Divulgador científico alardeia manual falso do CL-957, o famoso Tic Tac

Divulgador científico alardeia manual falso do CL-957, o famoso Tic Tac
Manual confirma que Tic Tac foi é uma aeronave Lockheed Martin denominada CL-957 Gen 2?

Essa semana gerou polêmica na Internet a volta da circulação de um material supostamente vazado que trataria das capacidades do famoso OVNI “Tic Tac”, cuja história remonta a novembro de 2004, durante exercícios de treinamento do grupo de batalha do porta-aviões USS Nimitz na costa da Califórnia. Mas a razão da repercussão em torno do tema nada tem a ver com qualquer revelação ou informação nova. Pelo contrário, o divulgador científico Sergio Sacani, responsável pelo canal e blog SpaceToday, publicou em seu perfil oficial uma afirmação de que esse equipamento foi confirmado como sendo um aeronave da Lockheed Martin denominada CL-957 Gen 2.

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Sacani baseou sua postagem na circulação de um suposto manual de voo que teria vazado recentemente, alegando que o projeto foi desenvolvido em 2003 sob o codinome Orbit Lance e utiliza um sistema de propulsão exótico capaz de anular a inércia e direcionar a gravidade — alegações bastante fantásticas diante do conhecimento científico e tecnológico atual. A publicação afirma que o veículo operaria no ar, no espaço e sob a água, tendo sido demonstrado deliberadamente para uma tripulação desavisada de pilotos da Marinha dos Estados Unidos ao largo da costa da Califórnia.

post do spacetoday

Eu sempre falei!!! O infame OVNI “TicTac” avistado e rastreado em 2004 pelo USS Nimitz e pilotos de caça F18 foi confirmado como sendo uma aeronave Lockheed Martin denominada CL-957 Gen 2″, escreveu o divulgador.

A notícia rapidamente gerou um rastro de questionamentos em comunidades de defesa e ufologia, uma vez que o material apresentado como prova é, na realidade, uma criação artística digital. O “vazamento” corroborado por Sacani descreve capacidades “transmeio” e furtividade total por meio de metamateriais adaptativos, uma narrativa que, embora tecnicamente sofisticada no papel, carece de qualquer fundamento documental oficial. O episódio chama a atenção pelo fato de partir de uma figura pública conhecida por um ceticismo rigoroso, muitas vezes considerado exagerado por seus pares, mas que nesta ocasião parece ter negligenciado a verificação mais básica da fonte.

O erro de credulidade foi prontamente apontado por diversos seguidores e páginas especializadas, que identificaram a origem do material em uma conta de arte comercial, apesar da tímida ressalva de Sacani no final da legenda que acompanha o post: “Não tenho certeza se acredito nisso, mas este documento ‘vazou’ recentemente, corroborando a alegação”.

A gênese de uma obra artística, não um vazamento

A investigação sobre a notoriedade do suposto manual do CL-957 revela que ele não passou de uma estratégia de marketing e expressão artística. A conta @lucidpantry no Instagram, pertencente a uma marca de roupas, é a verdadeira origem das imagens que Sacani tratou como um vazamento de segurança nacional. Mick West, um cético e proeminente investigador de fraudes ufológicas, fundador do fórum Metabunk, esclareceu o contexto ao afirmar que:

“Essas divertidas capas falsas apareceram na conta do Instagram da empresa de camisetas LucidPantry durante as últimas semanas. Elas refletem algumas das alegações mais populares recentes de OVNIs e alienígenas. Inevitavelmente, algumas pessoas vão pensar que são reais”.

A postagem original do artista digital descrevia a aeronave com uma terminologia pseudocientífica densa, afirmando que o CL-957 “apresenta uma arquitetura de propulsão revolucionária — aproveitando o cancelamento de massa inercial e a modulação controlada do vetor de gravidade — permitindo manobrabilidade silenciosa e de alta aceleração (G) nos domínios aéreo, espacial e suboceânico”. Esse nível de detalhamento serviu como isca para entusiastas que buscam explicações tecnológicas humanas para fenômenos inexplicados. A construção visual do manual foi feita através de montagens no Photoshop, misturando elementos de documentos reais de programas como o BAAS (Bigelow Aerospace Advanced Space Studies) com arte original.

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A finalidade comercial da criação é evidente quando se observa que a marca produz mercadorias variadas baseadas em temas ufológicos contemporâneos. Outras “folhas de rosto” similares foram criadas pela mesma marca, abordando temas como discos voadores e até corpos alienígenas. O material foi disseminado primariamente em plataformas como TikTok e Instagram, onde a velocidade da viralização frequentemente supera a checagem de fatos. Em muitos casos, o uso de fontes e logotipos oficiais, como o da CIA e da Lockheed Martin, confere uma aura de autoridade que engana olhares menos atentos. A estratégia, aliás, foi usada com outros formatos conhecidos da Ufologia.

Apesar da estética oficial, a obra artística foi rapidamente desmascarada por usuários que rastrearam o link da postagem original do criador digital. O próprio artista não escondeu sua identidade, mas o material ganhou vida própria ao ser retirado de contexto e compartilhado como informação classificada. A viralização em fóruns de discussão transformou um projeto de design gráfico em um debate sobre engenharia reversa e segredos governamentais. No fim, o que Sacani apresentou como uma confirmação histórica provou ser apenas uma representação visual de mitos modernos da ufologia.

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O contraste do ceticismo seletivo

O incidente envolvendo Sergio Sacani levantou especulações sobre a natureza do seu ceticismo, que alguns críticos classificam como ideológico ou tendencioso. O contraste é marcante: enquanto Sacani frequentemente exige evidências laboratoriais e documentação exaustiva para outros casos, ele aceitou uma imagem de Instagram como prova definitiva de uma tecnologia que quebraria as leis conhecidas da física.

O perfil “ovniologia” no Instagram foi ainda mais incisivo na análise desse comportamento contraditório ao classificar Sacani e figuras similares como “céticos glaucomados”. Segundo essa visão, Sacani estaria “tão desesperado para desacreditar [a origem não-humana dos fenômenos] que não verifica mais nada”. A explicação oferecida é que esses indivíduos “são crentes como os crentes; ideológicos, desonestos intelectualmente, insinuosos, oportunistas e subjetivos”. A pressa em rotular o Tic Tac como tecnologia terrestre da Lockheed Martin parece ter cegado o divulgador para a óbvia natureza fabricada do manual.

Essa credulidade diante de um tema facilmente esclarecido com uma busca rápida na internet sugere uma predisposição em aceitar qualquer “história de cobertura” que proteja uma visão de mundo materialista convencional. Alguns usuários notaram que a postagem foi ingênua, chegando a compará-la com a simplicidade de teorias sem embasamento. Um comentário satírico resumiu a situação ao perguntar: “Se ela vai até o espaço, por que a gente ainda usa foguetes?”. A falta de resposta técnica do divulgador aos questionamentos básicos de seus seguidores reforçou a percepção de um erro crasso de julgamento.

A especulação em torno do caso sugere que o ceticismo injustificado, muitas vezes usado para silenciar testemunhas reais de OVNIs, pode se tornar uma vulnerabilidade quando o cético encontra algo que confirma seus próprios preconceitos. Ao ignorar a necessidade de autenticação documental que ele próprio costuma pregar, Sacani acabou se tornando um vetor de desinformação artística. O fenômeno Tic Tac, que já foi objeto de discussões sérias no Pentágono, acabou sendo reduzido a uma polêmica de redes sociais por causa de uma imagem de “merchandising”. A ironia final é que o manual, embora falso, serviu para expor as lacunas na verificação de fatos de um dos maiores nomes da divulgação científica no Brasil.

O veredito dos fóruns especializados

Pilotos americanos afirmam que óvni tic tac espelhou um caça durante manobras do USS Nimitz

Em fóruns como o Reddit, especificamente no subfórum r/UFOs, a postagem original sobre o manual do CL-957 foi removida por moderadores sob a regra de ser “não substantiva”. A moderação justificou que a submissão continha alegações incríveis sem suporte de evidências, sendo apenas “conteúdo de mídia social sem relevância significativa”. Membros da comunidade apontaram que essas imagens “vazadas” eram falsificações de uma empresa de vestuário para vender produtos sobre o tema. O sentimento geral era de que “qualquer pessoa gastando tempo para desmentir algo originado no TikTok realmente deveria considerar arranjar um hobby”.

Usuários experientes em lidar com manuais técnicos governamentais classificados rapidamente identificaram que a imagem não seguia os padrões oficiais de formatação. Uma análise detalhada indicou tipografia inconsistente, pesos de fonte mistos e alinhamentos estranhos, que são artefatos comuns de imagens geradas ou alteradas digitalmente. O uso do logotipo da CIA foi considerado incorreto, aparecendo levemente distorcido e mal dimensionado em relação aos outros elementos da página. Além disso, a designação “CIA Series Aircraft” foi apontada como inexistente em registros públicos ou em práticas reais de agências de inteligência.

Outras falhas técnicas gritantes foram notadas na representação, como barras de censura (redações) que pareceram artificiais, como se tivessem sido “pintadas” por cima sem seguir os padrões normais de transparência ou alinhamento de margens encontrados em documentos liberados via FOIA (Lei de Acesso à Informação). O logotipo da divisão Skunk Works da Lockheed Martin também estava esticado e em baixa resolução, o que seria improvável em um documento oficial de alta segurança.

O debate nos fóruns especializados concluiu que o documento foi fabricado, mesmo que alguns acreditem que o manual poderia ser uma “história de cobertura” para tecnologia real. Ainda assim, a maioria concorda que tais falsificações prejudicam a legitimidade do campo de estudo perante o público. No final, o CL-957 de Sacani permanece firmemente no território da ficção artística, longe de ser a confirmação terrestre que o divulgador pretendia.

Redação Vigília

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