Recentemente, os pesquisadores Heitor Costa e o médico cardiologista Dr. Marco Seixas disponibilizaram online, através do site operacaoprato.com, um levantamento exaustivo de registros jornalísticos que documentam a atividade de Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs) no Piauí em 1976. A iniciativa visa organizar cronologicamente os fatos que aterrorizaram o estado um ano antes da famosa investigação militar na Amazônia.
Ao resgatar as matérias do jornal O Dia, principal veículo a cobrir os acontecimentos no Piauí, os pesquisadores oferecem provas materiais de que o fenômeno, conhecido popularmente como chupa-chupa, teve uma gênese muito mais ampla e precoce do que o consenso ufológico anterior sugeria. A disponibilização deste acervo é fundamental para compreender como a onda de ataques migrou geograficamente e como a memória coletiva foi moldada por esses eventos traumáticos.
Historicamente, o fenômeno chupa-chupa é lembrado pelos ataques de luzes misteriosas no Pará e Maranhão que causavam ferimentos e debilidade física em moradores de zonas rurais, gerando a crença de que o sangue das vítimas era extraído. Foi esse fato, inclusive, determinante para a denominação do fenômeno entre os moradores locais e a imprensa. Esse pânico culminou na Operação Prato, uma missão oficial da Força Aérea Brasileira (FAB), então secreta, realizada entre 1977 e 1978 para investigar os fenômenos.
Apesar disso, já eram conhecidas as histórias de relatos e uns poucos registros de episódios anteriores ao biênio 77/78 em outro estado, o Piauí. E, apesar dos indícios fortes de que a onda teria começado em solo piauiense, como a região ficou fora dos relatórios da Operação Prato, faltava uma compilação documental robusta. Agora, os novos registros não apenas confirmam essa suspeita, mas mostram que cidades como Pedro II, Campo Maior, Teresina, Timon, Luiz Correia, Parnaíba e Demerval Lobão aparentemente já estavam sob intenso monitoramento de objetos desconhecidos em 1976.

O início da onda chupa-chupa no território piauiense
Os documentos revelam que a população rural de Pedro II foi uma das primeiras a sofrer com o medo generalizado de um “aparelho” que transmitia luzes excessivamente fortes. Em julho de 1976, os jornais já noticiavam que moradores evitavam sair à noite e abandonavam hábitos tradicionais, como a caça noturna, temendo o “bicho”. Relatos indicavam que o objeto circulava com frequência em regiões montanhosas, como a Cangáia e a Ladeira do Felipe, emitindo zumbidos intermitentes que apavoravam os observadores. A precisão dos depoimentos de pessoas humildes e analfabetas impressionava os jornalistas da época, que notavam a consistência nas descrições de formas ovais e luzes intensas.
As vítimas iniciais apresentavam sintomas claros de tensão nervosa e debilidade física após o contato visual ou físico com as luzes. O agricultor Francisco Braz, atendido pelo médico Roberto Farias, demonstrava um estado de “debilidade mental parcial” provocado pelo medo extremo ao ser atingido por um facho de luz. Outra moradora, Raimunda Antonia, relatou ao jornal O Dia em 06 de julho de 1976: “quando eu olhei estava em cima de minha cabeça, aquela luz forte. Aí eu mim abaixei, mas já pensando que o bicho estava me chupando”. A expressão “chupando” rapidamente se tornou o termo padrão para descrever a sensação de ter a energia ou o sangue retirados pelo objeto luminoso.
A disseminação do medo em outras cidades piauienses não tardou, atingindo Campo Maior com a mesma intensidade. O horticultor Francisco Ferreira Lima descreveu um objeto ovalado, do tamanho de um automóvel pequeno, que o perseguiu em seu quintal em julho de 1976. Segundo sua entrevista ao jornal O Dia, o aparelho emitia um som de “lâmpadas de combustão” e possuía garras que poderiam ser um sistema de pouso. O terror foi tamanho que o pescador Elias José da Silva precisou se esconder sob uma ponte ferroviária para escapar, enquanto gritava para seu companheiro: “Cuidado é o bicho que tá atrás de voce”.
Mesmo em centros urbanos como Teresina, a presença dos objetos foi registrada de forma dramática no Morro do Uruguai e na Piçarra. Maria do Carmo de Sousa, conhecida como Duca, foi perseguida por uma luz enorme e sofreu uma aguda crise cardíaca e dormência nas pernas. Em Timon, o caso mais notório envolveu o advogado Nicolau Waquim, que afirmou ter visto dois seres de “tamanho descomunais, encapuçados” descerem de uma nave azulada. Waquim declarou que foi convidado a entrar no aparelho, descrevendo o interior com “cadeiras avermelhadas, cintilantes e macias”, em um relato que desafiava a descrença das autoridades.

Relatos de ataques e ferimentos físicos
Os registros reunidos por Heitor e Seixas trazem detalhes perturbadores sobre o uso de energia radiante que causava danos biológicos diretos. O caso de Osmar Moreira de Sousa, ocorrido no Rio Poti em Teresina, é um dos mais graves documentados. Ele relatou ter sido suspenso do chão por cerca de seis metros após ser atingido por uma queimadura que parecia vir de “fricção de metal incandescido”. Em seu depoimento ao jornal O Dia em 28 de julho de 1976, Osmar descreveu parte do objeto como “uma perna quadrada de metal preto e vermelho com fios de diversas cores saindo por baixo”.
A gravidade das lesões era frequentemente minimizada por profissionais de saúde que não sabiam como lidar com o inédito. Osmar foi medicado sob risadas de enfermeiros que desdenhavam de sua história, apesar de a queimadura atingir todo o seu braço. Outro exemplo é o de Francisco Ferreira, de Pedro II, que após ser atingido “em cheio pela luz”, passou três dias de cama com febre intensa, calafrios e dores de cabeça. Sua mãe, Maria de Jesus, relatou que ele entrou em casa “totalmente anestesiado” e tonto, evidenciando o efeito paralisante da tecnologia empregada pelos objetos.

A recorrência desses sintomas — febre, cefaleia, dormência e torpor — criava um padrão que os jornais da época começaram a conectar. No lugarejo Todos os Santos, a família de Osmar Moreira agradecia a Deus por ele ter escapado do “pesadelo”, mas não possuía remédios para curar a ferida estranha. Testemunhas em São Raimundo, como José Alves Batista de Paiva, confirmaram terem visto o clarão sobre a ferrovia e o objeto pairando a três metros do solo, perto de uma palmeira de babaçu. A luz, em formato indefinido, descrevia parábolas no céu antes de sumir em velocidade incrível, deixando rastros de destruição e pânico.
O redimensionamento histórico proposto pelo site operacaoprato.com enfatiza que esses relatos não eram frutos de “mentes férteis”, mas experiências traumáticas reais. A conformidade entre as descrições de vítimas que nunca se comunicaram reforça a tese de que uma inteligência externa operava na região. Enquanto a população urbana muitas vezes demonstrava descrédito, os moradores das periferias e zonas rurais viviam sob o jugo do desconhecido. Esses documentos agora provam que a “luz dos mistérios” já era uma realidade palpável e documentada muito antes de o governo federal decidir intervir.
A estrutura da Operação Prato
Para entender o impacto desses achados, é preciso contextualizar o que foi a Operação Prato, oficialmente desencadeada em 1977. Comandada pelo então capitão Uyrangê Hollanda, a missão foi a resposta militar à pressão de prefeitos e autoridades do Pará e Maranhão diante do terror do chupa-chupa. O 1º Comando Aéreo Regional (COMAR) mobilizou agentes e equipamentos profissionais de fotografia e filmagem para monitorar o céu da Amazônia. Durante meses, os militares registraram corpos luminosos realizando manobras que desafiavam as leis da física conhecidas.

Hollanda revelou, décadas depois, que a operação produziu dezenas de rolos de negativos e horas de filmagens de objetos que pareciam emitir feixes de luz “progressivos”, como se controlados por reguladores. Em uma vigília na Baía do Sol, acompanhada por agentes do extinto Serviço Nacional de Informação (SNI), o capitão testemunhou um objeto de 30 metros de diâmetro que iluminou o solo com intensidade solar. O relatório final da operação, assinado pelo sargento João Flávio de Freitas Costa, concluiu que os objetos eram inteligentemente dirigidos e representavam uma tecnologia muito superior à terrestre.
Apesar do volume de evidências coletadas, a Aeronáutica manteve o silêncio oficial por mais de 20 anos, alimentando teorias de conspiração e acobertamento. O coronel Hollanda, que se tornou uma figura central na ufologia brasileira, suicidou-se em 1997, pouco após conceder entrevistas reveladoras à Revista UFO. A morte do militar, embora envolta em controvérsias, não apagou o legado de seus relatórios, que descreviam sintomas idênticos aos registrados no Piauí em 1976, como a “imobilização total”, tonturas e amortecimento de membros.
A Operação Prato permanece como o maior esforço militar de investigação ufológica no Brasil, mas os novos dados de 1976 mostram que ela foi apenas uma parte de um fenômeno maior. O fato de o governo militar ter investigado o tema em segredo demonstra a preocupação com a soberania do espaço aéreo e a segurança da população. No entanto, a falta de uma conclusão pública definitiva deixou as vítimas sem explicações oficiais por gerações, relegando seus traumas ao folclore até que iniciativas de pesquisa independente surgissem para resgatar a verdade.

Valorizando a memória ufológica local
O trabalho de Heitor Costa e Marco Seixas e todo o site operacaoprato.com representa um esforço monumental de registro fiel e imparcial. Ao digitalizar e disponibilizar gratuitamente esses documentos, eles permitem que a história do Piauí seja recontada sob uma ótica mais precisa e menos fragmentada. O site funciona como um santuário de dados, onde a memória das vítimas é preservada contra o esquecimento e o descrédito. É uma resposta local e rigorosa a perguntas que pairam no ar há décadas, oferecendo um porto seguro para pesquisadores de todo o mundo.
A importância desse acervo reside na sua capacidade de humanizar o fenômeno, focando no efeito devastador que as luzes tiveram na vida de cidadãos comuns. As perseguições em Luiz Correia, as luzes em Demerval Lobão e os ataques em Teresina não são mais apenas boatos, mas fatos registrados pela imprensa. O site operacaoprato.com cumpre o papel que as autoridades muitas vezes negligenciaram: o de informar com seriedade e documentar o inexplicável sem sensacionalismo.
O legado do fenômeno chupa-chupa deixou cicatrizes profundas na população, desde o medo crônico de luzes fortes até traumas psicológicos persistentes. A disponibilização do levantamento histórico é um ato de justiça com essas pessoas, validando suas experiências diante de uma sociedade que muitas vezes preferiu rir do que investigar. O site se torna, assim, uma ferramenta essencial para a ufologia científica, provando que a investigação de campo e o estudo de arquivos são os únicos caminhos para desvendar os mistérios que cruzam nossos céus.


