Missão japonesa pretende recolher amostras da lua marciana e trazê-las à Terra em 2031. O destino da espaçonave também é conhecido por dois antigos enigmas da Ufologia: um suposto monólito de quase 90 metros e a hipótese de que Fobos seria oco.
O Japão lançou, em 20 de outubro, uma ambiciosa missão espacial destinada a investigar um dos enigmas mais antigos da astronomia planetária: a origem de Fobos e Deimos, as duas pequenas luas de Marte. A missão MMX (Exploração das Luas Marcianas), conduzida pela Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), pretende realizar algo inédito: recolher material da superfície de Fobos e transportá-lo até laboratórios terrestres.
A espaçonave partiu do Centro Espacial de Tanegashima, no Japão, a bordo de um foguete H3. Sua chegada às proximidades de Marte está prevista para agosto de 2027, dando início a uma longa etapa de observações e preparação para a coleta de amostras. Se tudo ocorrer conforme o planejado, o material deverá chegar à Terra em 2031.
O principal objetivo é descobrir se Fobos e Deimos são antigos asteroides capturados pela gravidade marciana ou se nasceram dos destroços de uma colisão gigantesca entre Marte e outro corpo celeste, bilhões de anos atrás.
Mas Fobos também ocupa um lugar especial na história da Ufologia. Sua aparência irregular, características físicas incomuns e imagens de uma formação aparentemente monumental alimentaram, durante décadas, especulações sobre uma possível origem artificial.
O misterioso monólito de Fobos
Uma das imagens mais conhecidas de Fobos foi obtida pela sonda norte-americana Mars Global Surveyor, em setembro de 1998. A fotografia revela uma grande formação rochosa isolada na superfície, que ganhou notoriedade na internet como o monólito de Fobos.

O objeto, frequentemente descrito como uma estrutura vertical de aproximadamente 90 metros, apresenta uma aparência intrigante nas imagens, especialmente pela sombra que projeta sobre o terreno ao redor.
A formação ganhou ainda mais popularidade em 2009, quando o astronauta Buzz Aldrin, segundo homem a pisar na Lua, mencionou publicamente a existência de um monólito em Fobos durante uma entrevista televisiva. A declaração passou a circular entre entusiastas de OVNIs como uma possível referência a uma construção extraterrestre.
Entretanto, a interpretação científica é bastante diferente. A própria NASA publicou imagens de grandes blocos rochosos na superfície de Fobos, incluindo um com aproximadamente 85 metros de diâmetro, possivelmente lançado a distância pelo impacto que formou a enorme cratera Stickney.
A medida divulgada pela agência se refere à dimensão do bloco, não necessariamente à sua altura. Também não há evidências de que a formação tenha sido esculpida ou posicionada artificialmente.
Ainda assim, a possibilidade de obter imagens muito mais detalhadas da superfície, durante a missão MMX, poderá ajudar a compreender melhor essas formações e os processos geológicos responsáveis por sua presença.
Fobos seria uma lua oca?
O segundo mistério tem raízes ainda mais antigas, anteriores à própria exploração espacial de Marte. No final da década de 1950, o astrofísico soviético Iosif Shklovsky estudou anomalias então atribuídas ao movimento orbital de Fobos. A partir dos dados disponíveis, ele considerou a possibilidade de que a lua apresentasse uma densidade extremamente baixa, chegando a propor, como hipótese, que poderia ser uma estrutura oca de origem artificial.
A ideia ganhou repercussão durante a Guerra Fria e acabou incorporada à literatura ufológica, na qual Fobos passou a ser descrito, em algumas interpretações, como uma gigantesca estação espacial construída por uma civilização desconhecida.
Posteriormente, novas observações demonstraram que as estimativas utilizadas por Shklovsky continham erros. A aproximação gradual de Fobos em direção a Marte pode ser explicada principalmente pelas interações gravitacionais e forças de maré entre os dois corpos, sem necessidade de recorrer a uma origem artificial. Entretanto, a baixa densidade de Fobos é real.
Dados obtidos pela missão europeia Mars Express indicam uma densidade média próxima de 1,85 a 1,9 grama por centímetro cúbico, inferior à de muitas rochas compactas. Segundo a Agência Espacial Europeia (ESA), isso sugere que aproximadamente 25% a 35% do volume da lua possa corresponder a espaços vazios.
A explicação mais aceita é que Fobos seja um agregado de fragmentos rochosos mantidos unidos pela gravidade, com poros e cavidades distribuídos em seu interior, e não um corpo inteiramente sólido.
Isso não equivale à existência de uma gigantesca câmara interna, muito menos de uma estrutura artificial. Mas a distribuição desses vazios e a composição do satélite continuam sendo questões importantes para compreender sua formação.
Uma investigação sem precedentes
A missão japonesa prevê dois pousos controlados em Fobos, com o objetivo de recolher pelo menos 10 gramas de material de sua superfície.
Antes disso, um pequeno veículo explorador chamado Idefix, desenvolvido por instituições da França e da Alemanha, deverá percorrer parte do terreno, examinando suas propriedades físicas.
A espaçonave também utilizará instrumentos científicos para estudar a composição, a topografia, a gravidade e a estrutura interna de Fobos, além de realizar observações de Deimos e do próprio Marte.
Outra possibilidade particularmente interessante é que o solo de Fobos contenha fragmentos de rochas originalmente provenientes de Marte, lançados ao espaço por antigos impactos de asteroides e posteriormente depositados na superfície da lua.
Caso esses materiais sejam identificados, os pesquisadores poderão estudar indiretamente partes da história geológica marciana sem precisar recolher rochas diretamente do planeta.
A missão conta com colaboração da NASA e da ESA e representa uma nova etapa da exploração planetária japonesa, aproveitando a experiência adquirida com a Hayabusa2, que trouxe amostras do asteroide Ryugu à Terra.
A MMX não foi concebida para investigar estruturas extraterrestres ou possíveis artefatos tecnológicos, e não há evidências científicas de que Fobos tenha origem artificial. Entretanto, seus instrumentos poderão fornecer observações muito mais precisas sobre características que, durante décadas, alimentaram interpretações extraordinárias.
Se bem-sucedida, a missão poderá esclarecer não apenas a origem das luas de Marte, mas também oferecer uma compreensão inédita da estrutura e da história de Fobos. E, nesse processo, acrescentar novos dados científicos a dois dos mistérios mais persistentes da Ufologia planetária.

