Recentemente, um trio de pesquisadores ucranianos — Boris Zhilyaev, Vladimir Petukhov e Sergey Pokhvala — vinculados ao Observatório Astronômico Principal da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia, publicou um novo artigo em formato de pré-print alegando ter detectado objetos voadores não identificados de dimensões colossais operando na superfície e na órbita da Lua. As observações, supostamente realizadas em 2025 com telescópios de alta velocidade equipados com câmeras modernas, descrevem “mais de 20” estruturas em formato de disco e toroidais (“donut“, ou rosquinha) que medem entre 25 e 40 quilômetros de extensão, supostamente movendo-se a velocidades que atingem 11 quilômetros por segundo.
O grupo sustenta a tese de que o satélite natural da Terra serve como base para uma civilização tecnologicamente avançada, cujas naves seriam capazes de atingir o nosso planeta em apenas 20 minutos, manifestando-se aqui como os já conhecidos Fenômenos Anômalos Não Identificados (UAPs). No entanto, dessa vez, a publicação surge sem revisão por pares e sob o peso de um histórico marcado por retratações e críticas severas da comunidade acadêmica internacional ao trio, levantando novamente o debate sobre o pretendido rigor científico na ufologia moderna.
É curioso que a Ucrânia tenha se tornado uma espécie de epicentro inusitado de interesse para o estudo dos UAPs nos últimos anos, oscilando entre a ciência rigorosa e o que muitos classificam como ciência suja. Enquanto manuais técnicos e doutrinas militares tentam transformar a caçada a esses objetos em uma disciplina militar e científica legítima, como exemplificado pela recente edição da revista da escola naval dos EUA, CTX, a insistência de certos grupos locais em teses sensacionalistas acaba por turvar a percepção pública.
O país, mergulhado em um conflito real, agora vê seu céu — e seu satélite natural — serem palco de disputas teóricas que misturam dados de radar com interpretações ufológicas ousadas.
Esse interesse estranho manifesta-se tanto em relatos de campo de tropas na linha de frente quanto em artigos acadêmicos que parecem forçar interpretações de dados captados em zonas de conflito. A transição do debate de manuais de defesa reais para teorias sobre bases lunares quilométricas exemplifica o desafio de separar o ruído da informação útil em um momento em que a ufologia busca desesperadamente credibilidade institucional.
O risco real é o de a ciência, quando mal conduzida ou influenciada por narrativas predeterminadas, tornar-se apenas uma ferramenta de propaganda ou de desinformação em um ambiente já saturado de incertezas.
O retorno dos pesquisadores polêmicos
O trio de autores não é novato em polêmicas e já carrega o estigma de ter provocado um dos maiores embates acadêmicos recentes sobre o tema. Em 2022, eles ganharam as manchetes mundiais ao afirmar que o céu de Kiev estava infestado de naves invisíveis a olho nu, que eles apelidaram de “fantasmas” e “cósmicos”, supostamente movendo-se a velocidades hipersônicas. Naquela ocasião, o estudo foi duramente rebatido pelo próprio Conselho Científico do Observatório Astronômico Principal da Ucrânia (MAO NASU), que emitiu uma nota oficial desautorizando a pesquisa e criticando o processamento de dados inadequado.

O renomado astrofísico de Harvard, Avi Loeb, também interveio no caso anterior, demonstrando através de cálculos físicos que as conclusões dos ucranianos eram infundadas. Loeb — que desde a época era um dos cientistas com a atitude mais “pró-UAP” em evidência — argumentou que, se os objetos estivessem nas distâncias alegadas, sua interação com a atmosfera deveria gerar bolas de fogo massivas devido ao atrito, o que não foi registrado. Ele sugeriu que os supostos óvnis eram, na verdade, insetos, cartuchos de artilharia e até mesmo um satélite interpretados erroneamente devido a erros grosseiros de cálculo de distância.
A humilhação pública culminou em uma retratação forçada, onde os autores tiveram que remover a atribuição institucional do estudo, admitindo que se tratava de uma pesquisa independente. O observatório oficial disparou que, em vez de uma análise crítica, os autores postularam conclusões não razoáveis sobre as características dos objetos. Esse episódio serviu como um alerta precoce sobre a qualidade das produções científicas vindas deste grupo específico, que agora volta à carga com afirmações ainda mais extraordinárias sobre a Lua.
Mesmo após o desmentido anterior, a persistência de Zhilyaev e seus colegas sugere um padrão de comportamento que ignora as correções metodológicas sugeridas por seus pares. A insistência em teses de “corpo negro” e velocidades absurdas sem a devida comprovação por múltiplos observatórios levanta suspeitas sobre a motivação por trás dessas publicações. Para a comunidade científica, o primeiro artigo pode ter sido apenas um golpe de sorte midiático que, agora, os autores tentam replicar com dados lunares ainda mais difíceis de verificar.
Análise das naves gigantes na Lua
No novo documento, intitulado “UFO Dynamics on the Moon”, que apareceu simultaneamente em diversas plataformas abertas, os pesquisadores utilizam (de novo) o que chamam de técnica de espectrofotometria de alta velocidade (a mesma do estudo de 2022) para analisar vídeos da Lua capturados em 2025. Eles classificam os achados em dois grupos principais: os UAPs “atmosféricos”, que seriam objetos estacionários com pulsações de brilho, e os “continentais”, que supostamente cruzariam a superfície lunar. Segundo o relato, foram identificadas mais de 20 anomalias que apresentam uma refletividade extremamente baixa, agindo como objetos que absorvem quase toda a luz solar.
O ponto mais controverso do artigo reside na estimativa do tamanho dessas supostas naves, que chegariam a medir 40 quilômetros de diâmetro. Os autores utilizam fórmulas complexas baseadas na luminosidade do céu e na distância lunar para chegar a esses números, mas críticos apontam falhas fundamentais nessas premissas. Sem dados de paralaxe ou observações simultâneas de dois locais geograficamente separados, é impossível determinar se o objeto está na Lua ou se é apenas um grão de poeira ou inseto passando perto da lente do telescópio.
Os pesquisadores descrevem objetos toroidais com uma aceleração centrífuga que seria o dobro da gravidade da Terra, o que, segundo eles, indicaria a criação de gravidade artificial. Eles chegam a citar o CEO de uma empresa de propulsão para validar que tal tecnologia está “além da física aceita na Terra”. Essa mistura de dados técnicos com declarações de figuras externas é vista como uma tentativa de dar um ar de legitimidade a uma tese que carece de evidências fotográficas e matemáticas claras, uma vez que muitas das detecções se resumem a poucos pixels. Aliás, os vídeos e fotos de alta resolução de onde abstraem suas conclusões não acompanham o artigo original: apenas imagens com camadas de processamento.

As imagens apresentadas no estudo são processadas em pseudo-cores para realçar um contraste que, originalmente, não passa de 10%. Essa manipulação digital é criticada por especialistas, que argumentam que o processamento pode transformar ruído e imperfeições ópticas em formas aparentemente organizadas. A ausência de vídeos brutos disponíveis para análise independente reforça o ceticismo de que as “naves gigantes” sejam apenas artefatos de imagem interpretados de forma hiperbólica.
O perigo da ciência suja na Ufologia
A reincidência dos pesquisadores serve como um exemplo clássico do conceito de ciência suja, termo aplicado a pesquisas que utilizam metodologias falhas ou dados enviesados para validar teses extraordinárias. Em um período em que a ufologia tenta atrair a comunidade acadêmica através de métodos rigorosos, a publicação de pré-prints sem revisão por pares contendo afirmações sobre bases alienígenas acaba tumultuando o debate leigo. O público, muitas vezes incapaz de distinguir entre um artigo revisado e uma postagem em repositórios abertos, consome essas informações como verdades estabelecidas.
Esse tipo de ocorrência é visto como profundamente prejudicial ao esforço de desestigmatização do fenômeno UAP, pois fornece munição para céticos que generalizam toda a pesquisa ufológica como pseudociência. A insistência em ignorar variáveis simples, como falhas no sensor, cálculos equivocados ou satélites em órbita, coloca os autores ucranianos em um limbo entre a busca legítima por anomalias e o puro sensacionalismo. A ciência bem construída exige a eliminação de todas as explicações prosaicas antes de se postular a existência de civilizações avançadas.
O impacto da “ciência ruim” corrói a confiança pública nas instituições legítimas e distorce o debate sobre políticas de segurança aérea e defesa. Quando um grupo de cientistas utiliza a afiliação de uma academia nacional para promover teses sem o devido rigor, eles acabam “sujando” o campo de estudo para outros pesquisadores sérios. A ufologia precisa de métodos que possam ser replicados por outros observatórios, algo que as descobertas de Zhilyaev e sua equipe falharam em alcançar até o momento.
A discussão sobre o que constitui evidência científica é vital neste momento de transição na ufologia. O caso ucraniano serve como um alerta, ilustrando como a interpretação de cada passo incerto na direção mais extraordinária possível pode levar a conclusões errôneas. Para que o estudo dos UAPs avance, é necessário combater a disseminação de correlações ilusórias e garantir que o rigor do método científico seja aplicado, especialmente quando as alegações envolvem objetos quilométricos e bases na Lua.
Repercussão e teorias interpretativas online
A repercussão nas redes sociais e em plataformas como o Reddit reflete uma divisão clara entre o entusiasmo de alguns incautos e o ceticismo técnico de observadores amadores. Muitos internautas sugerem que as imagens apresentadas podem ser simples artefatos ópticos ou “fantasmas” digitais gerados pelo próprio software de processamento utilizado pelos autores. A falta de confirmação por outros milhões de astrônomos amadores que monitoram a Lua diariamente é um dos pontos mais simples citados para invalidar a tese de “naves gigantescas”.
Por outro lado, teorias interpretativas mais ousadas ligam o estudo a programas espaciais secretos ou ao suposto sistema de inteligência artificial “Immaculate Constellation”, enveredando pelo campo da conspiração. Sem levar em conta que essa conspiração provavelmente teria que ser combinada entre nações absolutamente rivais com igual acesso ao satélite natural, como EUA, China, Russa e India, apenas para citar as principais.
Alguns usuários defendem que evidências reais de OVNIs estariam sendo filtradas em tempo real por redes de defesa antes de chegarem aos olhos do público, o que explicaria por que apenas este grupo ucraniano teria “visto” tais objetos. No entanto, a maioria da comunidade científica permanece cética, aguardando dados brutos e uma revisão por pares que provavelmente nunca virá nos termos propostos pelos autores.


