Novo vídeo de drone na Síria expõe dúvidas sobre natureza de UAPs

Em 2021, uma plataforma de vigilância por drone da Força Aérea dos Estados Unidos, operando a partir do norte da Jordânia, capturou imagens em infravermelho de um Fenômeno Anômalo Não Identificado (UAP) sobre o território da Síria. O material, recentemente vazado pelos jornalistas George Knapp e Jeremy Corbell, apresenta um objeto que, segundo as descrições originais, demonstra mudanças bruscas de direção, aceleração instantânea e o que parece ser um controle inteligente de navegação,. O registro foi efetuado no modo termográfico “black hot”, onde tons escuros indicam calor, revelando que o objeto em questão se apresentava como um ponto branco, ou seja, uma assinatura fria sem formas visíveis de propulsão tradicional ou exaustão térmica.
A divulgação desse material faz parte de uma estratégia de pressão por transparência governamental, justificando-se pelo fato de os sensores militares terem travado a mira em um alvo que desafiava as capacidades de aeronaves convencionais na região. O vídeo é composto por dois segmentos distintos: no primeiro, o drone e o objeto movem-se em direções opostas até que o contato visual é perdido; no segundo, o UAP parece inverter sua trajetória em uma possível reação à presença da aeronave rastreadora. Diferentemente de vazamentos anteriores, que foram rapidamente contestados, este caso específico trouxe uma componente de dúvida técnica mais profunda, pois mesmo analistas criteriosos admitem que há elementos de difícil explicação imediata no comportamento do objeto.
O interesse sobre o caso da Síria reside na combinação de dados de telemetria e o comportamento dinâmico capturado pelos sensores do MQ-9 Reaper. Corbell e Knapp afirmam que a autenticidade é “inquestionável” por se tratar de uma filmagem militar legítima, o que permite documentar a fonte e o contexto operacional da captura. Para os proponentes da abertura de arquivos, este vídeo é uma evidência de tecnologias cujas “origens, intenções e capacidades permanecem desconhecidas pelas autoridades governamentais”. Contudo, a análise objetiva exige que se separe o entusiasmo jornalístico das limitações técnicas inerentes aos sensores de calor utilizados em zonas de conflito.
O monitoramento constante do Oriente Médio, uma área saturada de sensores e tráfego aéreo hostil, torna qualquer incursão não identificada uma questão de segurança nacional. Mas à medida em que os vídeos vazados via Corbell e Knapp são escrutinados a fundo, cada vez mais se aproximam das explicações prosaicas dos vídeos liberados oficialmente através do AARO (o All domain Anomalous Research Office, o escritório do Departamento de Defesa para análise de OVNIs).
Esse não parece ser o caso específico do vídeo sobre a Síria onde, conforme brinca Uesu, o objeto “deu um baile” nos norte-americanos.
A decodificação das informações dos sensores
O pesquisador Jorge Uesu, através de seu canal “OVNIs e Mistérios em Geral”, fez uma técnica de análise detalhada para decifrar as informações numéricas presentes na interface do drone, já que a imagem do objeto em si mostra pouca informação útil. Sua abordagem consistiu em cruzar os dados de coordenadas, tempo e modos de visualização para extrair conclusões que vão além da observação visual subjetiva.
No caso da Síria, Uesu identificou que o vídeo foi gravado em infravermelho e que o objeto, por ser branco no modo “black hot”, é efetivamente frio, o que elimina a hipótese de motores de combustão interna. Ele também notou que a marcação de “5 metros” que aparece na tela refere-se à área relativa ao terreno ao fundo, e não ao tamanho real do objeto, que poderia consideravelmente menor se estivesse próximo da lente. Essa distância, no entanto, é impossível determinar com precisão.
Por isso, para estimar a velocidade do UAP, Uesu calculou dois cenários: se o objeto estivesse próximo ao solo, sua velocidade chegaria a impressionantes 1.040 km/h. Mas se estivesse mais próximo do drone, na região da fronteira, a velocidade seria de cerca de 568 km/h. Apesar da variação, 500 km/h ainda seria uma marca notável de velocidade para um objeto sem propulsão visível.
A técnica de Uesu também envolveu a análise de manobras. Com base nos dados de descolamento presentes na tela, ele observou que o objeto inverte sua trajetória de forma abrupta, sugerindo uma “condução inteligente” que parece reagir à perseguição do drone militar. Diferente de outros casos onde o analista foi rápido em apontar explicações prosaicas — como reflexos ou a possibilidade de serem pássaros — no vídeo da Síria ele admitiu que “tem algo muito estranho voando sobre os céus do Oriente Médio”.
A análise de Uesu destaca-se por tentar remover os efeitos de contraste e ampliação que muitas vezes são aplicados nos vídeos antes de serem vazados para o público. Ele pondera que a cor escura ou clara de um objeto em sensores térmicos é apenas uma referência de temperatura e não sua cor real, o que pode levar a interpretações errôneas sobre a estrutura física do UAP. Ao final, sua conclusão sobre o objeto da Síria é de que ele realmente demonstra manobras evasivas que são “algo mais do que curioso”, mantendo a porta aberta para a possibilidade de uma tecnologia desconhecida, diferentemente de vídeos anteriores que ele conseguiu desmistificar completamente.
Ressalvas técnicas de outras análises
Embora a análise de Uesu aponte para uma anomalia real, o analista perfil “The Paranormal Chris” (@AeroTech_Space) no X apresentou ressalvas fundamentais sobre o comportamento de aceleração do objeto. Segundo Chris, o que Corbell e Knapp descrevem como “aceleração instantânea” para fora do quadro é, na verdade, um erro do operador ou um problema de processamento do sensor ao alternar entre modos de rastreio. Ele baseia sua afirmação nas siglas “RPOINT” e “RATE G” que aparecem no canto superior da tela no momento exato em que o objeto parece disparar para a esquerda e desaparecer.
New Syria UFO Video Explained!
In the latest “UFO” video from Jeremy Corbell (@JeremyCorbell) & George Knapp (@g_knapp), it shows an object reportedly being tracked by an MQ-9 Reaper Drone that “instantaneously accelerates” out of frame.
What Corbell, Knapp, and Marik (not an… pic.twitter.com/12pTQS1m3A
— The Paranormal Chris (@AeroTech_Space) February 4, 2026
Chris explica que “RPOINT” (Range Point) indica que o sistema de mira está travado em um ponto geográfico fixo no solo, geralmente para navegação ou designação de alvos por laser. Quando o sistema muda para “RATE G” (Rate Gain), o controle do sensor passa a responder diretamente aos comandos do piloto para movimentos de inclinação e rolagem, permitindo manobras mais agressivas de acompanhamento manual. É nesse período de transição entre o rastreio automático de solo e o controle manual de taxa que o sensor frequentemente perde o travamento (“lock“) no objeto, causando uma mudança brusca na imagem que cria a ilusão visual de que o UAP acelerou.
Para o analista, o vídeo da Síria “não é um UFO, no sentido de ser alienígena ou de natureza não-humana”. Ele sugere que, dada a abundância documentada de atividades de drones e balões na região síria, é altamente provável que o MQ-9 estivesse rastreando uma dessas plataformas convencionais e simplesmente perdeu o contato visual durante a troca de sensores. Chris argumenta que jornalistas que não são especialistas em aviação falham ao não reportar esses detalhes técnicos da interface de cockpit, preferindo a narrativa do extraordinário em vez da explicação mecânica.
Essa divergência entre a “condução inteligente” observada por Uesu e o “erro de sensor” apontado por Chris coloca o vídeo da Síria em uma zona cinzenta de evidência. Se a aceleração for apenas um artefato do movimento da câmera do drone, a principal prova de tecnologia exótica do vídeo cai por terra. No entanto, Chris ressalta que é preciso questionar por que tais vídeos são editados ou aprimorados com ferramentas de IA antes da divulgação, o que pode criar bordas artificiais e mascarar a verdadeira natureza do objeto, como possivelmente ocorreu em outros registros militares.
Contextualização com o histórico de vazamentos inconclusivos
A onda de vazamentos de Corbell e Knapp não é um fenômeno recente; ela inclui OVNIs em formato de água viva, esferas misteriosas e até outro caso recente de um vídeo no Golfo Pérsico, de 2012, onde “múltiplos Fenômenos Anômalos Não Identificados” foram registrados em formação. Neste episódio, as imagens de um drone Reaper mostravam três orbs brilhantes em uma disposição triangular irregular que parecia realizar uma “dança” aérea. Contudo, a comunidade de analistas rapidamente apontou que o comportamento dos objetos era “indistinguível de pássaros voando em formação”, com observadores notando inclusive o que pareciam ser batidas de asas escondidas pela baixa resolução da câmera térmica. O próprio Jorge Uesu foi um dos responsáveis por essa ponderação.

A citação de especialistas como Mick West reforçou esse ceticismo, afirmando que os objetos no Golfo “têm a aparência e o comportamento de pássaros” e que não fazem nada de extraordinário. A comparação técnica feita por perfis como @AeroTech_Space indicou que a assinatura de calor de aves migratórias captada de grandes altitudes resultaria exatamente naquela imagem de globos de luz brilhantes. Esse padrão de “objetos anômalos” que acabam sendo identificados como fenômenos biológicos ou convencionais é recorrente, alimentando a frustração com a baixa qualidade das imagens disponibilizadas, muitas vezes comparadas a “fotos pelo Nokia de cobrinha”.
Outro exemplo significativo é o caso do Afeganistão em 2020, onde um suposto disco voador foi filmado sobre as montanhas Hindu Kush. Corbell descreveu o objeto como algo que “desaparece literalmente nas nuvens e depois empurrar a nuvem para fora”. No entanto, outra análise de Jorge Uesu concluiu que, “ao que tudo indica, o provável é que esse objeto seja mesmo o reflexo do sol na lente”, uma tese reforçada pelo fato de a mudança de direção do suposto disco coincidir perfeitamente com o movimento da câmera. Outros analistas demonstraram que, ao inverter a filmagem, as nuvens aparecem com as sombras corretas para a posição do sol, expondo o brilho como um “lens flare” clássico.
Esses precedentes mostram que, embora o vídeo da Síria traga uma componente de dúvida genuína devido às estimativas de velocidade e à frieza do objeto, ele se insere em um histórico de vídeos que foram chamados de “indestrutíveis” mas acabaram desmistificados. A recorrência de casos onde pássaros, reflexos e erros de sensores são vendidos como evidências definitivas de UAPs prejudica a credibilidade dos novos vazamentos. No conjunto da obra, o monitoramento exaustivo do Oriente Médio parece gerar uma vasta quantidade de lixo sensorial que é periodicamente reciclado como mistério ufológico.
A política de transparência e os enigmas do Pentágono
Diante da facilidade com que pesquisadores independentes conseguem explicar muitos desses vídeos, surge a questão de por que o Pentágono continua a vazar ou permitir a circulação de materiais — com o timbre de “secretos” — que podem ser desvendados com uma análise criteriosa. Representantes como Eric Burlison têm questionado por que o governo bloqueia informações de forma consistente, especialmente quando se trata de imagens claras, como as do balão chinês de 2023, enquanto permite que vídeos granulares de drones dominem o debate público. A diferença de qualidade entre uma foto de cabine de caça e os vídeos de UAPs é descrita como “brutal”.

O papel do escritório AARO é central nessa polêmica, sendo criticado por ser “inconsistente na liberação de imagens”, mesmo em instâncias onde afirma haver uma explicação benigna. Há uma aparente dicotomia entre a rapidez com que vídeos de ataques militares são divulgados e o tempo que se leva para desclassificar registros de UAPs, que muitas vezes chegam ao público apenas através de informantes ou vazamentos não oficiais. Isso levanta a suspeita de que o aparato de inteligência possa estar usando esses vídeos ambíguos como uma forma de gerir a narrativa pública ou esconder falhas técnicas operacionais.
A dúvida que persiste é: se o vídeo da Síria pode ser explicado por uma transição de modo de sensor (RPOINT para RATE G), por que ele foi classificado como algo anômalo internamente? É plausível que o Departamento de Defesa marque objetos como UAPs simplesmente porque não pode determinar com 100% de certeza o que são no momento do incidente, mesmo que a explicação seja mundana. No entanto, ao alimentar o ciclo de vazamentos com vídeos inconclusivos, o governo e os jornalistas envolvidos mantêm um estado de incerteza que serve a diversos interesses, mas pouco contribui para a clareza científica.







