3I/ATLAS surpreende cientistas com jatos simétricos e composição exótica

3I/ATLAS surpreende cientistas com jatos simétricos e composição exótica
3I/ATLAS (com cauda) registrado pelo Gemini Multi Object Spectrograph (GMOS), no observatório Gemini Sul, em Cerro Pachón - Chile International Gemini Observatory/NOIRLab/NSF/AURA/Shadow the Scientist Image Processing: J. Miller & M. Rodriguez (International Gemini Observatory/NSF NOIRLab), T.A. Rector (University of Alaska Anchorage/NSF NOIRLab), M. Zamani (NSF NOIRLab)

A recente passagem do exocometa 3I/ATLAS pelo Sistema Solar interno desencadeou uma série de estudos científicos que estão redefinindo nossa compreensão sobre os visitantes interestelares. Descoberto em 1º de julho de 2025 pelo sistema ATLAS no Chile, o objeto é apenas o terceiro corpo celeste originário de outro sistema estelar a ser identificado, seguindo os passos do 1I/’Oumuamua e do 2I/Borisov.

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Ao longo de sua passagem, as chamadas anomalias do objeto — na comparação com cometas e objetos já conhecidos pelos astrônomos — causaram diversas especulações e geraram uma série de teorias sobre a possibilidade de ser um artefato extraterrestre.

Agora, uma pesquisa detalhada, liderada pelo astrônomo Ignacio Ferrín e publicada recentemente no repositório arXiv, utilizou a metodologia da Curva de Luz Secular (SLC) para mapear a atividade e a evolução deste viajante cósmico. E os dados revelam que o 3I/ATLAS possui uma composição química profundamente distinta da maioria dos cometas do nosso próprio Sistema Solar, sendo composto por 93,23% de dióxido de carbono sólido, o conhecido gelo seco.

Além da química incomum, análises de imagens do Telescópio Espacial Hubble, conduzidas por Avi Loeb e Toni Scarmato — astrônomo de Harvard, Loeb foi um dos primeiros a especular sobre a hipótese de tecnologia extraterrestre para o cometa —,  identificaram um sistema simétrico de três jatos emanando do núcleo, dispostos com uma separação de aproximadamente 120 graus. Essa configuração morfológica, aliada a uma aceleração não gravitacional detectada em sua trajetória, reforçou hipóteses intrigantes sobre a natureza física e a estabilidade estrutural do objeto durante seu periélio.

A investigação de Ferrín e sua equipe baseou-se em observações fotométricas coletadas de diversas fontes, incluindo o Minor Planet Center (MPC) e o banco de dados COBS. A aplicação da técnica SLC permitiu aos cientistas identificar que o exocometa atingiu sua magnitude absoluta máxima de 6.8 cerca de 15 dias após o periélio, sugerindo um atraso térmico significativo. Segundo o estudo, ainda em pré-print (ou seja, ainda sem revisão por pares), esse fenômeno pode ser explicado pela presença de uma espessa camada de poeira ou por uma inclinação específica do seu eixo de rotação, que afetou a forma como a radiação solar interagiu com o núcleo congelado.

A importância deste estudo reside na capacidade de comparar diretamente objetos de outros sistemas com os nossos próprios cometas, funcionando como cápsulas do tempo que preservam informações sobre a formação planetária na Via Láctea.

Segundo o estudo de Ferrín, o 3I/ATLAS pode ser classificado como um “cometa bebê” em termos de idade de perda de massa, com apenas 0,16 anos cometários. Esta análise detalhada fornece um contexto fundamental para a astrofísica comparativa, revelando que, embora compartilhe características com os cometas da Nuvem de Oort, o 3I/ATLAS é um exemplar de um sistema estelar distinto e quimicamente diverso.

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A composição química e o mistério do gelo seco

A análise espectroscópica do 3I/ATLAS revelou ainda uma predominância avassaladora de compostos voláteis, desafiando as expectativas iniciais dos astrônomos. Segundo reportagem do portal Space.com, pesquisadores que utilizaram o Telescópio Subaru observaram que a química da coma do cometa sofreu transformações drásticas à medida que ele se aproximava do Sol.

“Ao aplicar as técnicas observacionais e analíticas que desenvolvemos através de estudos de cometas do sistema solar a objetos interestelares, podemos agora comparar diretamente cometas vindos de dentro e de fora do sistema solar e explorar diferenças em sua composição e evolução”, afirmou Yoshiharu Shinnaka, líder da equipe do Instituto de Ciência Espacial Koyama, em declaração ao portal.

A abundância de CO2 em detrimento da água e do monóxido de carbono (CO) coloca o 3I/ATLAS em uma categoria de objetos extremos. Enquanto a maioria dos cometas solares possui uma proporção de poeira e gás próxima de um, o exocometa mostrou-se pobre em poeira, com apenas 3,9% de sua massa composta por esse material. Esse enriquecimento em dióxido de carbono sugere que o objeto se formou em uma região pobre em poeira ou que sofreu uma perda preferencial de outros voláteis ao longo de milênios de viagem pelo espaço interestelar.

A detecção de mudanças na proporção entre dióxido de carbono e água conforme o cometa se afastava do Sol indica que sua química interna difere da composição superficial. Esse gradiente químico sugere que o núcleo não é homogêneo, possuindo camadas com diferentes concentrações de gelos que sublimam em taxas distintas sob a influência da radiação solar. Estudos adicionais mencionados pelo portal Space.com também apontaram que o 3I/ATLAS é “rico em metanol”, reforçando a complexidade de sua herança química originária de outro disco planetário.

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O impacto dessas descobertas na compreensão da formação planetária é vasto, pois demonstra que os blocos de construção de outros sistemas podem ser significativamente mais ricos em gelos de carbono do que o nosso. O estudo de Ferrín destaca que a densidade adotada para o núcleo foi a do “gelo seco” (1560 kg/m³), dada a sua composição quase total de CO2. Essa característica física influencia diretamente como o cometa se desintegra e como sua órbita é alterada por efeitos de propulsão térmica, conhecidos como efeito foguete.

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Será que o 3I/Atlas guarda (mais) alguma surpresa? Ilustração gerada com IA

Jatos simétricos e a hipótese tecnológica

Um dos aspectos mais debatidos sobre o 3I/ATLAS é a sua morfologia peculiar revelada por filtros de processamento de imagem avançados. Segundo artigo publicado pelo astrofísico Avi Loeb em sua coluna no Medium, a aplicação do filtro Larson-Sekanina em imagens do Hubble permitiu identificar um sistema de jatos altamente estruturado. Loeb descreve que, além do jato principal de anti-cauda, existem três jatos secundários emanando do núcleo, separados simetricamente por cerca de 120 graus em projeção no céu.

Essa simetria incomum levou a discussões sobre se tais estruturas poderiam ter uma origem puramente natural ou se representariam uma assinatura tecnológica. Loeb menciona que uma configuração de “3+1” jatos é, teoricamente, o arranjo mínimo necessário para estabilizar e direcionar a trajetória de um objeto interestelar.

“O sistema de configuração simétrica de três jatos mais o jato anti-cauda levanta a questão de se eles poderiam constituir um sistema tecnológico projetado para estabilizar a trajetória do 3I/ATLAS”, escreveu o pesquisador em seu artigo, citando análises de dinâmica de voo que corroboram essa possibilidade de controle.

Independentemente da origem — sejam bolsas de gelo localizadas simetricamente ou propulsores artificiais — esses jatos exercem um empuxo que explica a aceleração não gravitacional observada. O efeito foguete gerado pela exaustão de gás e poeira desvia o cometa da trajetória puramente balística esperada pela gravidade solar. O estudo de Loeb vincula, pela primeira vez, as direções e o momento desses jatos específicos aos componentes tridimensionais da aceleração detectada, fortalecendo a conexão entre a atividade da superfície e o comportamento orbital do objeto.

Além disso, observou-se que esse sistema de jatos apresenta uma oscilação ou “wobble” com um período de 7,2 horas, o que provavelmente reflete a rotação do núcleo. Essa dinâmica indica que o eixo de rotação do exocometa está quase alinhado com a direção do Sol, mantendo a face ativa constantemente exposta à radiação máxima. Tal alinhamento é crucial para manter a emissão contínua de material e a estabilidade da propulsão térmica necessária para as manobras gravitacionais que o objeto realizou ao cruzar o plano do Sistema Solar.

Anomalia fotométrica sugere sistema binário

Durante o monitoramento da curva de luz secular, a equipe de Ignacio Ferrín detectou um comportamento que foge aos padrões cometários conhecidos. Segundo o estudo publicado no arXiv, entre 120 e 45 dias antes do periélio, o brilho do 3I/ATLAS apresentou uma queda abrupta que não pode ser explicada por variações normais de atividade. Os pesquisadores interpretaram esse fenômeno como uma anomalia fotométrica em forma de eclipse, o que levanta a forte possibilidade de que o exocometa seja, na verdade, um sistema binário.

A evidência de um possível eclipse sugere a presença de dois núcleos orbitando um centro de massa comum, onde um corpo bloqueia a luz do outro ou da coma circundante em intervalos específicos. “O SLC deste cometa exibe uma anomalia fotométrica… que interpretamos como um eclipse, sugerindo que o 3I também pode ser binário”, afirma o resumo da pesquisa de Ferrín. Embora a interpretação seja complexa devido ao início da sublimação da água ter interrompido a observação da segunda metade do eclipse, a assinatura visual é consistente com sistemas de dois corpos.

Outro ponto de estranheza na morfologia do 3I/ATLAS foi a observação de uma coma perfeitamente simétrica e gaussiana em novembro de 2025, o que inicialmente indicava uma sublimação homogênea em toda a superfície. No entanto, o surgimento posterior de jatos e grandes fragmentos, descritos como blocos do tamanho de montanhas na cauda de detritos, sugere um processo de desintegração estrutural em andamento. Imagens processadas por G. Navas e C. Triana mostraram filamentos longos e bólidos na cauda, indicando que o objeto está perdendo massa macroscópica significativamente após sua passagem mais próxima pelo Sol.

Essa fragmentação e a potencial natureza binária complicam a análise da estabilidade do núcleo. Se o 3I/ATLAS for composto por dois fragmentos ligados gravitacionalmente, as forças de maré solar durante o periélio podem ter iniciado o processo de separação definitiva ou colapso estrutural. A presença de uma atmosfera opticamente espessa ao redor do núcleo, mencionada por Ferrín como um fator que impede a visualização direta da superfície, reforça que estamos lidando com um objeto em estado de transição física violenta sob o calor solar.

O diagrama evolutivo e o futuro do visitante

Para situar o 3I/ATLAS no contexto da população cometal, Ferrín utilizou o Diagrama Evolutivo de Cometas (CED), uma ferramenta análoga ao diagrama de Hertzsprung-Russell para estrelas. Através do cálculo da perda de massa total, os pesquisadores determinaram que o objeto possui uma “Idade de Perda de Massa” extremamente jovem, sendo classificado como um “cometa bebê”. No diagrama, ele se posiciona próximo aos cometas da Nuvem de Oort do nosso sistema, mas com uma trajetória evolutiva que confirma sua origem externa.

O cálculo dos retornos restantes (RR) indica que o 3I/ATLAS ainda teria cerca de 24 passagens remanescentes por uma estrela antes de se esgotar completamente, assumindo um decréscimo linear de massa. Esta estimativa é baseada em um raio médio de 1,4 quilômetros e na taxa de perda de massa observada de aproximadamente 59 metros de profundidade por aparição. “Concluímos que o 3I é um cometa da Nuvem de Oort, mas de um sistema estelar diferente”, resume Ferrín, destacando que a complexidade exibida pelo diagrama evolutivo vai além da compreensão atual da astronomia.

Ao contrário de outros cometas que sofrem um processo de “sufocamento” por camadas de poeira, o 3I/ATLAS parece seguir o modelo de perda de massa direta, onde o gelo sublima sem deixar um resíduo significativo de manto. Isso o torna um corpo muito mais “gelado” e menos “poeirento” do que a média, o que é corroborado pelo seu albedo e pelas cores que, embora avermelhadas por materiais orgânicos primitivos, permanecem dentro do domínio cometal esperado. Sua alta concentração de CO2 o torna um exemplar raro de “cometa de gelo seco”, um tipo de objeto que pode ser comum em sistemas estelares com diferentes químicas de formação.

O destino final do 3I/ATLAS agora o leva de volta às profundezas do espaço interestelar, carregando consigo os segredos de sua composição e a polêmica sobre sua origem. À medida que ele se afasta a grandes distâncias, as observações continuam a fornecer dados sobre seu desligamento da atividade, previsto para ocorrer quando atingir temperaturas abaixo de 105 Kelvin. O estudo deste intruso interestelar permanecerá como um marco na ciência espacial, oferecendo um vislumbre sem precedentes da diversidade de mundos e materiais que existem além do horizonte do nosso próprio Sol.

Redação Vigília

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