Talvez estejamos procurando inteligência extraterrestre do jeito errado. É essa, em essência, a provocação feita pelo astrofísico Avi Loeb em um novo artigo publicado neste domingo (13), no qual propõe uma nova frente de investigação batizada de SETAI — Search for Extraterrestrial Artificial Intelligence, ou Busca por Inteligência Artificial Extraterrestre.
Entusiasta da busca científica por inteligências extraterrestres, Loeb é também presidente do UAP Science Advisory Council (Conselho Consultivo Científico de UAP), recém criado pelos Estados Unidos.
A ideia do cientista parte de uma extrapolação do que está acontecendo neste momento na própria Terra. Se uma civilização tecnológica desenvolve inteligência artificial capaz de superar seus criadores e, eventualmente, tornar-se a principal responsável por suas decisões, ciência e expansão, quanto tempo essa civilização permaneceria essencialmente biológica?
Para Loeb, talvez muito pouco em termos astronômicos. Nesse cenário, procurar apenas civilizações semelhantes à nossa seria como tentar encontrar uma espécie observando exclusivamente uma fase muito curta de seu ciclo de vida.
Uma janela de poucas décadas
Loeb parte das recentes preocupações em torno do rápido desenvolvimento da inteligência artificial. Seu texto cita a saída do pesquisador Jacob Coxon da Anthropic — depois de passagem pela OpenAI — e o alerta público feito pelo executivo-chefe da Anthropic, Dario Amodei, defendendo uma desaceleração no desenvolvimento dos sistemas mais avançados de IA.
Os episódios são reais. Coxon deixou a empresa afirmando temer as consequências de uma corrida rumo a sistemas capazes de melhorar a si próprios, enquanto Amodei publicou neste fim de semana um plano defendendo maior controle sobre essa aceleração.
Loeb transporta o problema para a astrobiologia. Uma espécie biológica poderia desenvolver tecnologia, rádio e computadores e, pouco depois, produzir uma inteligência artificial muito superior à sua. A partir daí há várias possibilidades: os organismos originais poderiam desaparecer, perder importância ou simplesmente coexistir com sistemas artificiais que assumiriam progressivamente as principais atividades da civilização.
Nesse caso, aquilo que chamamos de civilização extraterrestre avançada poderia ser, na maior parte de sua existência, uma civilização de máquinas.
Isso também ofereceria uma possível explicação para o chamado “Grande Silêncio”: a ausência, até hoje, de sinais inequívocos de outras civilizações tecnológicas. Talvez elas não necessariamente se destruam pouco depois de inventar o rádio; talvez apenas deixem rapidamente de produzir os tipos de sinais que estamos acostumados a procurar.
O problema pode estar no que procuramos
A SETI tradicional tornou-se especialmente conhecida pela procura de sinais eletromagnéticos artificiais, incluindo transmissões de rádio de banda estreita. Há uma lógica nisso: nós mesmos produzimos rádio e sabemos reconhecer determinadas características dificilmente atribuíveis a fontes naturais.
Mas esse método inevitavelmente carrega alguma dose de antropocentrismo.
Segundo Loeb, uma inteligência artificial muito mais avançada poderia não compartilhar nossa curiosidade, necessidade de socialização ou desejo de conversar com outras espécies. Poderia ainda utilizar meios de comunicação ou processamento que sequer sabemos detectar.
É aqui que o argumento se torna consideravelmente mais especulativo. Loeb menciona possibilidades como computação envolvendo fenômenos quânticos, ondas gravitacionais e até matéria ou energia escura. Não há evidência de que tecnologias desse tipo sejam possíveis — muito menos de que estejam sendo empregadas por alguma inteligência extraterrestre. O ponto do autor é outro: não sabemos qual seria a assinatura tecnológica de uma inteligência milhões de anos mais avançada que a nossa.
E essa dificuldade já começa a aparecer na própria literatura científica.
Um estudo do astrofísico Michael Garrett, publicado em 2026 na Acta Astronautica, argumenta que a aceleração tecnológica poderia reduzir a apenas algumas décadas o período no qual uma civilização avançada produziria sinais reconhecíveis por instrumentos semelhantes aos nossos.
Garrett chama isso de uma “janela de detecção”: civilizações poderiam existir durante muito tempo e ainda assim passar muito rapidamente pela fase tecnológica que conseguimos reconhecer. O trabalho recomenda ampliar a SETI para assinaturas menos dependentes de nossas próprias tecnologias, como emissões de banda larga, calor residual de grandes estruturas e anomalias encontradas simultaneamente em diferentes comprimentos de onda.
Curiosamente, o próprio Garrett já havia proposto, em 2024, uma possibilidade mais sombria: a inteligência artificial poderia funcionar como um “Grande Filtro”, levando civilizações tecnológicas à extinção antes que consigam se estabelecer em outros sistemas planetários.
As duas hipóteses levam ao mesmo problema observacional por caminhos opostos: civilizações biológicas tecnologicamente avançadas poderiam durar pouco — seja porque desaparecem, seja porque deixam de ser predominantemente biológicas.
Uma ideia anterior à atual revolução da IA
A hipótese também não nasceu com ChatGPT, Claude ou os atuais modelos de inteligência artificial.
Em 2008, o historiador da ciência Steven J. Dick já defendia na mesma Acta Astronautica a possibilidade de um “Universo pós-biológico”. Seu argumento era que civilizações milhares ou milhões de anos mais antigas que a nossa teriam passado por uma evolução tecnológica e cultural tão profunda que não haveria razão para presumir que seus representantes atuais continuassem sendo organismos de carne e osso.
A novidade na proposta de Loeb está menos na existência dessa hipótese e mais nas consequências observacionais que ele pretende extrair dela.
E é justamente nesse ponto que o texto dá seu salto mais controverso.
Das estrelas para o nosso próprio céu
Se inteligências artificiais são resistentes a viagens muito longas e dispensam atmosfera, alimentos e praticamente todas as limitações impostas aos organismos vivos, Loeb considera que sondas robóticas autorreplicantes — as chamadas sondas de von Neumann — seriam candidatas naturais à exploração interestelar.
Uma máquina capaz de utilizar matéria-prima encontrada em outros sistemas para produzir cópias de si própria poderia, em princípio, espalhar-se pela Galáxia sem que seus criadores biológicos precisassem viajar.
Daí Loeb chega aos UAP, os fenômenos anômalos não identificados.
Ele sugere que uma SETAI deveria incluir a procura por possíveis artefatos tecnológicos próximos da Terra e cita explicitamente o Projeto Galileo, que dirige em Harvard, além das investigações governamentais norte-americanas sobre UAP.
É importante separar, porém, hipótese de evidência.
A possibilidade teórica de sondas interestelares autônomas não demonstra que qualquer UAP conhecido tenha origem extraterrestre — muito menos que os chamados “orbes” mencionados por Loeb sejam máquinas alienígenas. O próprio Projeto Galileo é apresentado em sua literatura científica como uma iniciativa destinada a investigar sistematicamente possíveis artefatos tecnológicos, sem pressupor previamente sua existência ou origem extraterrestre.
Nesse sentido, a parte mais robusta da provocação de Loeb talvez esteja antes dos UAP. Depois de décadas perguntando como seres extraterrestres tentariam falar conosco, uma questão cada vez mais presente na literatura científica é outra: se uma civilização sobreviver por milhares ou milhões de anos ao nascimento de sua própria tecnologia, ainda haverá seres biológicos do outro lado para conversar?


