Grupo no
WhatsApp

A ufologia circular: como um grupo de pesquisadores se tornou (auto)referência nas revelações sobre OVNIs

Uma investigação sobre as relações entre os protagonistas das revelações atuais da Ufologia, do Rancho Skinwalker ao Pentágono, questionando a independência das fontes. Em resposta exclusiva ao Portal Vigília, Hal Puthoff esclarece os limites científicos do AAWSAP.

A ufologia circular nos EUA: um grupo se tornou fonte de quase todas as supostas revelações UAP

A ufologia circular nos EUA: um grupo se tornou fonte de quase todas as supostas revelações UAP

Uma leitura crítica do livro de Jay Stratton revela uma rede de relações que conecta pesquisas paranormais, o Rancho Skinwalker, contratos milionários do Pentágono e denúncias sobre programas secretos de recuperação de veículos extraterrestres. Mas até que ponto essas revelações da Ufologia norte-americana são sustentadas por fontes verdadeiramente independentes?

Publicidade

Um ex-funcionário da inteligência militar afirma conhecer um programa secreto de recuperação de veículos extraterrestres. Dois físicos confirmam suas informações. Outros antigos integrantes do governo apresentam relatos semelhantes. As declarações chegam ao Congresso norte-americano, alimentam documentários, entrevistas e livros, enquanto seus protagonistas citam investigações financiadas pelo Pentágono como demonstração da seriedade científica do assunto.

À primeira vista, a multiplicidade de testemunhos sugere uma quantidade expressiva de fontes independentes que, partindo de experiências diferentes, chegaram à mesma conclusão: o governo dos Estados Unidos esconderia evidências de tecnologias produzidas por inteligências não humanas. Segundo essas alegações, uma estrutura clandestina denominada Programa Legado (Legacy Program), com integrantes distribuídos por diferentes órgãos militares e de inteligência e supostamente supervisionada pela Diretoria de Ciência e Tecnologia da CIA, atuaria há décadas para encobrir evidências e silenciar potenciais testemunhas.

A Diretoria de Ciência e Tecnologia (DS&T) é uma divisão real da CIA, mas a identidade de seu atual dirigente não foi confirmada nas fontes públicas consultadas pelo Portal Vigília. Já sua suposta responsabilidade pelo Programa Legado é uma alegação apresentada por Stratton, ainda sem comprovação independente.

Publicidade

Entretanto, uma leitura atenta de Out of the Shadows (Fora das Sombras), livro de memórias do ex-integrante da inteligência militar Jay Stratton, permite identificar um fenômeno menos evidente. Por trás de muitas dessas revelações reaparecem sempre os mesmos personagens, ligados por relações pessoais, profissionais e institucionais construídas ao longo de décadas.

Fora das sombras - o livro recém lançado de Jay Stratton que está causando polêmica
Fora das sombras – o livro recém-lançado de Jay Stratton que está causando polêmica

Entre eles estão os físicos Hal Puthoff e Eric Davis, o engenheiro nuclear e ex-analista de inteligência James Lacatski e o empresário Robert Bigelow, financiador de pesquisas sobre fenômenos paranormais desde os anos 1990.

A investigação dessas conexões revela um processo potencialmente circular: pesquisadores compartilham informações, participam de projetos financiados por instituições governamentais com resultados práticos ou concretos discutíveis e posteriormente utilizam sua experiência nesses projetos para referenciá-los como conhecimentos acobertados e conferir credibilidade a alegações que, em muitos casos, continuam sem comprovação científica independente.

Publicidade

Esta reportagem se debruça sobre essa circularidade das informações e sua característica de retroalimentação na construção de um cenário potencialmente mais dramático do que a realidade. A questão não é se esses atores estão necessariamente mentindo, mas quantas das supostas confirmações independentes representam, na realidade, informações compartilhadas dentro de um mesmo círculo, em vez de novas revelações e evidências.

Um círculo de confiança científica

A relação entre os personagens aparece desde as primeiras páginas de Out of the Shadows. O prefácio é assinado por Hal Puthoff, que apresenta Stratton como figura decisiva para a revelação da suposta presença de inteligências não humanas na Terra. Grande parte das mesmas figuras já apareceram em outras obras, como “Imminent: Inside the Pentagon’s Hunt for UFOs” (publicado no Brasil como “Iminente: Os bastidores da caçada do Pentágono a óvnis”), das memórias de Luis “Lue” Elizondo, um dos mais destacados denunciantes. De fato, vários desses nomes já foram mencionados em reportagens anteriores do Portal Vigília em diversas ocasiões e permeiam basicamente toda a literatura Ufológica recente ligada aos Estados Unidos.

Puthoff revela ter trabalhado com Stratton por mais de duas décadas e o descreve como um de seus amigos mais próximos e confiáveis. Em contrapartida, Stratton dedica passagens extensas à capacidade científica e à importância profissional de Puthoff.

Publicidade

O mesmo acontece com Eric Davis e James Lacatski, apresentados como pesquisadores de excepcional competência, cujo conhecimento teria sido fundamental para compreender as características dos objetos investigados.

Essas avaliações recíprocas não comprometem automaticamente a credibilidade dos envolvidos. Entretanto, tornam relevante examinar até que ponto as informações atribuídas a diferentes fontes foram realmente obtidas de maneira independente.

No capítulo dedicado à criação do Programa de Aplicações de Sistemas Avançados de Armamentos Aeroespaciais (AAWSAP), Stratton relata que Puthoff trouxe Eric Davis para a equipe. Os dois já mantinham uma longa relação profissional e haviam trabalhado em pesquisas relacionadas a fenômenos extraordinários.

Colm Kelleher, outro integrante importante, também havia participado das mesmas iniciativas privadas, especialmente aquelas financiadas por Robert Bigelow. A própria narrativa de Stratton demonstra que o grupo não surgiu espontaneamente em torno de descobertas científicas produzidas pelo Pentágono. Seus principais integrantes já compartilhavam interesses, experiências e hipóteses antes da criação do programa governamental.

O Rancho Skinwalker e as origens da rede

Um dos principais pontos de convergência dessa história é o Rancho Skinwalker, propriedade rural em Utah que se tornou conhecida por relatos de objetos voadores não identificados, criaturas desconhecidas, mutilações de animais e manifestações supostamente paranormais. Em 1996, Robert Bigelow adquiriu a propriedade e passou a financiar investigações por meio do Instituto Nacional de Ciências da Descoberta (NIDS), organização privada dedicada ao estudo de fenômenos incomuns.

Entre os pesquisadores associados a essas iniciativas estavam Puthoff, Davis e Kelleher, que posteriormente participariam do AAWSAP. No capítulo cinco do livro, Stratton relata que ele e Lacatski começaram a discutir os acontecimentos do rancho em fevereiro de 2007. Em junho daquele ano, enviaram uma carta oficial a Bigelow solicitando uma visita à propriedade.

James Lacatski, o 'Doutor Divulgação', no podcast Weaponized (reprodução - Youtube)
James Lacatski, o ‘Doutor Divulgação’, no podcast Weaponized (reprodução – Youtube)

O empresário, que mantinha uma relação próxima com o senador Harry Reid, entrou em contato com o parlamentar. A aproximação contribuiu para a articulação política que permitiria, no ano seguinte, a criação do AAWSAP.

Mas um episódio narrado por Stratton revela como a confiança pessoal entre os participantes influenciou suas conclusões. Durante uma visita ao rancho, Lacatski teria observado uma estrutura tubular amarelada e semitransparente surgir no interior de uma residência e desaparecer cerca de 30 segundos depois.

Stratton não presenciou o acontecimento. Segundo seu próprio relato, a convicção de que havia algo extraordinário na propriedade decorreu da descrição de Lacatski, cuja credibilidade pessoal considerava elevada. O livro não apresenta, nessa passagem, medições instrumentais ou registros independentes que permitam verificar o fenômeno.

Um relato pessoal extraordinário, recebido de alguém considerado confiável, passou a integrar a fundamentação de uma iniciativa de pesquisa governamental.

Isso não significa que Lacatski tenha inventado a experiência. Significa apenas que a convicção de Stratton não resultou da análise direta de uma evidência física, mas da confiança depositada no testemunho de seu colega.

Quando o interesse privado recebeu financiamento público

Em setembro de 2008, a Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos (DIA) contratou a Bigelow Aerospace Advanced Space Studies (BAASS), empresa de Robert Bigelow, para desenvolver pesquisas sobre aplicações futuras de tecnologias aeroespaciais avançadas. O AAWSAP recebeu aproximadamente US$ 22 milhões em financiamento governamental, com James Lacatski atuando como responsável pelo programa na DIA.

A iniciativa produziu relatórios técnicos sobre física teórica, propulsão, materiais avançados, energia e outras áreas consideradas potencialmente relevantes para tecnologias aeroespaciais futuras. Também reuniu registros históricos de OVNIs, realizou entrevistas com testemunhas e desenvolveu investigações de campo. A existência dessas atividades está documentada.

Registros oficiais da DIA mostram que a agência recebeu 26 estudos técnicos em julho de 2009. Em outubro daquele ano, avaliações internas consideraram satisfatória a qualidade de parte dos trabalhos apresentados. O registro consta da documentação oficial divulgada pela DIA. Esse reconhecimento é importante. Seria incorreto afirmar que a BAASS recebeu recursos públicos sem desenvolver pesquisas ou entregar os trabalhos contratados.

Entretanto, a avaliação positiva de um relatório técnico não significa que suas hipóteses tenham sido demonstradas experimentalmente.

Essa distinção é fundamental porque os resultados do AAWSAP passariam a ocupar um papel importante nas narrativas posteriores sobre a existência de tecnologias extraterrestres.

A ciência que antecedeu as supostas descobertas

A trajetória científica de Puthoff, Davis e Lacatski ajuda a compreender a natureza das pesquisas desenvolvidas pelo programa. Puthoff possui formação científica legítima e publicou trabalhos em periódicos reconhecidos, incluindo estudos experimentais sobre lasers e propostas teóricas envolvendo as propriedades do vácuo.

Autor de declaracoes polemicas sobre a suposta recuperacao de tecnologia nao humana consultor do Pentagono Eric Davis foi cobrado por cetico reproducao Youtube
Autor de declarações polêmicas sobre a suposta recuperação de tecnologia não-humana, o consultor do Pentágono Eric Davis (reprodução/Youtube)

Algumas de suas hipóteses sobre gravitação foram contestadas por outros pesquisadores e não se estabeleceram como explicações aceitas pela comunidade científica.

Eric Davis também possui produção acadêmica documentada, especialmente sobre relatividade geral, buracos de minhoca e conceitos avançados de propulsão. Em 2004, quatro anos antes do AAWSAP, produziu um estudo sobre teletransporte contratado pelo Laboratório de Pesquisas da Força Aérea.

Lacatski, por sua vez, participou de pesquisas convencionais em engenharia nuclear, sobretudo relacionadas a conceitos de reatores de fusão. Portanto, não há fundamento para afirmar que esses pesquisadores jamais produziram contribuições científicas ou técnicas.

O problema é outro.

Não foi identificada demonstração científica pública de que suas pesquisas tenham resultado na descoberta de tecnologias de origem não humana, sistemas funcionais de propulsão extraordinária ou confirmação dos fenômenos paranormais associados ao Rancho Skinwalker.

Mais importante: grande parte das hipóteses científicas utilizadas posteriormente pelo AAWSAP já fazia parte das pesquisas de Puthoff e Davis antes da criação do programa. Os chamados Documentos de Referência de Inteligência de Defesa (DIRDs) examinaram possibilidades teóricas como manipulação do espaço-tempo, energia negativa, antigravidade e buracos de minhoca atravessáveis.

Não há evidências publicamente verificáveis de que esses conceitos tenham sido desenvolvidos a partir do exame de veículos extraterrestres recuperados (nota do editor: veja, ao final desta reportagem, a resposta de Hal Puthoff sobre essa questão). Ao contrário, esses conceitos já possuíam antecedentes conhecidos na literatura científica. No capítulo 12 de seu livro, Stratton explica que os estudos coordenados por Puthoff buscavam estabelecer os limites previsíveis da tecnologia humana até 2050.

Segundo ele, os relatórios demonstraram que determinadas capacidades atribuídas aos UAPs seriam matematicamente possíveis, embora estivessem muito além do desenvolvimento tecnológico esperado para aquele período.

Mas existe uma diferença fundamental entre demonstrar que determinada solução matemática é admissível em um modelo físico e comprovar que algum objeto real utiliza essa tecnologia. Uma hipótese sobre como uma nave extraordinária poderia funcionar não constitui evidência de que tal nave exista.

Os veículos que os pesquisadores não conseguiram examinar

Essa distinção adquire importância especial diante de outra revelação feita pelo próprio Stratton. No capítulo oito, o ex-integrante da inteligência relata que Puthoff e Davis o informaram sobre a existência de um suposto programa secreto de recuperação e engenharia reversa de veículos de origem não humana, conhecido como Programa Legado.

Os dois pesquisadores apresentaram Stratton e Lacatski a Jim Ryder, antigo executivo da Lockheed Martin, descrito como alguém com conhecimento direto dessa iniciativa. Segundo Stratton, Ryder confirmou a existência do programa e relatou detalhes sobre materiais recuperados e tecnologias extraordinárias.

O autor afirma ainda que Ryder teria proposto a transferência de pelo menos um dos supostos veículos para que a equipe do AAWSAP pudesse estudá-lo. A transferência, entretanto, nunca ocorreu. Então Stratton passa a descrever os obstáculos impostos por funcionários que controlariam o acesso aos materiais e dificuldades para obter autorizações administrativas especiais.

Manual confirma que Tic Tac foi é uma aeronave Lockheed Martin denominada CL-957 Gen 2?
Manual falso de um suposto Tic Tac atribuído à Lockheed Martin

O resultado prático foi que os pesquisadores do AAWSAP não conseguiram examinar o veículo cuja existência lhes havia sido relatada.

Essa informação é particularmente relevante porque estabelece um limite reconhecido pelo próprio autor: os estudos técnicos desenvolvidos pelo programa não podem ser apresentados como resultados de análises diretas daquele suposto veículo.

Há ainda uma questão sobre a independência dos testemunhos. Puthoff e Davis foram responsáveis por apresentar Ryder a Stratton. Posteriormente, segundo o livro, confirmaram conhecer as mesmas informações fornecidas pelo executivo. Mas os três já mantinham relações profissionais anteriores.

Isso não demonstra que Ryder tenha transmitido informações falsas, nem que os pesquisadores tenham combinado seus relatos. Entretanto, a concordância entre pessoas previamente conectadas não pode ser automaticamente contabilizada como confirmação independente. Para estabelecer essa independência, seria necessário conhecer a origem de cada informação, quando foi obtida e quais contatos existiram entre os envolvidos antes dos depoimentos.

O que as investigações da BAASS realmente encontraram?

A distância entre relatos extraordinários e resultados verificáveis também aparece nas investigações de campo atribuídas à BAASS. Uma cópia pública do chamado Relatório de Dez Meses, datado de julho de 2009, descreve atividades realizadas em diferentes regiões dos Estados Unidos. Entre elas está uma investigação em Trout Lake, Washington, onde pontos luminosos eram apresentados por testemunhas como possíveis espaçonaves extraterrestres.

Os investigadores consultaram informações sobre passagens de satélites e identificaram que os equipamentos Genesis I e Genesis II, pertencentes à própria Bigelow Aerospace, haviam passado pela região nos horários das observações. A equipe considerou satélites e aeronaves explicações plausíveis, sem estabelecer origem extraordinária para os objetos.

Bigelow Aerospace em Objetos Voadores, Um Segredo de Estado (Foto: Curta!/divulgação/Athys de Galzain)
Bigelow Aerospace em “Objetos Voadores, Um Segredo de Estado” (Foto: Curta!/divulgação/Athys de Galzain)

Em outra investigação, no Oregon, pesquisadores entrevistaram testemunhas e realizaram observações em locais associados a suposta atividade ufológica recorrente. Os relatórios descrevem depoimentos contraditórios e ausência de reprodução dos fenômenos extraordinários durante as vigílias.

Esses registros mostram que houve investigação efetiva e que a equipe também considerou explicações convencionais.

Entretanto, a cópia pública do relatório circula por canais não governamentais e sua integridade documental ainda exige confirmação independente. Por isso, os episódios devem ser tratados como informações atribuídas ao documento divulgado, e não como conclusões oficialmente autenticadas pela DIA.

A ressalva não altera o problema central: a existência de equipamentos, observações e relatórios não equivale à demonstração de tecnologia extraterrestre.

O contraste com o livro de Stratton também merece atenção. Nas passagens examinadas, o autor destaca principalmente acontecimentos considerados extraordinários e o valor dos estudos técnicos, sem apresentar os episódios de Trout Lake e Oregon como parte de seu balanço.

Isso não constitui prova de omissão deliberada. Out of the Shadows é um livro de memórias, não um relatório científico completo. Mas a seleção dos resultados torna-se relevante quando o autor utiliza a experiência do programa para defender conclusões abrangentes sobre inteligências não humanas.

Jay Stratton acusa ex-diretor da AARO de participar de desinformação

O confronto entre os pesquisadores ligados ao AAWSAP e os órgãos responsáveis por investigar suas alegações ganha contornos ainda mais graves em Out of the Shadows quando Jay Stratton dirige acusações explícitas a Sean Kirkpatrick, físico que comandou o Escritório de Resolução de Anomalias em Todos os Domínios (AARO) entre 2022 e 2023.

Stratton afirma que Kirkpatrick já havia interferido em suas iniciativas antes da criação da AARO, dificultando uma reunião com autoridades da inteligência militar durante a estruturação da Força-Tarefa de Fenômenos Aéreos Não Identificados (UAPTF). Posteriormente, segundo sua interpretação, a escolha do físico para dirigir a nova agência teria favorecido os interesses do chamado Programa Legado.

As acusações vão além de divergências administrativas. Stratton sustenta que Kirkpatrick teria atuado para desacreditar as investigações anteriores e negar publicamente a existência de evidências que, segundo o autor, já haviam sido reunidas por pesquisadores e autoridades militares. Em uma das passagens mais contundentes, afirma que integrantes do Congresso possuíam informações sigilosas que demonstrariam a influência do Programa Legado sobre o diretor da AARO.

Dr. Sean Kirkpatrick, diretor do Escritório de Pesquisas de Anomalias de Todos os Domínios - AARO
Dr. Sean Kirkpatrick, ex-diretor do Escritório de Pesquisas de Anomalias de Todos os Domínios – AARO (Foto: Wikipedia/NASA/Joel Kowsky)

O ex-integrante da inteligência também acusa Kirkpatrick de colaborar com uma campanha de desinformação por meio de entrevistas e declarações à imprensa. Entre os episódios mencionados está uma reportagem publicada pelo The Wall Street Journal em junho de 2025, na qual o antigo dirigente da AARO apresentou uma interpretação crítica das alegações sobre programas secretos de recuperação de tecnologia extraterrestre.

São acusações graves, mas o livro não disponibiliza documentos ou outras evidências independentes que permitam comprovar a suposta subordinação de Kirkpatrick ao Programa Legado, sua participação deliberada em uma campanha de desinformação ou a existência das informações sigilosas que Stratton atribui ao Congresso.

Por sua vez, Kirkpatrick sustentou publicamente que as investigações da AARO não encontraram evidências confiáveis de atividade extraterrestre, tecnologia de origem não humana ou objetos que desafiassem as leis conhecidas da física. Essa posição também aparece nas conclusões institucionais do relatório histórico divulgado pelo órgão em março de 2024. Curiosamente, Kirkpatrick foi um dos primeiros quadros a apontar que as denúncias da existência de programas de recuperação e engenharia reversa de UAPs vinham de um mesmo grupo restrito de pessoas.

A divergência revela um problema adicional para avaliar as revelações contemporâneas. Enquanto Stratton interpreta as conclusões negativas da AARO como parte de um esforço deliberado de encobrimento, o órgão atribui parte das alegações extraordinárias à circulação de informações entre pesquisadores que mantêm relações profissionais anteriores.

O Pentágono identificou a circulação das mesmas alegações

As acusações de Stratton contra Sean Kirkpatrick tornam ainda mais relevante examinar as conclusões da instituição que ele dirigiu. Em março de 2024, o Escritório de Resolução de Anomalias em Todos os Domínios (AARO) publicou um relatório histórico sobre as investigações governamentais relacionadas aos UAPs.

O documento afirma que muitas das alegações contemporâneas sobre tecnologias extraterrestres escondidas pelo governo norte-americano procedem de um mesmo grupo de indivíduos ligados ao AAWSAP e a iniciativas privadas de pesquisa paranormal. Segundo a AARO, esses personagens colaboraram repetidamente em diferentes projetos e participaram da divulgação das alegações em ambientes públicos e privados.

O órgão afirma não ter recebido evidências empíricas suficientes para confirmar as principais declarações extraordinárias desse grupo. O relatório não identifica publicamente todos os envolvidos e, portanto, não permite atribuir individualmente cada alegação a Puthoff, Davis, Lacatski ou outros integrantes conhecidos.

Mas a avaliação institucional coincide com um padrão documentado pela própria narrativa de Stratton: a continuidade das relações entre pesquisadores que participaram de projetos privados, programas governamentais e iniciativas posteriores de divulgação ufológica.

A AARO também concluiu não ter encontrado evidências verificáveis de programas governamentais secretos dedicados à engenharia reversa de tecnologia extraterrestre. Seus resultados, entretanto, são contestados por antigos participantes dessas investigações e defensores das revelações, que questionam o acesso do órgão a informações altamente classificadas e a abrangência de sua análise.

Essas críticas fazem parte do contraditório necessário. Ainda assim, questionar a capacidade investigativa da AARO não substitui a necessidade de apresentar evidências independentes das alegações extraordinárias.

Uma proposta para influenciar o debate público

Outro elemento significativo aparece no mesmo relatório histórico. Segundo a AARO, pouco antes do encerramento do AAWSAP, a organização privada contratada apresentou uma proposta de realização de debates públicos em instituições acadêmicas, envolvendo jornalistas favoráveis ao assunto e personalidades conhecidas como moderadores.

O aspecto mais controverso era a orientação sugerida: os debates deveriam partir da premissa de que visitas extraterrestres eram reais, evitando concentrar as discussões nas dificuldades de demonstrar essas visitas.

A proposta também buscava ampliar o interesse público pela divulgação de informações governamentais sobre o tema e discutir as consequências sociais dessa revelação (Wikisource). Não há demonstração, nesse registro, de que a campanha tenha sido efetivamente executada. Tampouco é possível atribuir sua autoria individualmente aos pesquisadores envolvidos sem examinar documentos adicionais.

Entretanto, a iniciativa descrita revela que ao menos uma proposta associada ao programa pretendia promover discussões públicas tomando como verdadeira uma hipótese que as próprias pesquisas não haviam demonstrado cientificamente.

A distinção é relevante: uma coisa é defender a importância de investigar relatos extraordinários; outra é organizar sua divulgação pública partindo da aceitação prévia de determinadas conclusões.

Da confiança pessoal à autoridade institucional

A trajetória desses personagens permite identificar um processo que merece atenção independentemente da veracidade final das alegações ufológicas.

Nos anos 1970 e 1980, Puthoff participou de pesquisas governamentais sobre percepção extrassensorial e visão remota. Posteriormente, integrou iniciativas privadas relacionadas a fenômenos extraordinários, incluindo aquelas financiadas por Bigelow. Davis e Kelleher também participaram de pesquisas associadas ao NIDS e ao Rancho Skinwalker. Lacatski e Stratton, por sua vez, estabeleceram contatos com esse círculo e contribuíram para transformar seus interesses de pesquisa em uma iniciativa governamental financiada.

Corbell e Knapp entrevistam Kelleher e Lacatski no Weponized: testemunhos em primeira mão do interior de um óvni? (Foto: reprodução/Youtube)
Corbell e Knapp entrevistam Kelleher e Lacatski no Weaponized: testemunhos em primeira mão do interior de um óvni? Não! (Foto: reprodução/Youtube)

Quando o AAWSAP foi encerrado, seus antigos integrantes continuaram participando do debate sobre UAPs, frequentemente apresentando suas experiências profissionais e o financiamento recebido como sinais da relevância de suas investigações.

O mecanismo potencialmente circular aparece quando informações transmitidas por integrantes do grupo são posteriormente confirmadas por outros participantes, enquanto os projetos que desenvolveram juntos passam a funcionar como credenciais institucionais.

A participação num programa governamental é um fato verificável. A existência de um relatório técnico também. Mas nenhuma dessas circunstâncias demonstra, isoladamente, que os fenômenos extraordinários investigados tenham sido confirmados.

Da mesma maneira, o conhecimento científico legítimo de um pesquisador não transforma automaticamente suas interpretações sobre acontecimentos controversos em conclusões cientificamente estabelecidas.

Isso não significa que os envolvidos tenham necessariamente agido de má-fé. É possível que compartilhem convicções sinceras, construídas a partir de experiências pessoais, investigações e informações às quais afirmam ter tido acesso.

Porém, o problema científico permanece o mesmo: convicções compartilhadas não substituem evidências independentes, e a repetição de uma informação não aumenta necessariamente sua confiabilidade quando todas as fontes têm uma origem comum.

Quando a ausência de provas se torna parte da explicação

Existe ainda um aspecto particularmente importante na narrativa de Stratton. O autor sustenta que o AAWSAP foi impedido de acessar informações e materiais supostamente mantidos por programas secretos mais antigos.

Diante dessa interpretação, a ausência de evidências físicas disponíveis para análise independente é explicada pela própria existência de uma estrutura clandestina responsável por impedir o acesso.

A hipótese é logicamente possível. Programas secretos existem, e informações governamentais podem permanecer classificadas durante décadas. Entretanto, uma negativa de acesso não demonstra que o objeto procurado exista.

Pedidos de liberação de informação sobre UAP/óvni recebem tratamento diferente no Pentágono
Pedidos de liberação de informação sobre UAP/óvni recebem tratamento diferente no Pentágono

O risco metodológico aparece quando a ausência de comprovação passa a funcionar como argumento adicional em favor da hipótese investigada.

Se não há materiais disponíveis, seria porque estão escondidos. Se os pesquisadores não conseguem examiná-los, seria porque existe uma organização encarregada de impedir o acesso. Se as autoridades negam conhecer o programa, a negativa pode ser interpretada como parte do encobrimento.

Esse raciocínio torna cada vez mais difícil estabelecer quais acontecimentos poderiam efetivamente refutar a hipótese. E uma explicação científica precisa permitir não apenas a busca por confirmações, mas também a possibilidade de demonstrar que suas premissas estão equivocadas.

A pergunta que permanece

Out of the Shadows pretende apresentar ao público revelações sobre programas secretos de recuperação de veículos extraterrestres e o envolvimento de inteligências não humanas com a humanidade.

Entretanto, o livro também oferece, possivelmente de maneira involuntária, uma descrição detalhada das relações pessoais e institucionais que sustentam parte dessas alegações.

A investigação dessas conexões não permite concluir que todos os relatos sejam falsos, muito menos que seus protagonistas tenham organizado deliberadamente uma operação de desinformação. Mas permite identificar uma questão fundamental sobre a formação da autoridade científica e institucional no debate contemporâneo sobre OVNIs.

Quando diferentes testemunhas compartilham informações, participam dos mesmos projetos e utilizam suas experiências conjuntas como confirmação das próprias conclusões, a quantidade aparente de fontes independentes pode ser maior do que a quantidade real.

A história do Rancho Skinwalker, do NIDS e do AAWSAP demonstra que um grupo relativamente restrito de pesquisadores conseguiu manter influência sobre investigações e narrativas ufológicas ao longo de décadas.

Seus trabalhos produziram estudos técnicos, reuniram registros e motivaram iniciativas governamentais reais. Entretanto, as evidências publicamente verificáveis examinadas até aqui não demonstram que essas atividades tenham comprovado a existência de veículos de origem não humana.

O verdadeiro desafio para as revelações contemporâneas não está, portanto, apenas em apresentar novos depoimentos de autoridades, militares ou cientistas. Está em demonstrar que esses depoimentos são independentes, que suas informações possuem origens verificáveis e que as conclusões extraordinárias encontram sustentação em evidências físicas e observacionais acessíveis à análise científica.

Afinal, quantas das revelações hoje apresentadas como confirmações independentes sobre a presença extraterrestre na Terra são realmente descobertas distintas — e quantas representam histórias que circulam, há décadas, dentro de um mesmo grupo?

Essa pode ser uma das perguntas mais importantes para compreender a moderna história dos UAPs.

 

Hal Puthoff responde ao Portal Vigília: o que o AAWSAP conseguiu comprovar?

Durante a preparação desta reportagem, o Portal Vigília buscou ouvir quatro dos principais personagens envolvidos nas investigações e revelações contemporâneas sobre OVNIs: Jay Stratton, Hal Puthoff, Eric Davis e James Lacatski. O objetivo foi oferecer aos pesquisadores a oportunidade de esclarecer questões sobre os resultados científicos dos programas de que participaram e a independência das fontes utilizadas para sustentar alegações extraordinárias.

Dr Harold E.Puthoff participando de um Podcast (Reprodução/Shareitorregreti/YouTube)
Dr Harold E.Puthoff participando de um Podcast (Reprodução/Shareitorregreti/YouTube)

Jay Stratton foi procurado por meio de comentários em suas publicações na rede social X (antigo Twitter) e de contatos com a assessoria de imprensa da editora responsável por seu livro, tanto nos Estados Unidos quanto por intermédio de sua representação no Brasil. O Portal Vigília também tentou estabelecer contato com Eric Davis e James Lacatski por canais profissionais e redes sociais. Entre as iniciativas, houve ainda um pedido de auxílio ao jornalista e documentarista Jeremy Corbell, conhecido por suas relações com os pesquisadores, para obter um canal de comunicação com os três. Apesar das tentativas, não foi possível estabelecer contato direto com eles nem obter suas manifestações até o fechamento desta reportagem. O Portal Vigília mantém aberto o espaço para que os três apresentem esclarecimentos ou contestem as informações aqui publicadas, comprometendo-se a incorporar eventuais respostas posteriores à cobertura.

Hal Puthoff foi o único a responder. Em correspondência enviada à reportagem, o físico reconheceu que os estudos produzidos pelo AAWSAP não apresentaram evidências experimentais claramente definidas e reproduzíveis de tecnologia anômala de origem não humana.

Questionado sobre quais resultados científicos do NIDS ou do AAWSAP poderiam ser reproduzidos independentemente, Puthoff declarou:

“Infelizmente, o mais próximo que chegamos disso no programa AAWSAP foram alguns dos Documentos de Referência de Inteligência de Defesa (DIRDs), produzidos por prestadores de serviços do governo, que descreviam trabalhos científicos avançados. Nenhum deles, porém, envolvia evidências reproduzíveis claramente definidas de tecnologia anômala proveniente de inteligência não humana.”

A afirmação estabelece uma distinção importante entre o desenvolvimento de pesquisas científicas sobre tecnologias avançadas e a demonstração efetiva da existência dessas tecnologias.

Puthoff confirmou também que os DIRDs examinavam principalmente possibilidades teóricas, e não resultados de análises diretas de veículos ou materiais recuperados de suposta origem extraterrestre. Como exemplo, citou seu próprio estudo sobre engenharia da métrica do espaço-tempo.

Mas a resposta mais significativa para a investigação veio na sequência de sua primeira declaração. Depois de reconhecer a ausência de evidências reproduzíveis nos estudos mencionados, Puthoff acrescentou que provas dessa natureza poderiam ser encontradas no recém-lançado Out of the Shadows, de Jay Stratton.

A indicação chama atenção porque o próprio Puthoff assina o prefácio do livro, no qual apresenta como fatos estabelecidos diversas das alegações extraordinárias defendidas pelo autor. Assim, quando questionado sobre a comprovação científica produzida pelo programa do qual participou, o pesquisador remeteu a uma obra escrita por um colega de longa data, que apresenta relatos e informações sobre programas secretos, mas não disponibiliza, nas passagens examinadas, evidências experimentais reproduzíveis que permitam verificar essas alegações.

A referência não demonstra que as afirmações de Stratton sejam falsas. Entretanto, ilustra precisamente a dificuldade de distinguir a confirmação independente de informações que circulam entre pesquisadores com relações profissionais e pessoais anteriores.

O Portal Vigília também perguntou a Puthoff quais procedimentos foram utilizados para impedir que relatos provenientes de uma mesma origem fossem interpretados como confirmações independentes, considerando suas décadas de colaboração com Eric Davis, Colm Kelleher, Robert Bigelow e outros participantes dessas investigações.

Sua resposta foi breve: “Cada um de nós teve acesso a muitas fontes independentes e diferentes.”

O pesquisador não identificou essas fontes nem detalhou procedimentos de verificação de sua independência. Sua declaração representa, portanto, uma contestação à hipótese de circularidade, mas não oferece elementos que permitam examiná-la documentalmente.

Em outra questão, Puthoff contestou a avaliação governamental de 1995 sobre o programa STARGATE, dedicado à investigação da chamada visão remota. Segundo ele, a avaliação teria sido prejudicada pelo acesso limitado aos dados e contrariada pela estatística Jessica Utts.

A consulta aos relatórios originais confirma que Utts defendeu a existência de resultados estatísticos favoráveis à hipótese de percepção extrassensorial. Sua interpretação, porém, foi contestada pelo psicólogo Ray Hyman, enquanto a avaliação final concluiu que a utilidade operacional da visão remota para atividades de inteligência não havia sido demonstrada de maneira convincente.

As respostas de Puthoff ajudam a delimitar o alcance das pesquisas realizadas. O AAWSAP efetivamente produziu estudos técnicos sobre tecnologias avançadas, mas seu antigo responsável científico não apontou, nas respostas ao Portal Vigília, resultados experimentais reproduzíveis que comprovassem a existência de tecnologia de origem não humana.

Quanto à possível circulação de informações dentro de um mesmo grupo, Puthoff sustenta que havia fontes independentes, mas não apresentou elementos que permitissem verificar essa independência. É justamente essa distância entre declarações de confiança e comprovação documental que permanece no centro das questões levantadas pela reportagem.

 


Fontes principais: Out of the Shadows, de Jay Stratton, especialmente os capítulos 5, 7, 8, 9, 11 e 12; registros oficiais da DIA sobre o AAWSAP; relatório histórico da AARO, de março de 2024; e cópia pública do BAASS Ten Month Report, de julho de 2009, cuja proveniência integral permanece sem confirmação independente.

Nota editorial: esta reportagem distingue fatos administrativos documentados, declarações dos protagonistas e interpretações científicas ainda não demonstradas. As conclusões da AARO são apresentadas como avaliações institucionais contestadas por alguns dos envolvidos, não como demonstração definitiva da inexistência de todos os fenômenos investigados.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Jeferson Martinho

Jornalista, o autor é empresário de comunicação, dono de agência de marketing digital e assessoria de imprensa, publisher de um portal de notícias regionais na Grande São Paulo, fundador e editor do Portal Vigília. Apaixonado por Ufologia de um ponto de vista científico, é autor do livro "Nem Todo OVNI é Extraterrestre - Um guia para entusiastas da ufologia que não querem ser iludidos", disponível na Amazon.

Leia Também

×