e anedotas sobre luzes assustadoras no céu noturno”. O critério para a divulgação deve ser rigoroso, análogo ao incidente do Balão Espião Chinês de 2023, onde foram feitas fotografias e vídeos de alta resolução, houve confirmação pelo POTUS (a Casa Branca ou próprio Presidente dos Estados Unidos), Pentágono e Secretário de Defesa, e os destroços foram coletados. Shermer resumiu sua posição de desafio:
“Você está dizendo que teremos uma revelação sobre extraterrestres até o final da década? Ok, vamos apostar nessa previsão. Eu digo que não vai acontecer”.
A esperança do otimista Loeb: a pesquisa começou para valer em 2025

O Dr. Avi Loeb, que é chefe do Projeto Galileo, assume a posição otimista, baseando-se no potencial estatístico da Via Láctea e nos novos desenvolvimentos de pesquisa. Ele argumenta que a busca por artefatos tecnológicos extraterrestres “acaba de começar para valer em 2025”, um ano marcado pela descoberta do objeto interestelar anômalo 3I/ATLAS, o lançamento do Observatório Vera Rubin e o início da construção dos três observatórios do Projeto Galileo.
A lógica de Loeb reside na imensidão e antiguidade do cosmos. Ele aponta que há “bilhões de análogos de Sol-Terra na galáxia Via Láctea — a maioria dos quais são bilhões de anos mais velhos que o sistema solar”. Dado que a nossa própria sonda Voyager levaria menos de um bilhão de anos para cruzar o disco da Via Láctea, Loeb defende que a humanidade “deve se envolver na busca científica por artefatos tecnológicos extraterrestres”.
Em entrevista ao The New York Post, o cientista de Harvard declarou: “Estou disposto a apostar que não somos a primeira espécie inteligente na galáxia multilógica”. Ele acrescentou que “parece-me muito provável que houve muitas outras civilizações tecnológicas que construíram a espaçonave e se envolveram em viagens”. O único mistério, segundo Loeb, é “quão próxima está a mais próxima”.
Loeb nutre esperança particular no objeto 3I/ATLAS, que exibiu “anomalias”. Ele sugeriu que a “trajetória bizarra” do cometa em direção a Júpiter poderia implicar que ele estaria semeando o planeta com “satélites” para coletar informações para uma “civilização extraterrestre”. Ele expressou, em publicação em seu blog no Medium, sua filosofia de engajamento na busca:
“É melhor ser otimista, porque a vida às vezes é uma profecia autorrealizável. É por isso que estou participando da busca, na esperança de que encontremos um parceiro em nosso encontro às cegas com objetos interestelares”.
Os termos decisivos e o legado
Os termos detalhados da aposta exigem que a resolução seja baseada em confirmações institucionais formais. A vitória de Loeb só será garantida se pelo menos duas das três organizações científicas — NASA, a National Science Foundation (NSF), e a American Astronomical Society (AAS) — afirmarem que a descoberta de extraterrestres, seja na forma de UAPs, UFOs, objetos interestelares tecnológicos ou vida biológica alienígena, foi realizada até 31 de dezembro de 2030.
A aposta não visa o lucro pessoal dos acadêmicos. Independentemente de quem vença o desafio, o valor de US$ 1.000 será doado integralmente à Fundação Projeto Galileo, a iniciativa de pesquisa dirigida por Loeb dedicada a buscar artefatos de origem extraterrestre.
As implicações para a humanidade variam drasticamente dependendo do resultado. Se o Dr. Loeb vencer, a conclusão do Skeptic é que isso representará “o que seria indiscutivelmente a maior descoberta na história da humanidade, a saber, que não estamos sozinhos no universo”. Por outro lado, se Shermer vencer, isso significará que “as alegações de contato são provavelmente muito exageradas e que precisamos continuar a busca pela verdade sobre inteligência extraterrestre”.
Esta aposta se insere em uma longa tradição de desafios intelectuais, que remonta a 1870, quando Alfred Russel Wallace venceu um terraplanista ao provar a curvatura da Terra, e que inclui wagers (“desafios”) entre figuras notáveis como Stephen Hawking e Kip Thorne, sobre buracos negros.
A tensão crescente sobre os fenômenos anômalos
A formalização da aposta de 2025 sublinha uma mudança de paradigma na abordagem dos Fenômenos Anômalos Não Identificados, um tema que historicamente enfrentou forte estigma na comunidade acadêmica. Antes de 2017, a Ufologia era amplamente marginalizada, mas a divulgação de vídeos de objetos não identificados por pilotos da Marinha ajudou a quebrar a “barreira do estigma”, levando à investigação séria do assunto por uma grande parcela da comunidade científica.
Essa abertura coincide ainda com um momento efervescente da Ufologia, provocado pelo lançamento do polêmico documentário “The Age Of Disclosure”, com a preocupação global crescente com o potencial acobertamento da presença de artefatos e material biológico oriundo de fenômenos aéreos não identificados e de natureza tecnológica.
Embora o cenário exija evidências empíricas e coleta de destroços, como defendido por Shermer, a natureza evasiva desses fenômenos tem dificultado a validação rigorosa exigida para resolver a aposta. O próprio Dr. Loeb reconheceu que, para vencer, a evidência teria que ser “clara” e “não contestada”, reforçando o alto limiar de confirmação estabelecido pela aposta.
O período de cinco anos do desafio atua como um prazo intensificador para a busca, como a realizada pelo Projeto Galileo. A aposta encapsula a tensão entre a urgência das observações recentes e a necessidade histórica de rigor científico, garantindo que, independentemente do resultado final, a busca por inteligências não humanas seja levada adiante com a seriedade acadêmica que o tema exige.







