No dia 29 de setembro de 1988, o corpo de Joaquim Sebastião Gonçalves, um aposentado de 53 anos, foi encontrado em um braço da Represa Billings, no bairro Bororó, na região do Grajaú, Zona Sul de São Paulo. Vestindo apenas uma cueca de malha, ele apresentava gravíssimas mutilações faciais e corporais. As imagens causaram perplexidade e deram origem a um dos episódios mais controversos da Ufologia Brasileira: o chamado Caso Guarapiranga, nome pelo qual se tornou conhecido apesar do erro geográfico.
O Portal Vigília revisita agora o caso — com anos de atraso — porque ele merecia um levantamento mais extenso. Ao longo dos últimos anos, nosso texto anterior, que apresentava a história essencialmente como ela se tornou conhecida, permaneceu de longe entre os conteúdos mais visitados do site. Embora as explicações convencionais para as mutilações sejam bastante plausíveis e estejam apoiadas por testemunhos importantes, as discrepâncias documentais e as interpretações alternativas nunca haviam sido abordadas aqui com a profundidade necessária. Foi um descuido editorial que esta nova reportagem espera finalmente corrigir — ou, ao menos, começar a corrigir.
A repercussão internacional começou em setembro de 1993, quando a ufóloga espanhola radicada no Brasil Encarnación Zapata Garcia publicou uma matéria de capa na Revista UFO, defendendo que tecidos e órgãos haviam sido extraídos por seres extraterrestres. Quase uma década depois, o engenheiro eletrônico e ufólogo Claudeir Covo publicou uma extensa contra-investigação, baseada em documentos policiais, testemunhos e consultas médico-legais, que atribuiu as lesões à ação de animais necrófagos.
Essa apuração abalou o principal sustentáculo da interpretação extraordinária, mas não eliminou todas as dúvidas criadas pela redação do laudo necroscópico original.

O surgimento da lenda e a tese da abdução
A construção do mistério começou quando Encarnación tomou conhecimento do caso por intermédio do médico dermatologista Rubens Sérgio Góes. Ele havia recebido, de seu primo, as fotografias de um cadáver. O parente era o perito criminal aposentado Rubens Silvestre Marques. Impressionada com as imagens, Garcia obteve o apoio do promotor de Justiça José Roberto Cuenca para desarquivar o inquérito policial e ter acesso ao laudo do Instituto Médico Legal. Uma tentativa de exumação não avançou porque a família já havia transferido o corpo para outro cemitério, mas os documentos obtidos serviram de base para uma das teses mais radicais da ufologia brasileira, mesmo sem um único indício que ligasse diretamente o caso a um fenômeno ufológico.
Na reportagem publicada em setembro de 1993, Encarnación sustentou que os ferimentos não correspondiam a um homicídio comum nem a um ritual. Chamou atenção para a aparente remoção de tecidos nos lábios e na mandíbula, para perfurações nas axilas — descritas como tendo cerca de 4 centímetros de diâmetro — e para lesões no umbigo e na região perineal. Em sua interpretação, a aparência relativamente regular de algumas marcas lembrava as chamadas mutilações de gado registradas nos Estados Unidos, um fenômeno cujas notícias à época já causavam apreensão por aqui.

A ufóloga propôs que órgãos internos e vísceras teriam sido extraídos por pequenos orifícios, mediante alguma tecnologia desconhecida de aspiração.
Outro elemento central era a leitura do laudo necroscópico, que registrava “reação vital” nas lesões — sinal de que ao menos parte delas teria ocorrido enquanto Joaquim ainda estava vivo. Garcia também argumentou que a ausência aparente de marcas grosseiras de garras e dentes contrariava a ação de predadores. Segundo sua versão, os urubus observados no local apenas sobrevoavam o corpo, sem tocá-lo.
Ao apresentar o episódio, a pesquisadora o inseriu numa visão mais ampla e ameaçadora do fenômeno ufológico:
“Todos os que, de alguma forma, se interessam por Ufologia ou pesquisam e investigam o Fenômeno UFO conhecem o lado negativo da questão. Trata-se do lado agressivo do fenômeno e suas consequências para aqueles que tiveram, involuntariamente, um contato próximo com nossos ‘visitantes’.”
— Encarnación Zapata Garcia, Revista UFO, edição 25.
A publicação transformou uma morte trágica e pouco conhecida em um enigma de alcance internacional. O impacto das fotografias, somado às expressões incomuns empregadas no laudo, ajudou a consolidar a narrativa de uma mutilação humana de origem extraterrestre.

A contra-investigação de Claudeir Covo
Enquanto o caso ainda ganhava manchetes sensacionalistas em jornais populares, uma contestação abrangente ganhou forma em julho de 2002, quando o falecido ufólogo Claudeir Covo, então presidente do Instituto Nacional de Investigação de Fenômenos Aeroespaciais (INFA), publicou uma contra-investigação detalhada, desenvolvida em conjunto com Paola Lucherini Covo e Tânia da Cunha. O grupo voltou aos documentos, entrevistou pessoas envolvidas na retirada do cadáver e consultou especialistas.
Publicada na Revista UFO nº 80, de julho de 2002, a matéria começa pela correção geográfica: o corpo não havia sido encontrado na Represa de Guarapiranga, mas em um braço da Represa Billings, no bairro Bororó. O nome equivocado, contudo, já estava consagrado.
Segundo a apuração publicada por Covo, Joaquim sofria de epilepsia e doença de Chagas, fazia uso do medicamento de uso controlado Gardenal e tinha problemas com o consumo de álcool. Ele costumava nadar apenas de cueca até pontos da margem onde pescava. A combinação de álcool e medicamento foi apresentada pelos investigadores como uma possível causa de desmaio ou inconsciência, mas não deve ser tratada como causa comprovada da morte. O exame toxicológico mencionado na própria contra-investigação teria dado resultado negativo para substâncias tóxicas, e as fontes disponíveis não permitem estabelecer com segurança o alcance do teste realizado à época.
O elemento mais forte da contra-investigação foi o conjunto de depoimentos sobre o estado em que o corpo fora encontrado. O sargento do Corpo de Bombeiros Milton de Souza Guedes, que participou do resgate, relatou ao perito criminal Eduardo Roberto Alcântara Del-Campo que havia cerca de vinte urubus sobre o cadáver e que as aves consumiam suas partes moles. Moradores como Antônio Gomes Filho e Ana Joaquim Bevilaqua Rosa também descreveram a presença e a ação de animais, afirmando que urubus e roedores atuavam com frequência sobre carcaças abandonadas naquela região. A informação contrastava fortemente com as alegações da pesquisa original.
Esses testemunhos enfraqueceram de maneira decisiva a afirmação de que as aves apenas sobrevoavam o corpo. Demonstraram, também, que a predação não foi uma hipótese criada posteriormente apenas a partir das fotografias: animais teriam sido vistos alimentando-se diretamente do cadáver.

Del-Campo procurou avaliar a velocidade dessa ação deixando a carcaça de um cão no mesmo local. Conforme o relato publicado por Covo, ratos e urubus a consumiram intensamente em cerca de dois dias. O teste não chegou a reproduzir cada uma das lesões de Joaquim nem identificar qual animal teria produzido cada marca, mas confirmou a presença de fauna necrófaga capaz de alterar rapidamente um corpo naquele ambiente.
À época, o médico-legista Fortunato Badan Palhares, ao examinar fotografias divulgadas pela imprensa, também considerou as lesões compatíveis com a ação de pequenos roedores:
“Todas as lesões ou ferimentos encontrados na superfície corporal são compatíveis com lesões produzidas por pequenos roedores.”
— Fortunato Badan Palhares, Notícias Populares.
O conjunto dessas informações oferece uma explicação convencional forte para as mutilações. Há, porém, uma distinção importante: a existência de predação está bem documentada; mas a reconstrução exata de todas as lesões, da sequência em que ocorreram e do estado de Joaquim quando começaram, não está.
As lacunas do laudo e a persistência do debate
Parte da longevidade do caso decorre do Laudo de Exame de Corpo de Delito nº 645/88, assinado pelos médicos legistas Jorge Pereira de Oliveira e Cláudio Roberto Zabeu. Conforme reproduzido na contra-investigação publicada por Claudeir Covo, o documento atribuiu a morte a hemorragia aguda e múltiplos traumatismos associados à inibição vagal, descreveu um “agente mecânico” de natureza cortante e registrou reação vital. Empregou ainda a incomum formulação segundo a qual o modus operandi teria envolvido “incisão em partes moles e em orifícios naturais mediante aspiração”.
Esses termos não comprovam uma intervenção extraterrestre. “Reação vital”, por exemplo, indica que uma lesão ocorreu em vida, mas é compatível com a possibilidade — admitida na reconstrução de Covo e aventada também por Badan Palhares — de que animais tenham começado a atacar Joaquim enquanto ele estava inconsciente ou agonizante. Ainda assim, a redação do laudo não se harmoniza de forma simples com uma descrição de predação animal e merece ser reconhecida como uma dificuldade documental real, não descartada por força de conclusão editorial.
Covo e Del-Campo argumentaram que dentes incisivos e o consumo gradual de tecidos moles podem produzir bordas mais regulares do que o público normalmente imagina. Um exemplo usado por Covo, entretanto, precisa ser recebido com cautela. Ele citou o musaranho Microsorex hoyi, nome hoje tratado como sinônimo de Sorex hoyi, para ilustrar um movimento de perfuração. No entanto, além de musaranhos não serem roedores, essa espécie é norte-americana e não integra a fauna da Billings. A referência pode servir, no máximo, como analogia geral de comportamento; não identifica o animal responsável pelas lesões nem demonstra como os orifícios específicos foram produzidos.
É fato, no entanto, que a região da Mata Atlântica, onde fica a Represa Billings, é repleta de espécimes de pequenos marsupiais onívoros e oportunistas, geralmente pertencentes à família Didelphidae, tais como cuíca-de-quatro-olhos ou a cuíca-marrom, ou roedores como o rato-d’água.
O chamado “enigma da cueca” também não possui solução experimental conclusiva. A flexibilidade da malha e suas aberturas poderiam ter permitido o acesso de insetos e pequenos animais às regiões genital e anal sem rasgar visivelmente a peça. A preferência de necrófagos por olhos, boca, mucosas e outras partes moles torna a hipótese plausível. Mas afirmar que essa foi necessariamente a sequência ocorrida exigiria evidências que as pesquisas conhecidas não cobrem completamente.
As manchas escuras observadas na face e na mandíbula, atribuídas a uma queimadura de origem desconhecida, deram origem a outra hipótese. Del-Campo aventou que Joaquim poderia ter desmaiado nas proximidades da queda de um raio e talvez ter sido parcialmente atingido por uma descarga elétrica. Não há, porém, demonstração pericial de que ele tenha sido atingido por um raio. Portanto, a possibilidade permanece identificada como conjectura do investigador, não como explicação física estabelecida.

Uma discussão interessante no Fórum do Portal Vigília
As dúvidas também apareceram nos debates do longevo fórum do Portal Vigília. Em um tópico ainda disponível no fórum, participantes questionaram a diferença entre os termos “incisão” e “laceração” no laudo e discutiram a possibilidade de o cadáver ter sofrido alguma intervenção anterior à ação dos animais.
Ao reexaminar as fotografias, porém, um dos administradores, com formação na área da Saúde, comentou que a lesão perineal tinha “toda pinta de laceração animal” e poderia ter servido como porta de entrada para animais necrófagos. O registro é relevante não porque encerre a questão — uma avaliação em fórum não substitui uma perícia —, mas porque documenta uma mudança de julgamento dentro do próprio fórum.
Essa revisão pública é parte da história do caso e também da história editorial do Portal Vigília. Admitir que novas evidências alteram uma avaliação não diminui uma investigação; é justamente o que permite separar a preservação crítica de um mistério da simples defesa de uma crença.
Uma controvérsia dentro da própria Ufologia
A contra-investigação de Covo provocou conflitos na comunidade ufológica. Encarnación acusou o pesquisador de agir de má-fé e de minimizar as anomalias do laudo para impor uma interpretação cética. Alguns participantes dos debates da época entenderam que as críticas ultrapassaram o exame das evidências e se converteram num processo de destruição da reputação da pesquisadora.
Garcia também relatava experiências pessoais que interpretava como contatos e abduções extraterrestres. Esse contexto ajuda a situar sua visão mais ampla do fenômeno, mas não constitui evidência a favor nem contra sua leitura do cadáver de Joaquim. A hipótese que ela propôs deve ser julgada pelos documentos, testemunhos e vestígios disponíveis — não por uma avaliação retrospectiva de sua personalidade ou de seu estado emocional.
Outros episódios brasileiros mostram como a aparência de lesões causadas por animais pode gerar interpretações conflitantes. Em 1995, Olívio Correia foi encontrado vivo e sem os olhos em Estância Velha, no Rio Grande do Sul. O médico Paulo Ricardo Oliveira, que o atendeu, declarou na época que os globos oculares haviam sido retirados de forma cirúrgica, e as investigações chegaram a cogitar até tráfico de órgãos, uma espécie de lenda urbana da época, anos depois, Claudeir Covo relatou que essa avaliação havia sido contestada pelo então presidente do Conselho Regional de Medicina local e que o inquérito policial acabara atribuindo as lesões a predadores naturais.
No caso de Alzira Maria de Jesus, encontrada com mutilações faciais em Santa Isabel, São Paulo, a contra-investigação publicada por Claudeir Covo relata que os médicos responsáveis pelo Laudo nº 473/99 apontaram pneumonia bilateral e choque séptico como causas da morte e atribuíram os danos no rosto à ação de roedores.
As comparações não provam o que ocorreu com Joaquim, mas mostram como lesões de aparência regular podem receber interpretações radicalmente diferentes. Nos dois episódios, explicações convencionais envolvendo animais foram apresentadas posteriormente, embora a documentação primária disponível ao público seja limitada e algumas dessas conclusões tenham permanecido controversas.
O que o caso permite concluir
A investigação de Claudeir Covo tornou-se um marco de autocrítica dentro da ufologia brasileira. Seu principal mérito não foi oferecer uma resposta científica definitiva para cada detalhe, mas recuperar testemunhos ignorados, confrontar a localização errada, consultar profissionais e demonstrar que a ação de animais estava sim diretamente associada ao estado em que o corpo foi encontrado.
O próprio Covo resumiu sua posição metodológica:
“A Ufologia se baseia em fatos, no plural e não em fato, no singular. Se fosse verdade que tripulantes de discos voadores mutilam seres humanos, com certeza teríamos milhares de casos, em todos os países, e isso não acontece.”
— Claudeir Covo, INFA/Revista UFO.
Não há observação de objeto voador associada à morte, testemunha de uma suposta abdução, material anômalo ou qualquer evidência independente de intervenção extraterrestre. Essa associação, aliás, é uma das mais frágeis do caso: foi postulada e reverberada a partir da afirmação vaga de que objetos estranhos eram vistos comumente na região, sem que nenhum testemunho comprobatório fosse apresentado. Em contraste, existem depoimentos de pessoas que viram urubus consumindo o cadáver, registros sobre a presença de roedores e uma reconstrução compatível com o comportamento de animais necrófagos.
O conjunto das evidências hoje disponíveis, portanto, favorece fortemente a ação desses animais e torna desnecessária a hipótese extraterrestre para explicar as mutilações. Permanecem, contudo, pontos obscuros na redação do laudo necroscópico original — sobretudo as referências à reação vital, instrumento cortante e “aspiração” —, além da impossibilidade de reconstituir com segurança a origem de cada lesão. Essas lacunas não sustentam por si mesmas uma explicação extraordinária, mas ajudam a compreender por que o Caso Billings-Guarapiranga continua sendo citado e discutido quase quatro décadas depois.





