Documentário sobre Varginha abala pilares militares e expõe suspeitas de fraudes

Documentário sobre Varginha abala pilares militares e expõe suspeitas de fraudes
Documentário sobre Varginha abala pilares militares e expõe suspeitas de fraudes (ilustração com auxílio de IA)

O desfecho da minissérie documental “Mistério de Varginha”, exibido pela TV Globo na noite de ontem, 8 de janeiro de 2026, provocou um abalo sísmico na estrutura do caso ufológico mais emblemático do Brasil. O episódio final, conforme havia antecipado matéria do Portal Vigília, focou na desconstrução dos depoimentos de militares que, por décadas, serviram como a prova de que o Exército Brasileiro teria capturado seres extraterrestres em 1996. A revelação mais contundente veio por meio de áudios e depoimentos inéditos que sugerem que parte fundamental da narrativa militar teria sido artificialmente construída através de persuasão e promessas financeiras.

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A reportagem conseguiu revisitar depoimentos — novos ou gravados — dos três militares apresentados na pesquisa original do Caso Varginha, com a identidade mantida em sigilo. E um dos pontos centrais da reviravolta envolveu o chamado “1º militar”, um bombeiro já falecido em 2023, cujas gravações foram recuperadas pelo pesquisador da nova geração de investigadores de Varginha, João Marcelo Marques Rios. No áudio de 45 minutos, o militar admite que o relato da captura era, na verdade, um roteiro ficcional. Segundo João Marcelo, o soldado confessou que “aquele áudio ele gravou um enredo, ele foi persuadido e instruído a gravar o que tá naquele áudio”, afirmando categoricamente que “aquela história foi toda inventada e também teve a influência de um ufólogo da época”.

A situação tornou-se ainda mais crítica com o depoimento do 3º militar, que descreveu o processo de criação dos relatos como uma manipulação psicológica de jovens soldados. Ele qualificou as histórias de captura como uma “criação e invenção da cabeça do Vitório Pacaccini”, relatando que era apenas um “moleque” na época e que caiu em uma conversa ensaiada. O depoente detalhou que Pacaccini instruía o que deveria ser dito, oferecendo recompensas que incluíam dinheiro e veículos para aqueles que corroborassem a versão oficial dos ufólogos.

O impacto dessas admissões culminou em uma frase que resume o sentimento de arrependimento e a gravidade da fraude alegada. O terceiro militar, visivelmente afetado, declarou à produção do documentário: “Naquele dia a gente vendeu a alma pro diabo”. Ele afirmou ter recebido ofertas de aproximadamente R$ 5.000,00, um valor considerável para a década de 1990, e que a culpa pelo que fez o acompanhou por toda a vida, reforçando que a operação militar de captura, nos moldes em que foi descrita por anos, simplesmente “não aconteceu”.

Representação em instalação artística da cena do encontro com o ET de Varginha (Foto: Portal Vigília)
Representação em instalação artística da cena do encontro com o ET de Varginha (Foto: Portal Vigília)

A resistência do segundo militar e o ceticismo da nova geração

Destoando do movimento de retração de seus antigos colegas, o segundo militar, manteve a essência do seu relato original, embora com ressalvas importantes. O informante, que serviu na Escola de Sargentos das Armas (EsSA) entre 1994 e 1997, confirmou ter presenciado algo atípico no hospital. Ele descreveu ter visto “uma mesa com um cromado, uma mesa que parece inox” e que nela avistou apenas “os pés e as protuberâncias” de uma criatura, embora a visão tenha durado apenas alguns segundos.

Ele negou ter recebido pagamentos, apesar de admitir que ofertas financeiras foram feitas. O documentário expõe uma contradição direta, uma vez que testemunhas próximas ao militar sugeriram que ele teria tido motivações financeiras para falar com os ufólogos no passado, o que lança uma sombra de dúvida sobre a parcialidade de sua manutenção dos fatos.

A contestação do caso Varginha ganhou reforço com as análises de João Marcelo Marques Rios e do veterano Ubirajara Franco Rodrigues. João Marcelo, que investiga o caso desde 1996 e mantém um canal dedicado ao tema, argumenta que os relatos de captura são tão numerosos e desconexos que “daria para formar dois times de futebol”, evidenciando que os testemunhos foram “unidos e costurados à força” para criar um caso que ele agora vê como um comércio. Para o pesquisador, a ufologia transformou-se em um negócio que vende o mistério, pois “a explicação do mistério não vende”.

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Ubirajara Rodrigues, por sua vez, um dos pioneiros na investigação do caso, reiterou sua visão de que os depoimentos militares foram “induzidos” e “fabricados”. Ele aponta que a fragilidade dos relatos militares coloca em xeque toda a tese do acobertamento institucional. Rodrigues agora defende que a investigação inicial falhou ao não considerar hipóteses mais simples e terrenas, sugerindo que a busca por uma verdade extraterrestre pode ter atropelado a ética metodológica necessária para um evento dessa magnitude.

A veemente defesa de Pacaccini, o apoio de Petit, e a “Nota de Repúdio”

Acusado diretamente de ter manipulado os testemunhos militares, Vitório Pacaccini negou a conduta veementemente. O ufólogo argumentou que sua atuação sempre foi pautada pela proteção das testemunhas, orientando-as a negar os fatos caso se sentissem ameaçadas. Seria essa instrução, inclusive, a causa dos testemunhos conflitantes. “Se amanhã ou depois os senhores, estando ainda inseguros em prestar qualquer depoimento e acharem por bem para proteger a vocês e suas famílias, fiquem à vontade para negar tudo”, teria instruído ele aos militares. Pacaccini enfatizou que sua consciência está tranquila e que os resultados alcançados em sua pesquisa são sólidos e éticos.

A defesa de Pacaccini encontrou eco nas palavras de Marco Antonio Petit, presidente da Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU). Petit qualificou Pacaccini como uma “prova viva” dos riscos que pesquisadores correm ao enfrentar o sigilo militar, numa referência a um suposto atentado sofrido pelo ufólogo no início da investigação. Petit também assegurou que todas as informações coletadas estão embasadas em “testemunhas autênticas”, mantendo a defesa intransigente do legado da pesquisa original.

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Diante das acusações de manipulação e suborno, através de grupos de trocas de mensagens, o ufólogo Vitório Pacaccini emitiu uma forte “Nota de Repúdio”, na qual defende sua honra e a seriedade de seu trabalho de três décadas. Pacaccini declarou de forma “clara, objetiva e categórica” que jamais pagou qualquer valor a testemunhas ou manipulou depoimentos para que dissessem o que ele desejava ouvir. Ele classificou as alegações de pagamento de dinheiro como uma “mentira grotesca e inacreditável”, sugerindo que tais narrativas podem ter sido motivadas pelo medo que os militares ainda sentem de represálias do alto comando do Exército (leia a íntegra ao final da matéria).

“Causa profunda indignação constatar que o produtor do referido documentário tenha optado por dar voz a indivíduos nefastos, já excluídos do meio ufológico brasileiro, que se aproveitaram de maneira oportunista e desonesta da situação para tentar denegrir minha imagem, bem como a de todos aqueles que, com seriedade e coragem, contribuíram para o esclarecimento do Incidente em Varginha”, diz um trecho da nota.

Para Pacaccini e seus aliados, o que está em jogo não é apenas um caso isolado, mas o direito da humanidade de saber que não está sozinha no universo. O ufólogo afirmou que, se fosse hoje, “faria tudo de novo” e não hesitaria em publicar as informações, atribuindo as críticas atuais a “indivíduos nefastos” e ao processo histórico de desinformação.

O fardo das testemunhas civis e o destino do mistério

Apesar do desmoronamento dos relatos militares, o documentário da TV Globo pareceu poupar e até validar o relato original das três meninas — Liliane, Valquíria e Kátia Xavier. Ubirajara Rodrigues destacou a dignidade das testemunhas civis em manter a “autenticidade daquilo que viram tanto na época quanto hoje”, qualificando-as como pessoas extremamente honestas. Diferente dos militares, as garotas não tiveram ganhos financeiros e carregaram o peso do estigma social por trinta anos, o que fortalece a percepção de sua sinceridade.

O impacto psicológico do evento na vida das testemunhas foi detalhado de forma emocionante. Kátia Xavier revelou que a experiência a jogou “lá no fundo” e resultou em quadros de depressão, embora hoje ela tente enxergar o fato como um legado positivo para sua família. O trauma, porém, permanece vivo; ao retornarem ao terreno da aparição, a feição das irmãs Silva mudou drasticamente, revelando que estar naquele local revive emoções dolorosas. “Sempre que vai voltar aqui a gente não vai voltar sorrindo”, desabafou uma delas.

A produção acentuou o sofrimento dessas mulheres, mostrando Kátia pedindo desculpas às amigas por tê-las chamado para ver o ser, reconhecendo que o evento “atrapalhou a vida delas”. Essa defesa da honestidade civil, em contraste com a desintegração das provas militares, sugere que o mistério de Varginha migrou de uma questão de segurança nacional para um drama humano profundo. A cidade, enquanto isso, abraçou o ET como patrimônio imaterial, transformando o trauma das meninas em um motor turístico e cultural que ignora as polêmicas técnicas da ufologia.

Vista externa do Memorial do ET, em Varginha, lembrando um "disco voador" (foto: Divulgação/PMV)
Vista externa do Memorial do ET, em Varginha, lembrando um “disco voador” (foto: Divulgação/PMV)

O desfecho do documentário aponta para um impasse permanente. Enquanto a ufologia tradicional, representada por Pacaccini e Petit, aguarda a abertura de documentos secretos do governo, a nova geração e o primeiro investigador do caso focam na desconstrução do mito criado nos anos 1990. O Caso Varginha parece condenado a existir em uma zona cinzenta. Mas diferentemente de qualquer produção ufológica “raiz” já feita, o fato é que a minissérie global conseguiu chacoalhar o cenário, apontar publicamente muitas correntes de pesquisa que antes estavam relegadas a nichos, fóruns de discussão e bastidores. Um material polêmico, profundo, investigativo, expondo posições favoráveis e contrárias, digno de 30 anos de um dos maiores casos ufológicos do Brasil.

A íntegra da Nota de Repúdio emitida por Vitório Pacaccini

NOTA DE REPÚDIO

Eu, Vitório Pacaccini, venho a público manifestar meu mais veemente e absoluto repúdio à mentira levianamente propagada no documentário exibido pela Rede Globo – pertinente á nossa Pesquisa em Varginha, no qual, de forma irresponsável e jamais imaginada por mim ou pela comunidade ufológica brasileira, tentou-se imputar à minha pessoa a falsa acusação de que eu teria oferecido ou pago valores a militares para que prestassem depoimentos orientados ou direcionados no âmbito da Pesquisa do Incidente em Varginha.

Declaro, de forma clara, objetiva e categórica, que jamais paguei um centavo a quem quer que seja, muito menos induzi, orientei ou manipulei qualquer testemunha a dizer aquilo que eu desejava ouvir. Tal acusação é inteiramente falsa, absurda e desprovida de qualquer lastro na realidade, configurando grave ofensa à minha honra, à minha trajetória e à seriedade do trabalho desenvolvido ao longo de três décadas.

Ressalto, ainda, que sempre deixei absolutamente claro, desde o primeiro contato com testemunhas e seus familiares, que a segurança física, emocional e institucional de todos era prioridade. Por esse motivo, sempre orientei que, caso em algum momento se sentissem ameaçados, coagidos ou em situação de risco, poderiam negar ou silenciar sobre informações anteriormente prestadas, sem que isso jamais resultasse em qualquer recriminação por parte minha ou de meus colegas de pesquisa.

Causa profunda indignação constatar que o produtor do referido documentário tenha optado por dar voz a indivíduos nefastos, já excluídos do meio ufológico brasileiro, que se aproveitaram de maneira oportunista e desonesta da situação para tentar denegrir minha imagem, bem como a de todos aqueles que, com seriedade e coragem, contribuíram para o esclarecimento do Incidente em Varginha.

A alegação feita por um ex-militar, de que eu teria oferecido “muito dinheiro” por seu depoimento, é uma mentira grotesca e inacreditável, a qual tenho absoluta convicção de que não seria sustentada diante de mim, “frente a frente”. É plausível que tal narrativa tenha sido motivada por instigação de terceiros de má-fé, responsáveis por indicá-lo à produção do documentário, bem como pelo receio de eventuais responsabilizações legais por parte do alto comando do exército brasileiro, mesmo décadas após os fatos, levando-o a tentar forjar uma defesa tão frágil quanto mentirosa.

– Meus colegas de pesquisa sabem com riqueza de detalhes, que ninguém, dentro do âmbito de nossa Pesquisa em Varginha, jamais foi pago para prestar qualquer depoimento. E eu cito estes nobres colegas com muita honradez e agradecimento: Marco Petit e Edson Boaventura. Se Claudeir Covo e Gevaerd estivessem ainda entre nós, iriam também corroborar com o que estou afirmando.

Reitero que o Incidente em Varginha sempre foi investigado com postura ética, respeito absoluto às testemunhas e rigor metodológico, o que explica, inclusive, os resultados sólidos alcançados ao longo dos anos, permitindo o esclarecimento de grande parte das operações militares realizadas na cidade de Varginha, que culminaram na captura de seres não humanos.

Por fim, afirmo que minha consciência permanece absolutamente tranquila. Eu e meus honrados colegas de pesquisa seguiremos firmes, sem medo da verdade, convictos de que ela resiste ao tempo, às tentativas de distorção e às narrativas construídas na base da má-fé.

Sendo o que se apresenta para o momento.

Sou, atenciosamente,

Vitório Pacaccini

Jeferson Martinho

Jornalista, o autor é empresário de comunicação, dono de agência de marketing digital e assessoria de imprensa, publisher de um portal de notícias regionais na Grande São Paulo, fundador e editor do Portal Vigília. Apaixonado por Ufologia de um ponto de vista científico, é autor do livro "Nem Todo OVNI é Extraterrestre - Um guia para entusiastas da ufologia que não querem ser iludidos", disponível na Amazon.

2 comentários sobre “Documentário sobre Varginha abala pilares militares e expõe suspeitas de fraudes

  1. Muito crível o Ubirajara… O cara não consegue inventar uma desculpa melhor do que “o que elas avistaram foi o Mudinho”… Absurdo! O documentário deixa a desejar no quesito credibilidade. Não mostra todas as mentiras dos militares. Aliás, dá voz aos militares, que mentem mais uma vez, tentando descridibilizar os ufólogos. O Pacaccini pode ser espalhafatoso e sensacionalista, mas ele sempre disse a verdade. O Petit é íntegro e sério. Já o Ubirajara, deve ter sido muito bem pago, pra mudar de opinião e voltar à tese esdrúxula do Mudinho. Do João Marcelo é melhor nem falar nada, insignificante pra ufologia.

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