O Departamento de Guerra dos Estados Unidos publicou nesta sexta-feira (18) a sexta leva de documentos relacionados a fenômenos anômalos não identificados (UAP), acrescentando 71 registros ao sistema PURSUE, criado pelo governo norte-americano em maio para concentrar a divulgação desse tipo de material.
O novo lote reúne 55 documentos em PDF, 15 vídeos e um arquivo de áudio. Segundo o próprio catálogo, 67 registros vieram do Departamento de Guerra e quatro foram enviados por uma força policial local do Colorado. Sessenta e quatro dos 71 arquivos apresentam algum tipo de redação ou supressão de informação.
Mas, desta vez, o maior volume não está nos vídeos de objetos não identificados.
Dos 71 registros, 44 estão associados ao Advanced Aerospace Weapon System Applications Program (AAWSAP), programa da Defense Intelligence Agency (DIA) criado em 2008 e encerrado em 2012. Destes, 37 são os chamados Defense Intelligence Reference Documents, ou DIRDs — estudos técnicos encomendados sobre tecnologias aeroespaciais avançadas.
A lista é capaz de produzir manchetes por conta própria: há estudos sobre warp drive (“dobra espacial”), wormholes (buracos de minhoca) atravessáveis, energia negativa, propulsão por massa negativa, antigravidade, extração de energia do vácuo quântico, engenharia da métrica do espaço-tempo, invisibilidade e ondas gravitacionais de alta frequência. Mas aparecem também temas bem menos extravagantes, como materiais metálicos, spintrônica, lasers de alta energia, biossensores, propulsão nuclear e detecção de veículos hipersônicos. O conjunto, portanto, é consideravelmente mais amplo do que uma coleção de pesquisas sobre tecnologias supostamente “alienígenas”.
Vídeo do arquivo DOW-UAP-PR143, Relatório de UAP Não Resolvido, Mar Amarelo, 2023 (Reprodução – Pursue)
O que o AAWSAP realmente estudava
A própria documentação incluída na liberação ajuda a colocar os estudos em perspectiva.
O documento que define os objetivos do AAWSAP descreve um programa voltado à investigação de tecnologias aeroespaciais potencialmente disruptivas e de ameaças estrangeiras projetadas até aproximadamente 2050. Em outras palavras, o fato de a DIA ter pago pela análise de uma hipótese física não significa que o governo tivesse evidências de que determinada tecnologia existia — muito menos de que estivesse sendo utilizada por objetos extraterrestres.
Essa distinção é especialmente necessária diante de títulos como Warp Drive, Dark Energy and the Manipulation of Extra Dimensions ou Traversable Wormholes, Stargates and Negative Energy.
Alguns desses DIRDs, inclusive, não são inéditos. Documentos do programa já haviam sido disponibilizados anteriormente pela própria DIA por meio de pedidos amparados pela Freedom of Information Act (FOIA), fato imediatamente observado por usuários que começaram a examinar o novo lote no Reddit.
A novidade documental mais interessante está no modo como eles aparecem agora reunidos.
Os registros DOW-UAP-D110 a DOW-UAP-D153 formam uma sequência contínua de 44 documentos do AAWSAP: primeiro o Statement of Objectives, depois o contrato e suas modificações e, por fim, os 37 estudos técnicos. O conjunto permite enxergar parte da estrutura administrativa e da cadência de produção do programa, e não apenas uma coleção avulsa de papers com títulos exóticos.
Os metadados mostram inclusive uma concentração incomum de entregas: 21 dos 37 DIRDs são datados apenas de março e abril de 2010, pouco depois de uma modificação contratual de fevereiro daquele ano registrar a disponibilização de recursos para o programa.
Isso não demonstra qualquer relação causal entre financiamento e cada relatório, mas permite reconstruir uma sequência documental que não fica tão evidente quando os estudos são examinados isoladamente.
Também é exagerado chamar o conjunto de “AAWSAP completo”. O programa permaneceu ativo até 2012, enquanto os DIRDs publicados nesta leva terminam em janeiro de 2011 e os documentos contratuais incluídos não cobrem todo o período conhecido de funcionamento.

Nenhum cadáver alienígena apareceu
A liberação também ajuda a colocar no devido lugar uma expectativa que ganhou vida própria em comunidades dedicadas ao tema.
Nos dias anteriores ao novo lote, discussões sobre a chamada “disclosure” continuavam misturando futuras liberações governamentais com alegações de posse de naves recuperadas e de “material biológico não humano”. No Reddit, por exemplo, publicações retomavam declarações de David Grusch e tratavam a suposta existência de veículos e material biológico como parte das informações que o governo eventualmente teria de revelar.
Nada no sexto lote entregue nesta sexta-feira corresponde a essas expectativas.
Não há corpos, amostras biológicas de origem desconhecida, relatórios de autópsia de seres não humanos nem documentação de recuperação de extraterrestres.
Há, entre os DIRDs, um estudo intitulado Anomalous Acute and Subacute Field Effects on Human Biological Tissues. Mas o título não transforma o documento em evidência da existência de seres não humanos nem autoriza concluir, somente pelos metadados, que os efeitos analisados foram produzidos por UAP. A associação automática entre “biológico” e “biologia alienígena” é um salto interpretativo para o qual o catálogo divulgado não oferece sustentação.
Para surpresa de nenhuma mente particularmente crítica, portanto, a expectativa de uma revelação desse tipo mostrou-se apenas isso: expectativa.
Comunidade se divide entre documento histórico e “decepção”
A reação nas primeiras horas após a publicação ilustra bem um problema recorrente no debate sobre UAP: a diferença entre valor documental e expectativa de revelação extraordinária.
No principal tópico dedicado ao lote no subreddit r/UFOs, alguns usuários destacaram justamente os DIRDs e a incorporação formal desses documentos ao novo arquivo governamental. Outros observaram que boa parte deles já estava disponível havia anos e criticaram o governo por reapresentá-los como parte de um novo esforço de transparência. Houve também comentários classificando o lote como decepcionante por não trazer casos como Phoenix Lights, Rendlesham ou registros considerados mais convincentes pela comunidade.
Em outro fórum dedicado ao assunto, usuários reagiram de forma mais positiva, argumentando que releases desse tipo não constituem uma “disclosure” completa, mas continuam acrescentando documentação histórica útil.
A própria divulgação dos DIRDs produz interpretações opostas. Para alguns participantes, o simples fato de o governo norte-americano ter financiado estudos sobre temas como wormholes e warp drives seria uma forma de “disclosure”. Para outros, eles mostram apenas que uma agência de inteligência financiou pesquisas especulativas — algo substancialmente diferente de demonstrar que tais tecnologias foram observadas em funcionamento.
A gravação de Ruppelt finalmente aparece
Outro arquivo que vinha cercado de expectativa é uma gravação de março de 1952 de uma apresentação do então capitão Edward J. Ruppelt, figura central nos primeiros anos da investigação de discos voadores pela Força Aérea norte-americana.
Na véspera da liberação, o deputado republicano Eric Burlison comemorou nas redes sociais a confirmação de que o áudio identificado como uma “flying saucer talk” havia sido digitalizado e desclassificado. A gravação e sua transcrição aparecem agora no catálogo como DOW-UAP-PR160 e DOW-UAP-D154.
No áudio, Ruppelt descreve o trabalho de investigação realizado pela Força Aérea e reconhece que uma parcela das ocorrências estudadas permanecia sem explicação. A CBS destacou que ele estimava em aproximadamente 20% a proporção de bons relatos para os quais os investigadores não conseguiam chegar a uma conclusão.
A gravação rapidamente se tornou um dos itens mais comentados do lote. Um tópico dedicado exclusivamente ao áudio no Reddit reuniu interpretações de que a fala mostraria como, já em 1952, investigadores militares levavam parte dos casos a sério.
Isso, porém, é bastante diferente de demonstrar programas secretos de recuperação de naves.
Entre as próprias reações ao anúncio de Burlison apareceu justamente a leitura oposta: se os responsáveis pela investigação ainda discutiam fotografias, observações visuais, velocidade estimada e ausência de correlação por radar, seria difícil usar aquela gravação como prova de que a Força Aérea já possuía tecnologia não humana recuperada.
Tremonton reaparece — com a ambiguidade original
O release inclui ainda material do famoso caso de Tremonton, Utah, filmado em 1952 pelo oficial da Marinha Delbert Newhouse.
A digitalização do filme original integra um conjunto de documentos históricos no qual a própria avaliação da Força Aérea mudou com o tempo. Os metadados descrevem hipóteses que passaram por balões, miragens e aves, com análises posteriores favorecendo a interpretação de aves marinhas refletindo luz solar.
Ao mesmo tempo, a qualidade da película não permitia determinar com confiança distância, tamanho, altitude ou velocidade linear dos objetos.
Trata-se, portanto, de um bom exemplo de como um arquivo histórico pode continuar interessante sem precisar ser convertido retroativamente em prova de uma nave extraterrestre.
Há vídeos novos — e novos avisos para não confiar demais no vídeo
Entre os registros modernos aparecem ainda vídeos encaminhados pelo CENTCOM e pelo Indo-Pacific Command, incluindo ocorrências no Oriente Médio, Iraque, Yellow Sea e East China Sea.
Também aparecem pela primeira vez no catálogo quatro arquivos identificados como provenientes de Local Law Enforcement, gravados com telefone celular por um policial no Colorado.
O detalhe curioso é que a própria AARO acompanha esses vídeos de uma advertência sobre os limites das imagens: autofocus, processamento digital, estabilização e ampliação podem produzir aparência enganosa de forma, movimento e estrutura.
Em um deles há ainda uma inconsistência nos próprios metadados: título e campo de data apontam para outubro de 2023, enquanto a descrição menciona janeiro de 2024. O catálogo, portanto, também precisa ser tratado como aquilo que é — uma base administrativa produzida por humanos, e não uma escritura infalível.
O que o sexto lote realmente acrescenta
A sexta liberação provavelmente frustrará quem esperava finalmente encontrar fotografias de corpos, hangares com discos voadores ou laudos laboratoriais de “biologia não humana”.
Mas essa talvez seja uma régua pouco útil para avaliar o material.
O aspecto mais relevante deste lote é documental: pela primeira vez dentro do PURSUE surge um bloco praticamente contínuo mostrando como um programa de inteligência foi definido, contratado e alimentado com dezenas de estudos sobre tecnologias aeroespaciais avançadas, ao mesmo tempo em que o sistema incorpora novos registros militares, material policial e arquivos históricos clássicos.
O lote tampouco demonstra que warp drives funcionam, que wormholes foram encontrados ou que alguém recuperou naves extraterrestres.
Mostra algo menos cinematográfico e, justamente por isso, mais verificável: o governo norte-americano efetivamente gastou recursos para estudar uma variedade extraordinariamente ampla de tecnologias possíveis — algumas convencionais, outras bastante especulativas — enquanto suas diferentes estruturas continuavam acumulando relatos de objetos que nem sempre conseguiam identificar.
Entre isso e os cadáveres alienígenas existe uma distância considerável.
E nenhum dos 71 arquivos publicados nesta sexta-feira conseguiu encurtá-la.


