Astrônomos descobrem HD 137010 b, candidato a planeta parecido com a Terra

Em janeiro de 2026, uma equipe internacional de astrônomos liderada por Alexander Venner, da Universidade de Southern Queensland (Austrália), anunciou a descoberta do HD 137010 b, um candidato a exoplaneta com dimensões e órbita surpreendentemente similares às da Terra. Localizado a aproximadamente 146 anos-luz de distância, na constelação de Libra, o astro orbita a estrela HD 137010, uma anã K de décima magnitude, e foi identificado por meio da análise minuciosa de dados arquivados da missão K2 do telescópio espacial Kepler da NASA, coletados originalmente em 2017.
O achado foi possível graças à detecção de um único evento de trânsito de 10 horas de duração, onde a passagem do planeta à frente de sua estrela causou uma redução sutil e reveladora em seu brilho. O objetivo central desta investigação é expandir os limites da sensibilidade atual para encontrar mundos rochosos em zonas habitáveis de estrelas semelhantes ao Sol, um dos maiores desafios da exoplanetologia moderna. A descoberta é considerada um marco, pois é o primeiro candidato com raio e propriedades orbitais terrestres a transitar uma estrela brilhante o suficiente para permitir observações detalhadas de acompanhamento com tecnologias futuras.
Uma relíquia nos arquivos da NASA
A trajetória da descoberta do HD 137010 b remonta ao esforço de “ciência cidadã”, onde voluntários auxiliam pesquisadores profissionais na triagem de vastos conjuntos de dados espaciais. Alexander Venner, autor principal do estudo publicado na The Astrophysical Journal Letters e agora pesquisador de pós-doutorado no Instituto Max Planck de Astronomia, começou a rastrear o sinal quando ainda era estudante. “Contribuí para este projeto de ciência cidadã chamado Planet Hunters quando ainda estava no ensino secundário, e foi uma parte fundamental de como entrei na investigação”, relatou Venner, qualificando a experiência de revisitar esse trabalho anos depois como algo “incrível”.
A precisão fotométrica alcançada pela missão K2 foi fundamental para que o sinal, embora raso, fosse detectado com alta clareza estatística. A Dra. Chelsea Huang, pesquisadora da Universidade de Southern Queensland e coautora do estudo, descreveu a reação inicial da equipe como de total descrença devido à raridade do sinal.
“A nossa primeira reação foi de que isto não poderia ser verdade. Mas verificamos duas e três vezes tudo e é um exemplo de livro de um trânsito de um planeta”, afirmou Huang ao analisar a natureza “U-focada” da curva de luz, característica de corpos planetários.
Embora o telescópio Kepler tenha encerrado sua missão em 2018, o processamento contínuo de seus arquivos continua a render frutos científicos valiosos. O método de trânsito único, embora desafiador, tornou-se uma ferramenta viável para identificar planetas de longo período que, de outra forma, escapariam das buscas automáticas que exigem múltiplas detecções. Para o HD 137010 b, a duração do trânsito de 10 horas foi a chave para estimar sua velocidade orbital e, consequentemente, sua distância da estrela hospedeira.
O sistema HD 137010 apresenta um cenário de isolamento aparente, já que nenhuma outra queda de brilho periódica foi encontrada nos 88 dias de observação da campanha 15 da missão K2. Isso não exclui a existência de outros mundos, mas limita a presença de planetas maiores que a Terra em órbitas internas de curto período. A detecção visual realizada inicialmente por Hans Martin Schwengeler, um cientista cidadão do projeto Zooniverse, destaca a importância da colaboração humana na identificação de sinais que algoritmos automatizados podem ignorar por serem eventos isolados.
As características de um mundo gelado, mas nem tanto
O HD 137010 b possui um raio estimado em 1,06 vezes o da Terra, o que o torna apenas marginalmente maior que o nosso planeta. Sua órbita completa em torno da estrela dura aproximadamente 355 dias, uma periodicidade quase idêntica ao ano terrestre. No entanto, a estrela que ele orbita é uma anã laranja (tipo espectral K3.5V), que é significativamente mais fria e menos luminosa que o nosso Sol. Essa diferença estelar é crucial para entender o clima do planeta, que recebe menos de um terço do calor e da luz que a Terra recebe do Sol.
Devido a essa baixa incidência de energia, os modelos climáticos sugerem que o HD 137010 b pode ser um mundo extremamente frio.
“Se o HD 137010 b tiver uma atmosfera como a da Terra ou de Marte, é provável que seja mais frio do que a Antártida”, explicou Alexander Venner em um comunicado institucional da universidade.
As estimativas de temperatura de equilíbrio da superfície variam em torno de -68°C, uma condição que o torna termicamente mais próximo de Marte, cujo valor médio é de -65°C, do que da Terra.
Apesar do frio intenso, a possibilidade de habitabilidade não é totalmente descartada, dependendo da composição atmosférica. “Uma atmosfera mais espessa poderia aquecer o planeta o suficiente para permitir água líquida, o que poderia ser um bom ambiente para a vida”, acrescentou Venner ao ponderar sobre o papel do efeito estufa em mundos tão distantes de suas estrelas. Se o planeta possuir uma atmosfera rica em dióxido de carbono, ele poderia manter reservatórios de água líquida sob certas condições ideais, evitando o estado de “bola de neve” ou glaciação total.
A comparação direta com o sistema solar coloca o HD 137010 b em uma posição orbital entre a Terra e Marte. No entanto, por orbitar uma estrela K, sua zona habitável é mais próxima do astro do que a do Sol. Os dados indicam que o planeta reside na borda externa desta zona, o que levanta questões sobre se ele seria um deserto congelado ou um mundo com oceanos subglaciais. A natureza rochosa do planeta é uma inferência baseada em seu raio, já que planetas menores que 1,6 vezes o raio da Terra têm alta probabilidade de serem compostos por materiais sólidos.
Desafios estatísticos e validação científica
A classificação do HD 137010 b como “candidato” em vez de planeta confirmado deve-se à natureza da descoberta baseada em um único trânsito. Na ciência planetária, o “padrão-ouro” geralmente exige a detecção de pelo menos três trânsitos periódicos para garantir a existência do corpo celeste. A astrofísica Sara Webb, da Universidade de Swinburne, que não participou da pesquisa, enfatizou a necessidade de cautela ao analisar o achado. “Existe apenas um trânsito detectado e, normalmente, na ciência planetária, falamos de um padrão de ouro de três detecções”, explicou Webb ao The Guardian.
Para validar o sinal como planetário, a equipe de Venner realizou uma série de testes rigorosos para descartar falsos positivos comuns, como binárias eclipsantes ou ruídos instrumentais do telescópio. A análise de imagens de arquivo e novas observações de alta resolução obtidas com o instrumento Zorro, no Telescópio Gemini Sul, não revelaram outras estrelas próximas que pudessem estar contaminando a luz da HD 137010. Além disso, dados espectroscópicos do instrumento HARPS e astrometria do satélite Gaia mostraram que a estrela é estável, reforçando a hipótese de que a queda de brilho foi causada por um planeta em órbita.
A modelagem estatística atribui ao HD 137010 b uma probabilidade de 40% de estar dentro da zona habitável “conservadora” e 51% de chance de estar na zona “otimista”. Existe, portanto, uma probabilidade equilibrada de cerca de 50% de que o planeta esteja, na verdade, além do limite externo onde a vida como a conhecemos poderia florescer. O estudo ressalta que planetas em torno de estrelas anãs K, como esta, oferecem uma vantagem teórica sobre as anãs M: elas são mais estáveis e menos propensas a emitir radiações de alta energia que poderiam varrer a atmosfera de um planeta.
Além do candidato transitante, os dados do HARPS revelaram uma variação na velocidade radial da estrela de cerca de 7 metros por segundo entre observações feitas em 2006 e 2010. Embora esse sinal seja muito grande para ser causado pelo HD 137010 b, ele sugere a presença de um terceiro corpo no sistema, possivelmente um planeta gigante gasoso em uma órbita mais externa, semelhante a Júpiter. A existência de um planeta gigante poderia ter influenciado significativamente a formação e a estabilidade orbital do candidato terrestre interno.
O futuro da observação exoplanetária
A proximidade relativa de 146 anos-luz torna o sistema HD 137010 um laboratório excepcional para a próxima geração de instrumentos astronômicos. Comparado ao Kepler-186f, anteriormente o melhor análogo terrestre em uma zona habitável de uma estrela similar ao Sol, o novo candidato está quatro vezes mais perto e sua estrela é 20 vezes mais brilhante. Essa luminosidade é o que permite que astrônomos planejem estudos de acompanhamento para medir a massa do planeta e tentar detectar sinais de uma atmosfera.
A confirmação definitiva poderá vir de missões em andamento, como o TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite) da NASA ou o satélite CHEOPS da Agência Espacial Europeia (ESA). O TESS já realizou observações da região em 2025, embora a detecção de trânsitos tão rasos seja desafiadora para sua sensibilidade atual. No futuro, o Observatório de Mundos Habitáveis (HWO) da NASA, projetado especificamente para obter imagens diretas de planetas semelhantes à Terra, poderá ser capaz de capturar luz refletida pelo HD 137010 b, oferecendo pistas definitivas sobre sua habitabilidade.
A descoberta também reacende o debate sobre a busca por um “Plano B” galáctico. Embora a distância seja curta em escalas cósmicas, Sara Webb alerta que, com as tecnologias atuais, uma viagem até lá levaria dezenas ou centenas de milhares de anos.
“O que é muito excitante sobre este planeta em particular do tamanho da Terra é que a sua estrela está apenas a cerca de 150 anos-luz de distância do nosso sistema solar”, reiterou Chelsea Huang, destacando que o valor científico reside na observação e não na exploração física imediata.
Em última análise, o HD 137010 b serve como um protótipo para o tipo de mundo que missões futuras, como a PLATO da ESA, esperam encontrar em abundância: planetas rochosos em órbitas de longo período em torno de estrelas estáveis. Se confirmado, ele deixará de ser apenas um ponto nos arquivos do Kepler para se tornar um dos alvos mais estudados na busca por vida fora do sistema solar. O trabalho conjunto entre astrônomos profissionais e cidadãos provou, mais uma vez, que descobertas fundamentais podem estar escondidas à vista de todos, aguardando apenas um olhar atento sobre dados do passado.







