A ideia parece perfeitamente compatível com o século XXI: reunir em uma única base de dados todos os relatos conhecidos sobre objetos voadores não identificados (OVNIs/UAPs), permitindo que pesquisadores comparem casos por local, data, características do objeto, efeitos físicos e perfil das testemunhas. Mas esse projeto é muito mais antigo do que a internet, a computação em nuvem ou a inteligência artificial.
Há mais de seis décadas, alguns dos principais pesquisadores do fenômeno já defendiam que a Ufologia somente avançaria se deixasse de depender de casos isolados e passasse a estudar grandes volumes de informação.
Embora essa ambição jamais tenha sido plenamente concretizada, ela moldou parte importante da história da pesquisa ufológica. Entre tentativas pioneiras, projetos interrompidos e iniciativas que permanecem inacessíveis ao público, a trajetória dos bancos de dados da Ufologia revela tanto as dificuldades da área quanto a visão de pesquisadores que estavam, em muitos aspectos, à frente de seu tempo.
Os primeiros catálogos ufológicos
Nos anos seguintes à onda de avistamentos iniciada em 1947, organizações como a APRO (Aerial Phenomena Research Organization), o NICAP (National Investigations Committee on Aerial Phenomena) e, posteriormente, o Project Blue Book, da Força Aérea dos Estados Unidos, passaram a acumular milhares de relatos. O crescimento do acervo trouxe um problema novo: como comparar ocorrências registradas em diferentes países, investigadas por equipes distintas e descritas segundo critérios que variavam enormemente?
A resposta inicial foi modesta. Os casos eram organizados em fichários, arquivos cronológicos e classificações temáticas. Era um trabalho essencialmente manual, eficiente para localizar um episódio específico, mas limitado quando o objetivo era identificar padrões estatísticos ou recorrências entre milhares de registros.
Foi nesse contexto que surgiu a contribuição do cientista e um dos pioneiros ufólogos Jacques Vallée. Embora seu envolvimento com a Ufologia seja muito mais lembrado pela “Hipótese do Sistema de Controle” — onde ele sugere que os OVNIs não são espaçonaves físicas de outros planetas, mas sim manifestações de uma inteligência multidimensional —, sua formação em matemática e ciência da computação fez com que enxergasse na informática uma ferramenta para tratar relatos ufológicos como um conjunto estruturado de dados, e não apenas como uma coleção de histórias extraordinárias.
Em Passport to Magonia, Vallée justificou essa abordagem observando que “crenças idênticas às atuais reapareceram ao longo de toda a história registrada, adaptadas ao país, à cultura e ao regime social de cada época”. Para ele, compreender essas recorrências exigia uma comparação sistemática entre registros históricos e contemporâneos, algo inviável apenas com arquivos em papel. (Jacques Vallée, Passport to Magonia, 1969).

A revolução silenciosa de Vallée
Ao lado do astrônomo J. Allen Hynek, Vallée desenvolveu um dos primeiros bancos de dados computadorizados dedicados ao fenômeno. Conhecido como Magonia, o projeto reunia casos modernos e históricos classificados por critérios padronizados, permitindo consultas e comparações inéditas para a época.
Mais importante que o volume de informações era o método. Em vez de privilegiar apenas os episódios mais espetaculares, Vallée propunha analisar conjuntos de ocorrências. O objetivo era verificar se diferentes relatos compartilhavam características objetivas que escapavam à observação individual.
Essa filosofia aparece em diversas declarações posteriores do pesquisador. Em entrevista à revista Wired, ele resumiu sua posição afirmando: “Não estou interessado em provar que extraterrestres estão visitando a Terra. Estou interessado nos dados.” A frase sintetiza uma postura que acompanhou toda a sua carreira: antes de qualquer hipótese sobre a origem do fenômeno, seria necessário organizar e compreender as evidências disponíveis.
A ideia antecipava em décadas conceitos hoje associados à ciência de dados. Enquanto a maioria dos investigadores concentrava esforços em um pequeno número de casos emblemáticos, Vallée defendia que a informação realmente valiosa poderia surgir da comparação entre milhares de registros aparentemente comuns.
Muitos bancos, nenhum padrão
A proposta de Vallée influenciou outras iniciativas importantes. Entre elas destaca-se o UFOCAT, criado por David Saunders e posteriormente ampliado por Ted Phillips e colaboradores. Ao longo de décadas, o projeto incorporou informações provenientes de diferentes países e tornou-se um dos maiores catálogos de ocorrências ufológicas já produzidos.
Outras organizações seguiram caminhos semelhantes. O Center for UFO Studies (CUFOS) buscou aperfeiçoar critérios de classificação; a MUFON implantou seu sistema eletrônico de gerenciamento de casos; o National UFO Reporting Center (NUFORC) disponibilizou consultas públicas pela internet; e o GEIPAN, ligado ao CNES francês, tornou-se referência pela transparência ao publicar investigações oficiais e documentação técnica.
Apesar desses avanços, cada instituição adotou formulários, categorias e metodologias próprias. Um mesmo caso pode ser descrito de maneiras diferentes dependendo da organização responsável pelo registro, dificultando comparações automáticas e a integração entre acervos.
O resultado é um cenário fragmentado: existem muitos bancos de dados, mas nenhum padrão internacional capaz de unificá-los.
O projeto que nunca chegou ao público
Décadas depois do Magonia, Vallée voltou a participar de uma iniciativa ainda mais ambiciosa. Durante os trabalhos da Bigelow Aerospace Advanced Space Studies (BAASS), no contexto do programa AAWSAP, foi desenvolvido o Capella, concebido para integrar diversas bases de dados em um único ambiente analítico.
Descrições públicas do projeto indicam que o sistema reunia informações provenientes de diferentes acervos históricos e contemporâneos, permitindo consultas cruzadas entre investigações civis, militares e científicas. No entanto, o conteúdo da base jamais foi disponibilizado integralmente para pesquisadores independentes, embora tenha havido notícias de vazamentos recentes das informações, inclusive com a disponibilização dos dados brutos em postagens no Reddit.
O Capella acabou simbolizando um paradoxo recorrente na Ufologia: quanto maior a quantidade de informações reunidas, menor tende a ser sua disponibilidade pública. Questões de direitos autorais, confidencialidade, formatos incompatíveis e restrições institucionais continuam dificultando a construção de um acervo realmente universal.
Passadas quase oito décadas desde o início da era moderna dos discos voadores, a Ufologia ainda não possui aquilo que Vallée imaginava nos anos 1960: uma base global, aberta, padronizada e continuamente alimentada por pesquisadores de diferentes países.
Um desafio que continua atual
Curiosamente, a tecnologia deixou de ser o principal obstáculo. Ferramentas de inteligência artificial, OCR, tradução automática e busca semântica já permitem extrair informações de documentos antigos e localizar semelhanças entre milhares de registros em poucos segundos.
O desafio agora é outro: preservar, digitalizar e padronizar um patrimônio documental espalhado por arquivos governamentais, coleções particulares, livros esgotados e revistas especializadas produzidas ao longo de quase oitenta anos.
Talvez o maior legado de Jacques Vallée não seja sua teoria pouco ortodoxa para o fenômeno ou um banco de dados específico, mas a percepção de que compreender o fenômeno exige olhar para o conjunto das evidências, e não apenas para seus casos mais famosos. Em uma época em que algoritmos analisam bilhões de informações diariamente, essa ideia parece menos uma curiosidade histórica e mais uma agenda de pesquisa ainda em aberto.


