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Fim do tabu? Pentágono transforma a caçada aos UAPs em doutrina científica e militar

O Pentágono e a Escola de Pós-Graduação Naval dos EUA transformam a investigação de UAPs em doutrina militar e científica rigorosa, deixando o estigma no passado para focar na segurança de domínio e na análise de dados brutos de sensores.

Conceituada revista técnica da Marinha norte-americana mostra que UAPs são preocupação no campo de batalha moderno (imagem - montagem Gemini)

Conceituada revista técnica da Marinha norte-americana mostra que UAPs são preocupação no campo de batalha moderno (imagem - montagem Gemini)

Na primavera de 2026, a Escola de Pós-Graduação Naval dos EUA (NPS), em uma parceria inédita com o Escritório de Resolução de Anomalias em Todos os Domínios (AARO) do Departamento de Defesa, lançou uma edição especial histórica da revista militar Combating Threats Exchange (CTX). Totalmente dedicada aos Fenômenos Anômalos Não Identificados (UAPs), a publicação decreta o fim de décadas de marginalização e estigma, elevando o tema à categoria de prioridade máxima de conscientização de domínio e segurança nacional.

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O documento não apenas reconhece a existência de objetos que desafiam a compreensão tecnológica atual, mas estabelece um arcabouço rigoroso para que militares, cientistas e até civis documentem essas anomalias com precisão forense.

Para as Forças Armadas dos EUA, a questão central não é o contato extraterrestre, mas a vulnerabilidade operacional. O vice-reitor de pesquisa e inovação da NPS, Dr. Michael Hesse, adverte na publicação que anomalias não resolvidas podem obscurecer limitações de radares, mascarar tecnologias emergentes de adversários e introduzir riscos inaceitáveis. “A surpresa estratégica frequentemente explora a ambiguidade. Apenas uma abordagem sistemática pode reduzi-la”, pontua Hesse.

Reprodução da Capa da CTX - Escola de Pós-Graduação Naval dos EUA (NPS)
Reprodução da Capa da CTX – Escola de Pós-Graduação Naval dos EUA (NPS)

Em uma extensa entrevista, o diretor do AARO, Dr. Jon T. Kosloski, revela que o maior desafio do Pentágono não é a ausência de avistamentos, mas a “falta de dados de alta qualidade”. Ele explica que, embora os sensores militares dos EUA sejam os melhores do mundo para suas missões específicas, eles não são instrumentos científicos de uso geral. Isso resulta em resoluções inconclusivas e medições imprecisas de tamanho e velocidade. Kosloski enfatiza que o governo americano leva os UAPs a sério e encoraja o relato livre de estigmas, afirmando que “não podemos ter ‘desconhecidos’ operando em nosso espaço aéreo, ou em qualquer domínio”.

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A ciência por trás da caçada: dados brutos vs. deduções

A revista ataca diretamente o amadorismo que historicamente permeou a ufologia. O Dr. Randy Bostick, ex-conselheiro científico do AARO, assina um artigo dissecando a diferença fundamental entre dados reais e suposições. Segundo Bostick, afirmações como “tinha um campo de plasma” ou “exibia propulsão avançada” não são dados, mas interpretações precipitadas que afastam a comunidade científica.

A verdadeira coleta de dados de UAPs deve se restringir ao que os instrumentos medem fisicamente:

  • Sistemas Eletro-ópticos: Medem irradiância (potência incidente por pixel), tempo e posição no plano da imagem.
  • Radares: Medem tempo de transmissão/chegada de pulso, desvio de frequência (Doppler), direção e potência recebida.

Cálculos de velocidade, aceleração ou temperatura são derivados dessas medições brutas e exigem metadados perfeitos e triangulação com múltiplos sensores para evitar erros de paralaxe (ilusões de ótica causadas pelo movimento da câmera).

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AARO, do Pentágono, tem novo diretor
AARO, do Pentágono, foi parceiro da Marinha na produção do material técnico sobre UAPs

Revolução tecnológica: Sensores Baseados em Eventos (EBS)

Um dos pontos mais profundos da edição é a introdução do uso de Sensores Baseados em Eventos (EBS) para monitoramento do espaço aéreo. Pesquisadores dos Laboratórios Nacionais Sandia detalham como as câmeras convencionais são ineficientes para caçar UAPs por gerarem dados redundantes de cenários estáticos (como o céu vazio), exigindo muita energia e banda.

Os EBS funcionam de maneira radicalmente diferente:

  • Resposta Assíncrona: Cada pixel atua de forma independente, registrando apenas mudanças na intensidade da luz com tempos de resposta de 100 microssegundos.
  • Desempenho Extremo: Eles conseguem registrar o voo de objetos de alta velocidade mesmo com o sol diretamente no campo de visão, graças ao alcance dinâmico superior a 120 decibéis.
  • Identificação Algorítmica: O sistema WATCHER, desenvolvido para processar esses dados, consegue isolar assinaturas únicas. Ele diferencia as frequências periódicas dos rotores de um drone invisível a olho nu do movimento linear e constante do corpo da aeronave ou de artefatos biológicos, como pássaros e insetos.

O laboratório da guerra: UAPs nos céus da Ucrânia

A teoria militar apresentada pelo Pentágono encontra validação brutal nos campos de batalha da Ucrânia. Um relatório assinado pelos pesquisadores ucranianos Dr. Artem Bilyk e Dr. Kyrylo Nikolaiev revela como a saturação do espaço aéreo por sistemas de monitoramento criou um laboratório em tempo real para a observação de UAPs.

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Com milhares de drones, radares e câmeras térmicas apontados para o céu, os militares ucranianos registraram objetos que desafiam a aerodinâmica de qualquer arma russa ou ocidental. A revista cataloga alguns casos impressionantes onde estariam registrados:

  • Invisibilidade Seletiva: Em dezembro de 2024, um drone militar Mavic 3T registrou uma formação de cinco UAPs esféricos. Os objetos eram nitidamente visíveis na câmera térmica infravermelha, mas completamente invisíveis para a lente convencional gravando simultaneamente.
  • Velocidades Extremas: Drones Bayraktar teriam filmado objetos em formato de charuto operando quase verticalmente, com tamanhos inferiores a um metro, viajando a impressionantes 250 metros por segundo (900 km/h) sem qualquer sinal de propulsão térmica ou exaustão.

Para os ucranianos, a identificação exata é uma questão de sobrevivência: confundir um UAP com um drone kamikaze russo pode resultar em fogo amigo ou no desperdício letal de escassos mísseis de defesa antiaérea.

Drone ucraniano registra fenômeno anômalo em zona de guerra (reprodução)
Drone ucraniano registra fenômeno anômalo em zona de guerra (reprodução)

O guia forense para o observador comum

Reconhecendo que a grande maioria dos registros continuará vindo de civis e militares com celulares e câmeras comuns, a revista traz um manual técnico rigoroso escrito por J. Kevin Ryan, ex-agente especial da Força Aérea. A diretriz é transformar o observador em uma plataforma de sensores estática e confiável.

As regras forenses de engajamento fotográfico estipuladas são:

  • Morte ao Automático: Evitar modos computacionais e focar no travamento manual do foco no infinito (Infinity Lock).
  • Formatos Intocados: Gravar apenas em formatos não processados (RAW, DNG) ou vídeos de alta taxa de bits (MOV/MP4 All-I) para evitar que os algoritmos de compressão “apaguem” um objeto distante achando que é ruído digital.
  • Cadeia de Custódia: Gerar um hash criptográfico (como SHA-256) imediatamente após a captura, garantindo que o arquivo digital não foi adulterado.
  • Guerra contra o Zoom: O uso de zoom digital é estritamente proibido pelas diretrizes do guia, pois ele apenas corta e estica a imagem, destruindo a resolução espacial sem adicionar nenhum dado óptico real.

A abordagem militar numa perspectiva histórica

A evolução da abordagem militar sobre os fenômenos anômalos, descrita na edição de 2026 da revista CTX, cristaliza um distanciamento radical das práticas do século XX, partindo da chamada Era da Negação (1947–1969). Nesse período inicial, a Força Aérea dos EUA gerenciou programas como os projetos Sign e Blue Book, que sofriam com a falta de instrumentação técnica e dependiam de relatos vagos de observadores sem preparo, o que gerou um acervo mais voltado à ficção científica do que à ciência militar. Esforços de arquivamento, exemplificados pelo controverso Relatório Condon, serviram como pretexto para encerrar investigações oficiais sob o argumento de que tais objetos não possuíam valor científico ou representavam risco à segurança.

Essa trajetória de arquivamento encontrou um ponto de inflexão em esforços independentes, como o Relatório COMETA francês de 1999, que, embora fora do escopo direto das publicações americanas da época, aplicou um escrutínio tático rigoroso e concluiu que hipóteses de tecnologias de origem não humana eram válidas, apesar de ter permanecido como um estudo isolado sem endosso estatal contínuo.

Atualmente, o cenário foi transformado pela Nova Doutrina estabelecida pelo AARO e pela Escola de Pós-Graduação Naval (NPS), que adota uma natureza de “todo o governo” (whole-of-government). Com autoridade congressional e acesso profundo a programas classificados, a mudança o termo UFO (OVNI) para UAP buscou purgar o tema de conotações populares e estigmas, inserindo-o formalmente na doutrina de Defesa.

Como evidenciado na publicação da Escola Naval, nos setores operacionais e centros de formação da Defesa, aparentemente a prioridade atual não é mais arquivar ou desmentir, mas sim medir, quantificar e antecipar as anomalias por meio de sensores calibrados e rigor científico para garantir a conscientização de domínio e evitar surpresas estratégicas.

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Jeferson Martinho

Jornalista, o autor é empresário de comunicação, dono de agência de marketing digital e assessoria de imprensa, publisher de um portal de notícias regionais na Grande São Paulo, fundador e editor do Portal Vigília. Apaixonado por Ufologia de um ponto de vista científico, é autor do livro "Nem Todo OVNI é Extraterrestre - Um guia para entusiastas da ufologia que não querem ser iludidos", disponível na Amazon.

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