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O que poderiam ser as luzes sobre Teerã, no Irã, que viralizaram?

Vídeo de luzes em formação sobre Teerã viralizou em meio à tensão militar e ao cinquentenário do famoso caso ufológico de 1976. O comportamento do objeto, porém, é compatível com uma hipótese muito mais simples: uma pipa equipada com LEDs.

O que poderiam ser as luzes sobre Teerã, no Irã, que viralizam (Reprodução)

O que poderiam ser as luzes sobre Teerã, no Irã, que viralizaram (Reprodução)

Um vídeo gravado no céu de Teerã na noite de 20 de setembro voltou a colocar a capital iraniana no centro das especulações sobre objetos voadores não identificados. Nas imagens, uma sequência de luzes de múltiplas cores piscando aparece disposta em formato curvo, aparentemente suspensa próximo às nuvens, em uma configuração que rapidamente despertou interpretações que foram de drones e aeronaves secretas a hipóteses ufológicas mais exóticas.

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O registro teria sido feito por volta das 19h30, a partir da rodovia Azadegan, e publicado pelo iraniano Ali Sedaghati nas redes sociais. Em poucas horas, o vídeo foi reproduzido por grandes contas de monitoramento militar e inteligência de fontes abertas, acumulando milhões de visualizações e uma coleção previsível de hipóteses sobre sua origem. O fenômeno ganhou espaço em perfis, sites de mídia e canais especializados, tornando-se rapidamente assunto recorrente na comunidade ufológica.

 


Houve até mesmo fala de parlamentar norte-americano atribuindo ao registro a possibilidade de se tratar de alguma mirabolante arma de guerra dos Estados Unidos. Há, porém, uma explicação consideravelmente mais mundana e bastante compatível com o que aparece nas imagens: uma pipa equipada com LEDs.

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Um objeto difícil de medir

O primeiro problema está no próprio material disponível. A gravação que circula nas redes é curta, comprimida e não contém referências visuais suficientes para determinar com segurança distância, altitude ou tamanho. Não há prédios, torres ou outros elementos próximos ao objeto que permitam estabelecer uma escala confiável, tampouco é possível concluir apenas pelas imagens se as luzes pertencem a uma estrutura rígida ou estão distribuídas sobre uma armação flexível.

Há, no entanto, nuvens, e elas permitem inferir algumas características específicas do objeto. Primeiro, ele está abaixo do teto nebuloso visível naquela noite. Segundo, apesar do show de luzes e cores disposto num padrão que alguns descrevem como curvo e outros como uma espécie de “asa” — interpretação que parece mais compatível com as imagens —, pode-se perceber uma estrutura não iluminada na parte côncava da curva, ou do “V”. Também é perceptível um movimento pendular, com a “cauda” deslocando-se ligeiramente mais rápido e descrevendo um movimento mais amplo que a “frente”.

Sedaghati afirma ter visto um objeto enorme, maior que um avião comercial, e rejeitou a possibilidade de que fosse uma pipa, argumentando que a estrutura estava muito alta, próxima às nuvens, permanecia silenciosa e depois teria se deslocado lateralmente. O relato é relevante como testemunho, mas não resolve o problema básico da observação: no céu noturno, uma fonte de luz isolada oferece pouquíssimas pistas sobre sua distância real, de modo que um pequeno objeto relativamente próximo pode facilmente parecer enorme e distante quando faltam referências concretas de escala.

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E se for apenas uma pipa?

Foi justamente essa a interpretação apresentada por diversos usuários iranianos que responderam ao vídeo. Alguns identificaram o objeto como um badbadak — pipa, em persa — equipado com iluminação LED, um tipo de brinquedo utilizado em voos noturnos e vendido comercialmente no país. A hipótese merece atenção principalmente pelo comportamento registrado, já que as luzes não parecem manter uma formação completamente rígida e o conjunto apresenta oscilações e deformações compatíveis com uma estrutura submetida ao vento e presa por uma linha.

Também chama atenção a distribuição dos pontos luminosos ao longo da forma curva. Fitas e pequenos módulos de LED podem ser instalados sobre a armação ou a linha de pipas, produzindo à distância exatamente esse tipo de desenho descontínuo no céu, especialmente quando filmados por celulares em condições de pouca luz.

 

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Esse não é, aliás, nem de longe um caso isolado. Em maio de 2025, o Portal Vigília investigou um suposto “anel de luz” registrado sobre a Vila Ayrosa, um bairro em Osasco (SP), fenômeno que também ganhou aparência bastante incomum nas gravações noturnas e acabou identificado como uma estrutura luminosa acoplada a uma pipa. Casos semelhantes já ocorreram em Embu das Artes, Contagem e também no exterior, enquanto em setembro deste ano vídeos de luzes estranhas no céu da Indonésia circularam acompanhados de alegações ufológicas até que moradores locais identificaram os objetos como layangan, pipas iluminadas comuns na região.

A recorrência desse tipo de ocorrência não prova, claro, por si só, que a gravação de Teerã tenha a mesma origem. Mas o padrão é suficientemente claro para tornar essa hipótese consideravelmente mais plausível e, sobretudo, mais verificável do que explicações envolvendo bombardeiros furtivos, plataformas militares secretas ou tecnologia não humana. A conclusão definitiva, num caso desses, dependeria basicamente de uma de duas coisas: ou a exótica “aeronave” iluminada como uma árvore de Natal, que aparentemente não deseja ser identificada, pousar em praça pública; ou o responsável pela peripécia aérea noturna aparecer com a peça em mãos.

 

B-2 com luzes acesas?

O contexto também ajudou bastante a inflar o caso. Com o Oriente Médio sob forte tensão militar, algumas das primeiras interpretações relacionaram as luzes a operações de reconhecimento ou à presença de aeronaves estrangeiras sobre o território iraniano, surgindo referências nas redes a bombardeiros B-2 Spirit, drones avançados e até ao velho TR-3B, suposta aeronave triangular secreta que há décadas circula entre rumores militares e literatura ufológica, sem comprovação pública de sua existência.

Há uma dificuldade evidente nessas hipóteses: uma aeronave furtiva empenhada em uma incursão clandestina dificilmente teria motivos para cruzar Teerã exibindo uma vistosa fileira de luzes coloridas. O deputado norte-americano Tim Burchett, presença frequente nas discussões sobre UAPs no Congresso dos Estados Unidos, também entrou na conversa ao mencionar a possibilidade de tecnologias secretas capazes de imitar características atribuídas a objetos não humanos, mas a declaração não acrescenta qualquer evidência específica relacionada ao vídeo iraniano.

Nesse aspecto, a fala de Burchett e a forma como ela foi recebida por parte da comunidade dizem menos sobre o fenômeno de Teerã em si do que sobre o atual ambiente de credulidade que cerca parte do debate ufológico nos círculos políticos dos Estados Unidos, onde possibilidades extraordinárias quase sempre vezes ganham espaço antes mesmo que hipóteses muito mais prosaicas tenham sido adequadamente examinadas.

Um aniversário conveniente

A história ganhou ainda um ingrediente perfeito para a circulação nas redes sociais: o registro surgiu praticamente no cinquentenário do célebre incidente de Teerã de 1976. Na madrugada de 19 de setembro daquele ano, caças F-4 Phantom da então Força Aérea Imperial Iraniana foram enviados para investigar um objeto luminoso observado sobre a cidade, episódio que posteriormente se tornaria um dos casos clássicos da ufologia militar.

A proximidade das datas bastou para que os dois acontecimentos fossem relacionados por usuários das redes, embora não exista qualquer evidência de ligação entre eles. No caso atual, sequer há material suficiente para demonstrar que aquilo que aparece no vídeo seja uma aeronave, muito menos algum tipo de manifestação extraordinária relacionada ao episódio ocorrido cinco décadas antes.

A velha armadilha das luzes no escuro

O aspecto mais interessante do episódio talvez esteja justamente nas limitações da observação. Pontos luminosos filmados à noite são particularmente eficientes em comprometer nossa percepção de escala e distância porque, sem referências no campo de visão, o cérebro tenta completar as informações ausentes e pode transformar centímetros em metros, dezenas de metros em quilômetros e um objeto banal em algo aparentemente gigantesco.

 

A câmera do celular acrescenta outros problemas. Foco automático, exposição, compressão, tremores e difusão da luz pela umidade atmosférica podem deformar pequenos LEDs, ampliando seu brilho e apagando detalhes da estrutura que os sustenta. Por isso, a impressão de que o objeto parecia enorme ou estava “na altura das nuvens” não funciona como uma medida independente, embora isso também não signifique que a testemunha esteja mentindo; significa apenas que testemunhas, assim como câmeras, possuem limitações bastante conhecidas quando tentam interpretar pontos luminosos isolados no céu noturno.

No vídeo de Teerã, a hipótese da pipa iluminada oferece uma explicação relativamente simples para vários dos elementos observados, incluindo a ausência de ruído, o movimento oscilante, a disposição curva das luzes e sua aparência multicolorida. Sem o arquivo original, uma referência precisa de localização e novas imagens tomadas de outros ângulos, seria imprudente tratar a identificação como encerrada, mas é igualmente difícil justificar o salto direto para aeronaves secretas ou objetos de origem desconhecida quando existe uma explicação terrestre bastante compatível com o que efetivamente aparece nas imagens.

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Jeferson Martinho

Jornalista, o autor é empresário de comunicação, dono de agência de marketing digital e assessoria de imprensa, publisher de um portal de notícias regionais na Grande São Paulo, fundador e editor do Portal Vigília. Apaixonado por Ufologia de um ponto de vista científico, é autor do livro "Nem Todo OVNI é Extraterrestre - Um guia para entusiastas da ufologia que não querem ser iludidos", disponível na Amazon.

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