A SpaceX abortou no último segundo o lançamento do foguete Starship, o maior e mais potente veículo espacial já construído, após múltiplos motores Raptor não acenderem durante a sequência de ignição. A empresa drenou o propelente do veículo e reagendou a tentativa para a próxima segunda-feira, 20 de julho. O episódio ocorre em meio a uma aceleração sem precedentes na corrida global por foguetes total ou parcialmente reutilizáveis, com avanços simultâneos nos Estados Unidos, China e Japão.
Segundo a SpaceX, o aborto ocorreu na contagem regressiva final, quando o sistema de controle detectou uma anomalia na partida de vários dos 33 motores Raptor do estágio Super Heavy. A empresa optou pelo procedimento de segurança padrão: interrupção da sequência, ventilação de propelente e preservação do veículo para inspeção. A nova janela de lançamento abre na segunda-feira, 20 de julho, a partir da base de Boca Chica, no Texas.
Este seria o quinto voo de teste integrado do sistema Starship. Os testes anteriores validaram etapas críticas — como a separação de estágios, a reentrada atmosférica controlada e o pouso suave do Super Heavy, incluindo o histórico sucesso na recuperação do booster pelos braços da torre de lançamento (“Mechzilla”). Cada iteração trouxe avanços fundamentais para consolidar a engenharia de reutilização rápida da empresa.

China estreia Long March 10B com recuperação por cabos em balsa — feito orbital inédito
O marco mais significativo da quinzena veio da China. Em seu voo orbital inaugural, o Long March 10B decolou do Centro Espacial Comercial de Wenchang, na ilha de Hainan, colocou uma carga experimental em órbita terrestre baixa (LEO) e, cerca de seis minutos após a separação de estágios, o booster executou uma manobra de retorno, pouso vertical assistido por motores e foi capturado com sucesso pela estrutura de cabos e rede instalada na balsa marítima Linghangzhe.
Diferente dos “hops” (voos de baixa altitude) usados por outros programas para validar o pouso propulsivo, o Long March 10B demonstrou a recuperação em condições reais de missão orbital — envolvendo reentrada hipersônica, guiamento de precisão e captura em plataforma móvel no mar. A CASC (China Aerospace Science and Technology Corporation) afirma que o método de captura por rede tolera maiores margens de erro estruturais e atmosféricas do que o pouso propulsivo padrão com trens de pouso, dispensando pernas de aterrissagem e reduzindo a massa seca do estágio.
Japão avança com RV-X
Em 11 de julho, a JAXA (Agência de Exploração Aeroespacial do Japão) realizou um voo bem-sucedido do RV-X, protótipo de foguete reutilizável de pequeno porte. O veículo decolou do centro de testes de Noshiro, executou manobras de transição de voo horizontal para vertical e pousou com precisão na plataforma designada. O programa visa validar tecnologias de guiamento, navegação e controle (GNC) para futuros lançadores orbitais japoneses reutilizáveis, reduzindo a dependência de fornecedores externos.
New Glenn: estreia parcial da Blue Origin
Nos Estados Unidos, a Blue Origin estreou o New Glenn em janeiro deste ano. O voo inaugural colocou a carga útil em órbita — um marco importante para a empresa de Jeff Bezos —, mas o estágio de primeira fase, projetado para pousar em um navio-drone no Atlântico, foi perdido durante a descida. A Blue Origin classificou o resultado como “sucesso parcial” e já prepara o segundo voo, com correções no sistema de pouso.
A convergência temporal — três marcos em menos de duas semanas, sendo dois voos orbitais com recuperação tentada (um bem-sucedido) — sugere que a reutilização deixou de ser promessa de laboratório para se tornar um campo de disputa estratégica. Quem dominar a cadência operacional (taxa de voos por ano por veículo) e o menor custo por quilograma à órbita baixa definirá a economia espacial da próxima década.

Próximos passos
A SpaceX depende da licença da FAA (Administração Federal de Aviação) para o voo 5, que inclui a tentativa inédita de capturar o Super Heavy com os “braços” da torre de lançamento — manobra que, se bem-sucedida, eliminaria a necessidade de pernas de pouso e navios de apoio. Paralelamente, a Blue Origin mira o segundo voo do New Glenn ainda este ano, enquanto a China deve expandir a cadência do Long March 10B e a JAXA transitar do RV-X para demonstradores orbitais nos próximos 18 a 24 meses.
Para o Brasil, que acompanha a expansão do Centro de Lançamento de Alcântara e negocia acordos de salvaguarda tecnológica, o momento reforça a urgência de definir seu posicionamento: fornecedor de serviços de lançamento, parceiro de desenvolvimento de subsistemas, ou consumidor de capacidade alheia em um mercado que se torna, a cada voo, mais competitivo e menos dependente de descartáveis.


