Trump escreveu discurso para confirmar presença extraterrestre?

Trump escreveu discurso para confirmar presença extraterrestre?
Presidente Donald Trump já prometeu um relatório sobre drones misteriosos que nunca saiu. Agora fará a revelação final?

Imagine a cena: o segredo mais bombástico da história da humanidade, a confirmação de que não estamos sozinhos, está prestes a ser revelado, e o escolhido para receber esse “vazamento” é um cineasta britânico que dirigiu uma dúzia de documentários sobre temas paranormais (incluindo Ufologia). O diretor Mark Christopher Lee afirma ter sido contatado por um insider da administração Trump com a notícia de que o ex-presidente já redigiu um discurso de divulgação histórica sobre OVNIs.

----publicidade----

É de uma conveniência quase poética que esse segredo intergaláctico tenha caído no colo de alguém que ganha a vida explorando mistérios em produções de nicho sobre alienígenas e a família real, e mesmo assim tenha reverberado na Internet como se fosse uma notícia confiável, segundo alguns perfis.

Vários usuários do subReddit r/UFOs, no entanto, suspeitaram da declaração de Christopher Lee. Como bem notado pelos observadores mais céticos, Trump poderia ter chamado qualquer figura de relevo mundial ou canal oficial de notícias para esse momento histórico, mas preferiu um documentarista britânico de pequeno porte. E o mais impressionante: esse mensageiro supostamente quebrou o acordo de confidencialidade (NDA) da oportunidade da sua vida, correndo para a imprensa na hora, sem qualquer hesitação.

O detalhe mais irônico dessa narrativa é que Mark Christopher Lee não é o diretor de “The Age of Disclosure“, o filme que estaria no radar da Casa Branca. A obra de é Dan Farah, quem sugeriu, em entrevista, que o lançamento de seu documentário poderia catalisar o anúncio presidencial. A confusão sobre quem realmente detém a informação apenas reforça o tom de amadorismo desse rumor, que parece ter sido fabricado mais para gerar cliques e promover filmes do que para realmente mudar o curso da civilização humana.

Dan diretor de The Age of Disclosure 2025 03 15 2025 03 16 PM
Dan Farah, diretor de The Age of Disclosure

No final das contas, o público mais atento aponta que a ideia de Trump escrevendo um discurso formal e mantendo-o em segredo desafia tudo o que se sabe sobre seu estilo de comunicação. Para muitos, a palavra “escrito” é, por si só, o maior motivo para ceticismo, já que o ex-presidente é conhecido por seu improviso e por ignorar roteiros preparados por sua equipe. Se existe um discurso pronto para ser lido em julho de 2026, ele provavelmente é o segredo mais mal guardado desde o incidente em Roswell.

A eterna espera pelo dia da revelação

A ufologia vive de ciclos eternos onde a verdade absoluta está sempre a “duas semanas” ou a “alguns meses” de distância, e esse novo boato de Lee é apenas o mais recente capítulo dessa novela. A promessa de uma revelação em 8 de julho de 2026, coincidindo com o aniversário do caso Roswell, segue o roteiro clássico de criar expectativa para datas que raramente entregam algo além de frustração. É o fenômeno conhecido como “hambúrguer de nada”, onde se promete um banquete de evidências e se entrega apenas silêncio e novos adiamentos.

Essa relação cíclica de anúncios bombásticos sem qualquer fundamento serve como uma engrenagem perfeita para manter o tema em evidência sem nunca precisar apresentar provas físicas concretas. Frequentemente, essas datas surgem em momentos de pressão política, servindo como uma distração estratégica para tirar o foco da opinião pública de escândalos terrestres e arquivos sensíveis. Internautas sugerem que o tema dos OVNIs é mantido como a cortina de fumaça definitiva, usada sempre que o governo precisa de um novo foco de atenção.

----publicidade----

O ceticismo da comunidade é alimentado pelo fato de que, apesar de dezenas de insiders e denunciantes prometerem revelações, o segredo permanece sob a guarda de agências que demonstram desprezo pelo Congresso. Enquanto cineastas prometem discursos presidenciais, parlamentares americanos reclamam publicamente que são impedidos de acessar até as informações mais básicas em salas de segurança. O contraste entre a facilidade com que um diretor consegue um suposto vazamento e a dificuldade de senadores em obter dados físicos é, no mínimo, suspeito.

A história de Lee e o suposto manuscrito de Trump entram para a longa lista de profecias ufológicas que se reciclam a cada década, mudando apenas os personagens. Já vimos datas marcantes como as de 1999, 2012 e 2025 passarem sem que nenhum alienígena apertasse a mão de um líder mundial em rede nacional. A cada novo ciclo, a fonte muda e o mensageiro é trocado, mas a narrativa de que “desta vez é para valer” continua a seduzir quem busca desesperadamente por respostas além das estrelas.

OVNIs como ferramenta de engajamento eleitoral

UAPs como cabos eleitorais: congressista Lauren Boebert, durante conferência de imprensa no Congresso dos EUA (Imagem: https://boebert.house.gov)
UAPs como cabos eleitorais: congressista Lauren Boebert, durante conferência de imprensa no Congresso dos EUA (Imagem: https://boebert.house.gov)

O uso do mistério ufológico como cabo eleitoral já é uma estratégia consolidada, especialmente nos Estados Unidos, onde políticos de diferentes espectros flertam com o tema para atrair eleitores. A senadora Lauren Boebert, por exemplo, utilizou o discurso do “desacobertamento” para arrecadar fundos de campanha, apelando para o sentimento de que o governo esconde a verdade do povo americano. Prometer a abertura de arquivos tornou-se uma ferramenta de engajamento poderosa para atrair doadores que desconfiam das instituições militares e de inteligência.

----publicidade----

Historicamente, figuras como Bill e Hillary Clinton e até Barack Obama já abordaram a questão dos OVNIs em contextos políticos, reconhecendo a existência de registros sem explicação conhecida. Donald Trump, durante seu mandato, deu passos concretos ao assinar leis que exigiam relatórios sobre Fenômenos Aéreos Não Identificados (UAPs), posicionando-se como um defensor da transparência radical. Essa dualidade estratégica permite que o político atraia o voto e o interesse dos entusiastas sem necessariamente se comprometer com a realidade do fenômeno extraterrestre.

No Brasil, o cenário começa a espelhar essa tendência americana, com audiências públicas no Senado e na Câmara discutindo a relação entre ufologia e a Lei de Acesso à Informação. Políticos como o deputado Chico Alencar e o senador Eduardo Girão promovem debates que misturam a busca por respostas históricas com a pressão por transparência governamental. O tema ufológico, antes marginalizado, agora oferece visibilidade midiática e mobiliza uma base de eleitores engajados que buscam figuras públicas dispostas a enfrentar o segredo de estado.

A estratégia eleitoral é eficiente porque a ufologia toca em um ponto sensível da desconfiança popular em relação ao governo oculto e ao complexo militar-industrial. Ao prometer a revelação total, o político se coloca como o herói que trará a verdade para a humanidade, mesmo que a promessa se perca convenientemente após o período de votação. Assim, o suposto discurso de divulgação torna-se apenas mais uma peça de propaganda, reciclada a cada ciclo para manter a chama do mistério e o fluxo de votos devidamente acesos.

Jeferson Martinho

Jornalista, o autor é empresário de comunicação, dono de agência de marketing digital e assessoria de imprensa, publisher de um portal de notícias regionais na Grande São Paulo, fundador e editor do Portal Vigília. Apaixonado por Ufologia de um ponto de vista científico, é autor do livro "Nem Todo OVNI é Extraterrestre - Um guia para entusiastas da ufologia que não querem ser iludidos", disponível na Amazon.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

×