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De Big Oil a UAP: o ex-espião da Shell que garante ter herdado um disco voador… de papel

Ex-segurança da Shell, Gene Sticco afirma ter herdado do sogro letão um arquivo técnico sobre um suposto disco voador soviético.

A história de Gene Sticco, o ex-espião da Shell que diz ter herdado os esquemas de um disco voador frutos de engenharia reversa (montagem com IA)

A história de Gene Sticco, o ex-espião da Shell que diz ter herdado os esquemas de um disco voador frutos de engenharia reversa (montagem com IA)

Poucas vezes a ufologia norte-americana esteve tão barulhenta e, ao mesmo tempo, tão difícil de decifrar. Em 19 de fevereiro de 2026, Donald Trump anunciou que mandaria o secretário de Guerra e outras agências começarem a identificar e liberar arquivos governamentais relacionados a vida extraterrestre, UAP e OVNIs. Em 8 de maio, o Departamento de Guerra lançou o PURSUE, sistema criado para centralizar a divulgação desse material, com a promessa de novas remessas ao longo do tempo. O anúncio foi noticiado pelo Washington Post.

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Os lotes seguiram saindo. O sexto, publicado em 18 de setembro, reuniu 72 registros ao todo com material que vai do Projeto Blue Book e do famoso filme de Tremonton aos estudos contratados décadas depois pelo AAWSAP sobre temas como propulsão avançada, fusão aneutrônica, wormholes e metamateriais. Um inventário independente consolidou a contagem da sexta remessa.

Nem por isso o clima é de consenso. O escritório oficial que investiga o fenômeno, o AARO, continua afirmando que não encontrou evidências de que qualquer caso analisado demonstre tecnologia ou atividade extraterrestre. A liberação de arquivos também não equivale, por si só, à validação do conteúdo desses arquivos: documentos governamentais podem registrar desde observações sem explicação até hipóteses, pesquisas especulativas e relatos posteriormente descartados.

Enquanto isso, parlamentares continuam pressionando o Pentágono por mais material e personagens conhecidos da chamada “disclosure”, como David Grusch e Matt Brown, mantêm alegações sobre programas secretos de recuperação e exploração de veículos anômalos que, até agora, não foram acompanhadas por evidência material pública que permita confirmá-las.

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É nesse cenário, cheio de nomes com crachá, audiências no Congresso e assessoria de imprensa, que aparece um personagem diferente. Seu nome é Gene Sticco, e ele teve pouco espaço na grande imprensa em comparação com os protagonistas mais conhecidos da atual onda ufológica. Sua audiência está em podcasts independentes, no X, newsletters e livros publicados fora das grandes editoras. Ele não diz ter encontrado o segredo num hangar do Pentágono, mas numa gaveta na Letônia.

O homem da segurança

Antes dos discos voadores, houve o petróleo. Sticco se apresenta como ex-sargento das forças de segurança da Força Aérea dos Estados Unidos, com atuação na proteção de armamentos nucleares, e posteriormente como profissional da área de segurança e inteligência corporativa da Shell. A própria Blackgrove Global Risk apresenta essa trajetória em sua biografia, combinando serviço militar, segurança de instalações estratégicas e operações corporativas em ambientes de alto risco.

Essa parte da história não depende apenas de sua palavra. Em uma decisão da Corte de Apelação da Inglaterra e País de Gales no processo Okpabi v. Royal Dutch Shell, de 2018, os magistrados registraram que Sticco trabalhou para o grupo Shell entre 2003 e 2009, principalmente na área de corporate affairs (relações corporativas), envolvendo reputação, gestão de risco e segurança. A decisão considerou seu testemunho particularmente relevante para a discussão sobre quanto a matriz do grupo interferia no gerenciamento e na segurança das operações de petróleo na Nigéria. A decisão judicial pode ser consultada na íntegra.

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Segundo o resumo de seu próprio livro de memórias, Unconventional, Sticco trabalhou em países como Nigéria, Iraque, Paquistão e Lituânia, lidando com redes de inteligência, segurança privada, sequestros e proteção de infraestrutura energética.

A trajetória guarda uma ironia. O site que hoje ajuda a divulgá-lo pertence a John Donovan, crítico histórico da Shell, e Donovan afirma que Sticco chegou a integrar uma estrutura da empresa encarregada de acompanhar sua atividade e seus sites na Internet. Com o tempo, o homem observado pela segurança da Shell tornou-se divulgador de um ex-integrante dessa mesma estrutura. Donovan relata essa relação em seu site.

Nada disso prova qualquer coisa sobre OVNIs, mas prova algo mais modesto e importante para esta história: Gene Sticco não surgiu ontem de um fórum ufológico dizendo ter trabalhado “na inteligência” sem deixar vestígios verificáveis de sua carreira. O segundo capítulo é que exige bem mais cautela.

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A morte em Riga e a gaveta com um UAP

Em 2019 morreu o sogro de Sticco, o engenheiro letão Valerijs Černohajev. Segundo Sticco e sua mulher, Natalja Černohajeva-Sticco, pouco antes de morrer ele transferiu à filha um conjunto de documentos técnicos que teria produzido ao longo de décadas. A família diz ter encontrado ali 119 páginas datilografadas e manuscritas em russo, divididas posteriormente em 12 trabalhos técnicos sobre física, energia e propulsão.

O material viria a ser traduzido e organizado entre 2020 e 2024 e acabou publicado naquele ano como Engineering Infinity: Earth’s First Interstellar Blueprint — em tradução livre, algo como Engenharia do Infinito: o Primeiro Projeto Interestelar da Terra.

O acesso ao acervo também passou por mudanças recentes. Até setembro de 2026, parte dele era hospedada em um arquivo baseado na plataforma Omeka e em uma página própria da Blackgrove Global Risk. Ambos os endereços deixaram de funcionar normalmente nas últimas semanas. O conteúdo aparentemente está sendo concentrado em EngineeringInfinityBook.com, domínio igualmente ligado à Blackgrove, que agora se apresenta como o principal ponto de acesso às 119 páginas, aos 12 trabalhos numerados, às traduções e às análises produzidas pela equipe.

O novo site ainda referencia os endereços anteriores, sinal de que a migração do arquivo parece estar em andamento. Até o fechamento desta matéria, porém, os documentos não estavam disponíveis diretamente na nova página. O acesso ainda podia ser solicitado por meio de links recuperados de versões históricas da antiga página da Blackgrove no Internet Archive.

A principal melhora aqui é substituir “só é possível solicitar acesso ao material através de links extraídos” por algo menos truncado e mais preciso: “o acesso ainda podia ser solicitado por meio de links recuperados de versões históricas”. Também prefiro “Internet Archive” a “WebArchive”, que é o nome mais reconhecível do serviço.

Segundo o arquivo mantido pela própria equipe, Černohajev nasceu em 1958, formou-se no Instituto de Engenheiros de Aviação Civil de Riga e teria vivido ou trabalhado em ambientes ligados ao complexo aeroespacial soviético, incluindo Priozersk e Sary-Shagan. O site da família também o associa a Baikonur e a outras instalações soviéticas.

Aqui surge a primeira diferença importante entre Sticco e os papéis que ele divulga. Sua passagem pela Shell pode ser checada em documentos judiciais independentes; a trajetória de Černohajev e, sobretudo, a cadeia de custódia dos manuscritos são apresentadas essencialmente pelas mesmas pessoas que hoje publicam, traduzem, interpretam e comercializam o material. O arquivo é público, mas sua procedência ainda depende principalmente de seus próprios custodiantes.

A máquina

Representação esquemática do suposto disco voador concebido por Černohajev, com base em engenharia reversa, disponível no Substack de Sticco (reprodução)
Representação esquemática do suposto disco voador concebido por Černohajev, com base em engenharia reversa, disponível no Substack de Sticco (reprodução)

O núcleo do arquivo é composto por 119 páginas distribuídas, segundo seus responsáveis, em 12 trabalhos técnicos. Sticco publicou em maio de 2026 um longo resumo do que considera ser a arquitetura descrita nos manuscritos. O texto detalha sua interpretação do sistema.

A máquina seria, em termos simples, uma pequena usina de fusão integrada ao próprio sistema de propulsão, sem hélices, turbinas ou motores a jato convencionais. Em uma anotação reproduzida no material, Černohajev parte justamente da ideia de que os OVNIs observados não apresentam partes rotativas aparentes e, por isso, propõe um sistema baseado em plasma, campos magnéticos e geração magnetohidrodinâmica.

A estrela em miniatura. O combustível seria deutério e, em algumas configurações, lítio-6. Pistões comprimiriam o material a pressões extremas, enquanto campos magnéticos manteriam o plasma confinado. O objetivo seria sustentar reações de fusão com emissão relativamente baixa de nêutrons, reduzindo a massa de blindagem necessária.

A gaiola magnética. Parte da arquitetura empregaria dezenas de solenoides capazes, segundo os cálculos apresentados, de produzir campos da ordem de 16,65 tesla.

Eletricidade sem turbina. O plasma atravessaria campos magnéticos e sua energia seria convertida diretamente em eletricidade por um gerador magnetohidrodinâmico — MHD — dispensando o conjunto clássico de turbina e gerador.

Empuxo sem uma explicação satisfatória. É precisamente aqui que o castelo começa a balançar. A dedução do mecanismo de propulsão aparece no Trabalho nº 2, mas uma das páginas necessárias à sequência dos cálculos está ausente. O próprio Sticco admite que o mecanismo completo de empuxo não pode ser reconstruído com o material preservado. A lacuna é reconhecida em sua própria análise dos documentos.

O projeto ainda descreve um veículo compacto, liso e aproximadamente lenticular. Sem asas, cauda ou escapamento convencional, argumenta-se que essas superfícies deixariam de ter função. Até aqui, apesar da enorme distância entre um desenho e uma máquina funcional, pelo menos existe alguma correspondência com áreas reais de pesquisa: confinamento magnético de plasma, fusão aneutrônica, geração MHD e magnetos supercondutores são campos legítimos de engenharia e física. O problema começa quando o documento tenta explicar por que tudo isso deveria fazer um disco voar.

Quando Einstein entra no disco

Parte dos manuscritos abandona a engenharia relativamente reconhecível e avança para uma teoria chamada por Černohajev de “Dualismo Gravitacional-Carga”. Nela, gravidade, campos elétricos, neutrinos, fluxo do tempo e estrutura do Universo aparecem conectados por uma estrutura alternativa à relatividade. O Trabalho nº 1 do arquivo apresenta essa tentativa de revisão teórica.

Esse ponto merece atenção porque foi precisamente onde surgiu uma das primeiras críticas técnicas detalhadas depois que a história viralizou no Reddit. Um usuário argumentou que os experimentos citados pelo manuscrito como dificuldade para Einstein fizeram, historicamente, o contrário: forneceram evidências compatíveis com a relatividade. Também apontou problemas na interpretação da astronomia apresentada pelo autor e no uso de bobinas internas como fonte de propulsão.

Um exemplo é o experimento de Hafele e Keating, de 1971. Quatro relógios atômicos de césio foram levados em aviões comerciais ao redor do planeta em sentidos opostos, e as diferenças registradas ficaram de acordo, dentro das incertezas experimentais, com as previsões relativísticas. O trabalho foi publicado na revista Science.

Isso não significa que uma teoria alternativa à relatividade seja impossível por definição. Ciência não funciona por decreto de autoridade, mas existe uma exigência pesada para quem propõe substituí-la: a nova teoria precisa reproduzir os resultados que a teoria anterior já explica e, idealmente, fazer previsões novas que possam ser testadas. Até agora, nada disso foi demonstrado para o “Dualismo Gravitacional-Carga”.

Neutrinos que fazem coisas demais

Outro trecho vulnerável é a importância dada aos neutrinos. Nos textos do arquivo, eles aparecem ligados a um suposto fluxo “neutrino-magnético” que participaria da física da propulsão, mas neutrinos são justamente partículas famosas por interagir extremamente pouco com a matéria e não possuírem carga elétrica.

A crítica apareceu imediatamente numa discussão do Reddit, com leitores observando que neutrinos não fornecem, dentro da física estabelecida, o tipo de interação eletromagnética pressuposta no modelo. Isso não prova que cada equação dos manuscritos esteja errada, mas mostra algo talvez mais importante: algumas premissas fundamentais do modelo exigiriam nova física, e não simplesmente engenharia avançada.

O que Sticco reivindica — e o que admite

Sticco argumenta que há paralelos entre o sistema descrito nos papéis e tecnologias pesquisadas décadas depois. Um de seus exemplos é a arquitetura de confinamento magnético do projeto WHAM, da Universidade de Wisconsin–Madison, financiado pela ARPA-E. O programa é real e busca desenvolver um reator de fusão baseado em espelho magnético, empregando magnetos supercondutores de alto campo. A ARPA-E descreve oficialmente o projeto.

Mas a existência de tecnologias semelhantes não demonstra uma linhagem secreta entre elas. Espelhos magnéticos, fusão, plasma e geração magnetohidrodinâmica são temas conhecidos há décadas; encontrá-los tanto em manuscritos soviéticos quanto em projetos modernos pode ser interessante como comparação histórica, mas não identifica, por si só, uma origem comum — muito menos uma nave extraterrestre desmontada em algum laboratório soviético.

O próprio Sticco é mais cuidadoso do que parte da divulgação em torno do caso. Ele diz não afirmar que o projeto seja exequível, que a nave seja necessariamente a mesma descrita em encontros militares norte-americanos, que cada elemento de sua física esteja correto ou que alguém tenha realmente construído o sistema. Também admite que ninguém demonstrou experimentalmente, numa única plataforma, a integração de fusão compacta, confinamento magnético, conversão MHD e o mecanismo de propulsão sugerido pelos documentos. Essas ressalvas aparecem em sua própria apresentação do projeto.

Como evidência de antiguidade, a equipe do ex-militar apresenta sua própria análise dos papéis, citando marcas de clipes enferrujados, diferenças de máquina de escrever e outras características físicas compatíveis, segundo ela, com produção ao longo de décadas. O problema volta a ser a independência: quem preserva o documento, investiga sua procedência, traduz o russo, interpreta a engenharia e publica a conclusão pertence ao mesmo círculo.

A história ganha uma empresa

Em 2026, o caso deixou de ser apenas um livro e ganhou uma estrutura empresarial. Sticco criou a Blackgrove Global Risk, apresentada como uma empresa de inteligência de risco voltada, entre outras coisas, à exposição institucional causada por atividades aéreas não atribuídas. O site da companhia apresenta essa abordagem.

O discurso abandona parcialmente a pergunta tradicional da ufologia — “o que são os OVNIs?” — e tenta transformá-la em outra: o que uma empresa faz quando algo não identificado interfere em seu espaço aéreo, sua infraestrutura ou seu risco regulatório? A empresa vende análise para setores como infraestrutura crítica, seguros, investidores e executivos. A área de consultoria da Blackgrove descreve esse serviço.

É uma transformação curiosa: a ufologia, tradicionalmente dependente de conferências, documentários e livros, ganha aqui a linguagem de risk intelligence. O disco voador entra no PowerPoint do conselho de administração.

Um insider por fora

O perfil lembra personagens antigos da ufologia. Do coronel Philip J. Corso, militar que dizia ter participado da distribuição de tecnologia recuperada em Roswell, Sticco carrega a moldura narrativa do homem que conheceu engrenagens institucionais invisíveis ao público. De J. J. Benítez, cuja série Operação Cavalo de Troia nasce de documentos e fontes cuja cadeia de verificação depende basicamente do próprio autor, surge outra semelhança: o objeto central da história permanece sob controle de quem o apresenta.

Existe, contudo, uma diferença relevante. A parte corporativa da vida de Gene Sticco é documentada. O tribunal britânico confirma sua passagem pela Shell e registra a importância de seu testemunho sobre a operação nigeriana. A documentação judicial é independente de Sticco.

Isso faz dele um personagem mais interessante do que o clássico “ex-agente secreto” cuja carreira evapora quando alguém procura documentação. Mas credibilidade biográfica não é transferível: ter trabalhado em segurança nuclear ou na Shell não autentica automaticamente os papéis do sogro.

O esquema de um OVNI, de graça na Internet

Em 22 de setembro de 2026, a história ganhou novo impulso no Reddit. Uma postagem no r/aliens apresentou o caso com uma manchete praticamente pronta para viralizar: um cientista soviético morto teria deixado “um esquema de 119 páginas sobre como construir um OVNI”, disponível gratuitamente na Internet.

O autor resumiu a estrutura de 30 metros, os solenoides, a fusão e o “Dualismo Gravitacional-Carga”, escreveu que os documentos se alinhariam a pesquisas militares da Guerra Fria e conceitos aeroespaciais modernos e pediu a físicos e engenheiros que examinassem os cálculos. A postagem também acrescentou um alerta dizendo que o site que disponibilizava gratuitamente as publicações havia retirado os livros. O endereço indicado, porém, era justamente o da Blackgrove Global Risk, empresa de Sticco.

Foi nos comentários que a história ficou mais interessante. Entre piadas sobre comprar centenas de milhares de solenoides e construir a nave no quintal, surgiram críticas relativamente específicas. A principal delas atacou três áreas: relatividade, propulsão e astronomia. Segundo o comentário, os experimentos usados como argumento contra Einstein foram interpretados de forma inadequada, forças entre bobinas internas não fornecem automaticamente empuxo líquido ao veículo e alguns números astronômicos apresentados no material estariam incorretos. Também saíram de lá os questionamentos mais incisivos os neutrinos e a dificuldade de convertê-los no tipo de mecanismo eletromagnético sugerido pelo texto.

Nada disso equivale a uma revisão científica do corpus: os comentaristas são anônimos e não há garantia pública de suas credenciais. Mas a discussão demonstra uma coisa que a própria forma divulgação do arquivo dificultou: quando alguém começa de fato a olhar a física, o problema deixa rapidamente de ser “isso parece sofisticado?” e passa a ser “essas equações descrevem alguma coisa que a natureza realmente faz?”

Um disco voador de papel

E é aí que a história volta ao ponto inicial. A abertura dos manuscritos ao público é positiva: é muito melhor ter 119 páginas disponíveis para exame do que ouvir alguém dizer que possui um documento extraordinário guardado num cofre que ninguém pode ver. Mas a obtenção dos arquivos em si nos caminhos ofertados não é tão fácil assim (ainda depende de autorização do autor) e, além disso, acesso não é validação.

A existência física dos papéis não demonstra que tenham sido produzidos quando se afirma. A idade dos papéis não provaria que Černohajev participou de um programa soviético de engenharia reversa. Sua participação num programa não provaria que havia uma nave extraterrestre. E mesmo que houvesse uma nave, isso ainda não faria as equações estarem corretas. São perguntas diferentes, frequentemente comprimidas numa única narrativa.

No fundo, o caso mostra uma atualização bastante moderna do “padrão Corso e Benítez”. Agora há PDFs, arquivos digitais, newsletters, banco de dados, assinaturas, inteligência de risco e uma “sala de leitura” online. A aparência é muito mais transparente, mas transparência de acesso não substitui verificação independente.

A autenticidade, a datação, a tradução e boa parte da história de procedência ainda chegam ao público pelo mesmo núcleo familiar e institucional que promove o material. A física pode ser auditada por terceiros, e as primeiras tentativas públicas já encontraram problemas importantes.

Isso não transforma automaticamente Engineering Infinity em fraude, nem prova que Černohajev tenha inventado conscientemente o que escreveu. Há outra possibilidade, bem menos cinematográfica: ele pode simplesmente ter passado décadas tentando construir uma teoria própria do Universo e uma máquina extraordinária que, no papel, parecia funcionar.

Por enquanto, é exatamente isso que existe: um disco voador de papel. E, para saber se algum dia ele poderá deixar a gaveta, não será necessário mais um insider, mais um podcast ou mais um documento desclassificado. Será necessária a física.

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Jeferson Martinho

Jornalista, o autor é empresário de comunicação, dono de agência de marketing digital e assessoria de imprensa, publisher de um portal de notícias regionais na Grande São Paulo, fundador e editor do Portal Vigília. Apaixonado por Ufologia de um ponto de vista científico, é autor do livro "Nem Todo OVNI é Extraterrestre - Um guia para entusiastas da ufologia que não querem ser iludidos", disponível na Amazon.

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