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Vídeo de suposta “nave-mãe” associado a Jake Barber é (muito) anterior à conferência de Estocolmo

Apresentação de suposto vídeo de nave-mãe por Jake Barber em Estocolmo reacende debates sobre UAPs ovais, embora continuem faltando dados e informações verificáveis à narrativa

Frame capturado do Paranormal Caught On Camera, de Jim Martin, exibido em 2017. Crédito: Canal infamousfanclub/YouTube

Frame capturado do Paranormal Caught On Camera, de Jim Martin, exibido em 2017. Crédito: Canal infamousfanclub/YouTube

Um vídeo que passou a circular nas redes sociais após uma conferência sobre fenômenos anômalos não identificados realizada em Estocolmo, na Suécia, acabou associado a uma das mais extraordinárias alegações recentes do ex-militar norte-americano Jake Barber: a existência de uma espécie de “nave-mãe” próxima da Terra capaz de liberar objetos menores.

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A investigação da origem das imagens, porém, mostra que o registro não surgiu na conferência sueca e já circulava publicamente muito antes das declarações de Barber.

O Portal Vigília localizou uma versão anterior do material publicada no YouTube, em que a gravação aparece com fundo predominantemente azulado, sem o tratamento visual aplicado posteriormente em algumas republicações nas redes sociais. As imagens foram exibidas originalmente no programa Paranormal Caught on Camera, com o relato de Jim Martin, que em outubro de 2017, em Long Beach, Califórnia, filmou um suposto objeto voador não identificado (OVNI) que parecia ser uma “nave-mãe” liberando diversos objetos menores.

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Foi Martin quem descreveu ter visto um objeto brilhante no céu que, inicialmente, ejetou três esferas em formação triangular e, logo depois, uma grande frota de objetos menores de forma rápida. E ele acreditava que atraiu os objetos por meio de sua própria consciência e intenção de iniciar um contato.

Em 12 de março de 2026, o perfil JimFilmsUFOs, o mesmo Jim Martin, voltou a publicar o vídeo no X, mas com aparência modificada, alegando tratarse de uma captação em infravermelho (bem à moda em tempos de liberação de imagens oficiais), apresentando-o como um registro de uma suposta “nave-mãe” liberando dezenas de objetos menores. Três dias depois, em 15 de março, publicou também uma versão de análise, apenas aplicando rastreamento de movimento às imagens.

Essa cronologia é fundamental: a filmagem é anterior em vários anos à apresentação de Barber em Estocolmo e sua circulação pública também antecede a conferência.

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Imagem reprisada em 12 de março de 2026 por Jim Martin em seu perfil no X, JimFilmsUFOs
Imagem reprisada em 12 de março de 2026 por Jim Martin em seu perfil no X, JimFilmsUFOs

Uma coincidência visual extraordinária com a história de Barber

O interesse renovado pelo vídeo é fácil de entender. Durante sua participação remota no Beyond Sessions #1, realizado em Estocolmo em 1º de outubro, Jake Barber afirmou ter recebido informações sobre uma grande estrutura posicionada na baixa órbita terrestre ou na alta atmosfera.

Segundo ele, essa estrutura funcionaria como uma espécie de plataforma capaz de liberar objetos menores em formato de ovo para missões de reconhecimento na Terra. Meses antes, JimFilmsUFOs já descrevia seu próprio vídeo justamente como uma “nave-mãe” liberando uma frota de OVNIs.

 

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A semelhança entre a descrição de Barber e aquilo que aparentemente ocorre nas imagens tornou a associação quase inevitável quando o registro voltou a circular após a conferência. Mas a cronologia demonstra que o vídeo não foi produzido como evidência da história de Barber. Nem veio de “fontes do governo” e tampouco quem qualquer histórico de pesquisa científica.

Não sabemos se o vídeo foi exibido em Estocolmo

Outra distinção continua necessária. Até agora, não existe confirmação de que esse vídeo específico tenha sido apresentado durante a intervenção de Barber na conferência sueca.

O evento organizado pelo Beyond Institute restringia gravações pelo público, e apenas pequenos trechos filmados de maneira não autorizada chegaram posteriormente às redes sociais.

É possível que o material tenha sido utilizado durante a apresentação. Também é possível que tenha sido associado à fala de Barber somente depois, justamente pela extraordinária semelhança entre a narrativa e as imagens.

Até que surja uma gravação completa da apresentação ou uma confirmação dos organizadores ou participantes, não há base suficiente para afirmar que Barber exibiu esse registro em Estocolmo.

Quando uma imagem antiga encontra uma narrativa nova

A descoberta da origem anterior do vídeo resolve a questão de sua relação temporal com a conferência, mas não resolve o fenômeno observado. Mas o episódio mostra com especial clareza como uma imagem ambígua pode adquirir um significado completamente diferente quando colocada ao lado de uma narrativa compatível.

O registro atribuído a Long Beach já existia anos antes. Barber, por sua vez, apresentou em 2026 uma história segundo a qual uma grande estrutura próxima da Terra liberaria objetos menores. Apesar disso, não há qualquer confirmação de fonte, natureza da informação ou análise externa.

Ainda assim, quando ambas as histórias passaram a circular juntas, a impressão produzida foi a de que uma coisa confirmava a outra.

E não: não confirma.

O que já é possível estabelecer é algo mais simples e importante: o vídeo não nasceu em Estocolmo, não surgiu depois da fala de Barber e as versões que passaram a circular nas redes sociais apresentam processamento visual diferente daquele observado no registro original.

Suposto vídeo de recuperação de UAP em forma de ovo reacende debate sobre programas secretos e tecnologias não humanas (Reprodução)
Suposto vídeo de recuperação de UAP em forma de ovo reacende debate sobre programas secretos e tecnologias não humanas (Reprodução)

Barber amplia a história dos “ovos”

Neste contexto, narrativa que teria sido apresentada em Estocolmo amplia consideravelmente as alegações feitas por Barber desde sua entrada no debate público sobre UAPs.

De acordo com relatos publicados logo depois do evento, incluindo uma discussão no Reddit que reproduziu informações da apresentação, Barber afirmou que a estrutura cilíndrica funcionaria como uma plataforma a partir da qual seriam enviados objetos em formato de ovo.

Alguns seriam autônomos; outros, segundo ele, poderiam ser ocupados por entidades descritas como Greys, os tradicionais seres cinzentos da cultura ufológica. Nenhuma evidência física ou documental capaz de sustentar essa afirmação foi apresentada publicamente.

Barber também teria retomado declarações sobre os chamados orbes luminosos. Segundo sua interpretação, alguns desses fenômenos seriam manifestações visíveis de objetos físicos que, uma vez no solo e após a dissipação da energia que os envolveria, revelariam aparatos tecnológicos estruturados, muitas vezes com formatos pouco aerodinâmicos.

Novamente, trata-se de uma alegação. Até agora não foi disponibilizado para análise científica independente qualquer desses supostos equipamentos.

A sucessão de afirmações cria uma narrativa progressivamente mais elaborada: pontos luminosos seriam veículos; alguns desses veículos esconderiam estruturas físicas; os conhecidos “ovos” fariam missões de reconhecimento; e estes, por sua vez, teriam origem em uma grande plataforma cilíndrica próxima da Terra.

Quanto mais extraordinária se torna a história, porém, maior também deveria ser a qualidade das evidências necessárias para sustentá-la.

Do “ovo” de 2025 à nave-mãe

O elemento central dessa narrativa não surgiu em Estocolmo.

Em janeiro de 2025, Barber ganhou projeção internacional depois de aparecer em uma reportagem da rede norte-americana NewsNation, conduzida pelo jornalista Ross Coulthart. Na ocasião, declarou ter participado de operações secretas de recuperação de objetos de origem desconhecida.

A reportagem apresentou um vídeo mostrando um objeto branco e oval supostamente transportado sob um helicóptero por um longo cabo. O caso ficou conhecido dentro da comunidade ufológica como o “ovo”.

Como o Portal Vigília destacou na época, a própria NewsNation informou que a gravação havia sido obtida de uma fonte independente e não identificada, e não fornecida diretamente por Barber. Mesmo assim, a combinação da entrevista com aquelas imagens acabou vinculando de forma quase inseparável o ex-militar ao objeto.

Também nunca foi apresentada publicamente uma cadeia de custódia capaz de estabelecer onde o vídeo foi gravado, quem operava o helicóptero, qual era a natureza do objeto ou para onde ele estava sendo levado.

A nova história apresentada em Estocolmo funciona, assim, como uma considerável ampliação daquele primeiro episódio: os misteriosos “ovos” agora teriam uma origem definida dentro da narrativa — uma estrutura cilíndrica que permaneceria próxima da Terra e os liberaria periodicamente.

É uma evolução expressiva para uma história cuja evidência original continua sem verificação independente.

Jake Barber apresentou sua história completa, que seria corroborada por um vídeo independente (Reprodução)
Jake Barber apresentou sua história completa, que seria corroborada por um vídeo independente (Reprodução)

Skywatcher, psiônicos e governo

Barber também voltou a falar da Skywatcher, organização criada em torno de iniciativas privadas de investigação e tentativa de interação com UAPs.

O grupo tornou-se conhecido por incorporar métodos pouco convencionais, incluindo a utilização dos chamados “ativos psiônicos” — indivíduos que supostamente seriam capazes de estabelecer algum tipo de interação mental com os fenômenos.

Barber já afirmou anteriormente que essas práticas teriam produzido contatos e aproximações de objetos. Até hoje, porém, não foram divulgados protocolos experimentais reproduzíveis capazes de demonstrar cientificamente que essas supostas interações ocorram.

Em Estocolmo, ele afirmou ainda que a Skywatcher mantém estreita coordenação com o governo dos Estados Unidos, embora tenha ressaltado que isso não significa que trabalhe diretamente para o governo.

Segundo Barber, uma eventual divulgação da realidade dos UAPs não deveria permanecer exclusivamente nas mãos da iniciativa privada devido às possíveis implicações de segurança nacional. Não há documentação pública conhecida que permita determinar a extensão — ou mesmo a natureza — dessa alegada coordenação governamental.

Dois eventos distintos, mas com boa parte dos mesmos participantes

A apresentação de Barber ocorreu no Beyond Sessions #1, evento público realizado em 1º de outubro no Hilton Stockholm Slussen. No dia anterior, porém, Estocolmo havia recebido outro encontro sobre UAPs, desta vez de perfil acadêmico, no Nordita, instituto sediado na capital sueca e ligado à Universidade de Estocolmo.

Formalmente, eram eventos diferentes. Na prática, contudo, houve uma clara continuidade entre eles.

A própria página oficial do encontro do Nordita informava que vários dos especialistas internacionais presentes estavam em Estocolmo também para participar do evento público promovido pelo Beyond Institute no dia seguinte.

A comparação das programações reforça essa relação. Beatriz Villarroel, Dennis Åsberg, Stephen Bruehl e Marik von Rennenkampff, por exemplo, aparecem ligados ao encontro acadêmico e também à programação do Beyond Institute, enquanto o evento público acrescentava ao grupo nomes como Jake Barber, Dylan Borland e outros personagens ligados às discussões contemporâneas sobre UAPs.

Uma reconstituição dos eventos publicada após a conferência também chama a atenção para essa sobreposição de participantes e para a sequência de encontros realizados na capital sueca.

Os dois eventos parecem, portanto, ter aproveitado em grande medida a mesma concentração de pesquisadores, ex-militares, analistas e personagens ligados ao debate sobre UAPs que estavam reunidos em Estocolmo naquela semana, embora cada encontro tivesse proposta e organização próprias.

Dra. Beatriz Villarroel acredita ter descoberto objetos artificiais em orbita geoestacionária na Terra (Reprodução Ted Talks Youtube_Fotomontagem)
Dra. Beatriz Villarroel que diz ter descoberto objetos artificiais em orbita geoestacionária na Terra (Reprodução Ted Talks Youtube/Fotomontagem)

Ciência e alegações extraordinárias no mesmo ecossistema

O contraste entre os dois ambientes é particularmente interessante. O encontro realizado no Nordita, intitulado Unidentified Anomalous Phenomena: Emerging Scientific Evidence and Government Interest — em português, Fenômenos Anômalos Não Identificados: evidências científicas emergentes e interesse governamental — declarava como objetivo analisar o assunto a partir de observações físicas, evidências empíricas e interesse governamental documentado.

Entre os pesquisadores ligados ao encontro estava a astrônoma sueca Beatriz Villarroel, conhecida por estudos envolvendo fontes luminosas transientes registradas em placas astronômicas anteriores ao lançamento do Sputnik, em 1957.

São pesquisas fundamentadas em dados astronômicos e análise estatística e que, independentemente das interpretações mais ousadas propostas em torno delas, podem ser submetidas aos métodos convencionais de avaliação científica.

Já no encontro público realizado no dia seguinte, parte daquele mesmo ecossistema de participantes passou a dividir espaço com relatos sobre naves-mãe cilíndricas, objetos em forma de ovo, entidades descritas como Greys, tecnologias desconhecidas e práticas psiônicas.

A proximidade não torna equivalentes esses diferentes tipos de afirmação. Pelo contrário: reforça a necessidade de distinguir cuidadosamente aquilo que pode ser observado, medido e reproduzido daquilo que permanece sustentado fundamentalmente por testemunhos.

O próprio programa acadêmico do Nordita colocava a ênfase justamente em observações físicas e evidências empíricas.

Quando o contexto muda, a imagem muda junto

O aspecto mais revelador deste episódio talvez não esteja propriamente nas luzes registradas sobre Long Beach, mas no caminho percorrido pelas imagens quase uma década depois.

Um vídeo originalmente apresentado como uma experiência pessoal de Jim Martin reapareceu com tratamento visual diferente e acabou, meses depois, encaixado quase perfeitamente em uma nova narrativa sobre uma suposta estrutura orbital descrita por Jake Barber. Bastou a semelhança entre as duas histórias para que, nas redes sociais, origem e interpretação começassem a se confundir.

Esse processo é particularmente relevante no debate sobre UAPs. Registros antigos podem ressurgir descontextualizados, ganhar novas legendas, receber filtros ou análises visuais e, por fim, ser apresentados como ilustração de acontecimentos com os quais originalmente não tinham qualquer relação conhecida.

No caso de Long Beach, descobrir a procedência do vídeo não explica o que Jim Martin filmou em 2017. Mas permite estabelecer algo igualmente importante: a conexão com a história contada por Barber em Estocolmo foi construída posteriormente e não faz parte da origem conhecida das imagens.

Antes de procurar uma nave-mãe no céu, portanto, este caso oferece uma lição bem mais concreta sobre a Terra: na era das redes sociais, rastrear a história de uma imagem pode ser tão importante quanto tentar identificar aquilo que ela mostra.

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Jeferson Martinho

Jornalista, o autor é empresário de comunicação, dono de agência de marketing digital e assessoria de imprensa, publisher de um portal de notícias regionais na Grande São Paulo, fundador e editor do Portal Vigília. Apaixonado por Ufologia de um ponto de vista científico, é autor do livro "Nem Todo OVNI é Extraterrestre - Um guia para entusiastas da ufologia que não querem ser iludidos", disponível na Amazon.

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