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Livro de ex-chefe de investigações de OVNIs do Pentágono, Jay Stratton, apenas recicla histórias antigas?

Livro de Jay Stratton provoca repercussão com alegações sobre naves extraterrestres e programas secretos. Mas quanto há de novo nas revelações?

Fora das sombras - o livro recém lançado de Jay Stratton que está causando polêmica

Fora das sombras - o livro recém lançado de Jay Stratton que está causando polêmica

aApresentado como uma das maiores revelações da história recente da Ufologia, Out of the Shadows reúne relatos sobre naves extraterrestres recuperadas, corpos não humanos e operações militares secretas. Mas muitas dessas histórias circulam há anos entre um grupo relativamente restrito de antigos funcionários do governo, militares e pesquisadores. Uma contestação pública de uma ex-superior de Stratton e a ausência de novas provas colocam em dúvida o alcance das revelações.

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O lançamento de Out of the Shadows: Revealing the Truth About Non-Human Intelligent Life (Das Sombras: Revelando a Verdade sobre a Vida Inteligente Não Humana), do ex-oficial de inteligência norte-americano Jay Stratton, transformou-se em um dos acontecimentos de maior repercussão na Ufologia desde julho de 2023, quando David Grusch compareceu a uma audiência do Congresso dos Estados Unidos e denunciou a suposta existência de um programa secreto de recuperação de veículos de origem não humana. O novo livro, lançado em 13 de outubro de 2026, ganhou espaço em grandes veículos de comunicação, entrevistas televisivas, canais especializados e comunidades de entusiastas, reacendendo o debate sobre o que o governo norte-americano saberia a respeito dos fenômenos anômalos não identificados (UAPs).

A comparação com Grusch não é casual. Assim como ocorreu com o ex-oficial que testemunhou perante os congressistas, boa parte do impacto das declarações de Stratton decorre de sua trajetória profissional. Ele não é apenas mais um pesquisador de OVNIs. É um antigo integrante da comunidade de inteligência dos Estados Unidos, com décadas de experiência em atividades militares e de segurança nacional. Durante sua carreira, participou de iniciativas governamentais relacionadas aos UAPs e tornou-se o primeiro diretor da Força-Tarefa de Fenômenos Aéreos Não Identificados (UAPTF), criada em 2020 pelo Departamento de Defesa.

Stratton também esteve ligado a iniciativas anteriores, incluindo o Programa de Aplicações de Sistemas Avançados de Armamentos Aeroespaciais (AAWSAP), financiado pelo governo norte-americano a partir de 2008. Trabalhou com personagens que se tornaram conhecidos nos debates sobre OVNIs, entre eles Luis Elizondo, Hal Puthoff e outros pesquisadores associados às investigações conduzidas por contratadas da defesa. Aposentado em 2022, passou a participar mais abertamente do movimento que defende a divulgação de informações governamentais sobre UAPs. Em 2025, apareceu no documentário The Age of Disclosure, dirigido por Dan Farah.

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Jay Stratton, ex-diretor da UAP Task Force, surpreende ao afirmar contato direto com seres não humanos e sua tecnologia
Jay Stratton, ex-diretor da UAP Task Force, surpreende ao afirmar contato direto com seres não humanos e sua tecnologia

Seu livro reúne uma longa trajetória profissional e afirmações extraordinárias. Stratton sustenta que os Estados Unidos recuperaram veículos de origem não humana, possuem corpos de seus ocupantes e mantêm programas clandestinos destinados ao estudo dessas tecnologias. Também descreve supostas operações para atrair objetos desconhecidos, episódios históricos como o incidente de Roswell, de 1947, e experiências pessoais com entidades e manifestações paranormais. Em entrevista à revista People, publicada no dia do lançamento, afirmou que o governo participa de uma campanha de desinformação que se estenderia por aproximadamente oito décadas.

A dimensão dessas declarações explica a repercussão. O problema é que, por trás da aparência de uma revelação abrangente e inédita, grande parte do conteúdo remete a histórias que já circulavam na Ufologia. Algumas são conhecidas há décadas. Outras ganharam força com Grusch, Elizondo e um grupo de pesquisadores ligados aos mesmos programas governamentais. Em determinados casos, Stratton acrescenta detalhes espetaculares a narrativas anteriores, mas não apresenta documentação pública capaz de demonstrar que elas correspondem aos acontecimentos descritos.

De doze naves extraterrestres a um encontro com uma entidade

Entre as alegações mais impressionantes está a existência de pelo menos doze veículos de origem não humana recuperados e mantidos em instalações de empresas contratadas pelo governo. Uma das principais fontes citadas por Stratton seria James Thomas Ryder, conhecido como Jim Ryder, antigo executivo da Lockheed Martin, uma das maiores fabricantes de equipamentos militares e aeroespaciais do mundo. Segundo o relato apresentado no livro, Ryder teria conhecimento de operações de recuperação e armazenamento de tecnologias extraterrestres, incluindo veículos que supostamente continham ocupantes.

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Stratton também descreve uma gravação que teria assistido em 2005, em um sistema classificado do governo. As imagens mostrariam um grande objeto triangular escuro, com luzes nas extremidades, nas proximidades de uma instalação de mísseis nucleares. O objeto teria acelerado de maneira extraordinária antes de desaparecer. O antigo oficial afirma que essa experiência marcou o início de seu envolvimento mais profundo com o tema. Entretanto, a gravação não foi disponibilizada publicamente, impedindo qualquer avaliação independente sobre as características, dimensões ou desempenho do objeto.

Outra passagem retoma o incidente de Roswell, ocorrido em julho de 1947, no Novo México. Stratton afirma ter recebido informações de uma fonte segundo a qual uma nave teria se partido em duas, com destroços e corpos não humanos recuperados pelos militares. Alguns ocupantes teriam sido encontrados vivos, mas morreriam posteriormente. Trata-se de uma narrativa que recupera elementos presentes há décadas na literatura ufológica sobre Roswell, embora acrescente detalhes específicos atribuídos ao informante.

O autor também descreve experiências pessoais de natureza paranormal. Relata manifestações luminosas, figuras escuras e a aparição de uma entidade que identificou como não humana junto à janela de sua residência, em 2014. Afirma que familiares presenciaram fenômenos semelhantes e associa esses acontecimentos à sua participação nas investigações governamentais. Na interpretação de Stratton, as manifestações praticamente cessaram depois de sua aposentadoria. É uma versão próxima do chamado efeito carona (hitchhiker effect), expressão utilizada por pesquisadores ligados ao Rancho Skinwalker para descrever supostos fenômenos que acompanhariam pessoas depois de determinados encontros com o desconhecido.

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As histórias são extraordinárias, mas pertencem a categorias diferentes de evidência. Stratton afirma ter assistido pessoalmente ao vídeo triangular e presenciado algumas manifestações paranormais. Já as informações sobre Roswell e os veículos armazenados dependem de relatos que diz ter recebido de terceiros. Em nenhum desses casos foram apresentados publicamente os materiais ou registros técnicos necessários para demonstrar a origem não humana dos fenômenos descritos. A experiência profissional de Stratton torna seu testemunho relevante, mas não converte automaticamente informações recebidas de outras pessoas em fatos comprovados.

A Lockheed Martin e uma história muito anterior ao livro

O caso de Jim Ryder é particularmente ilustrativo da maneira como narrativas antigas reaparecem com novos detalhes. Ryder, que morreu em maio de 2018, já havia sido associado a alegações sobre materiais supostamente recuperados de objetos extraterrestres muito antes do lançamento de Out of the Shadows. Seu nome apareceu em discussões sobre uma possível tentativa de transferência de materiais da Lockheed Martin para pesquisadores ligados ao AAWSAP e à empresa de Robert Bigelow, que executou parte das atividades do programa.

Em agosto de 2023, por exemplo, um pedido de acesso à informação apresentado à Agência Nacional de Inteligência Geoespacial (NGA) solicitou registros sobre James Thomas Ryder. O requerimento, identificado como 2023-FOIA-00077, demonstra que o antigo executivo já era objeto de interesse de pesquisadores e investigadores interessados nessas alegações. A existência do pedido não comprova nenhuma história sobre tecnologia extraterrestre, mas estabelece que a conexão entre Ryder e o assunto antecede em anos o livro de Stratton.

Bigelow Aerospace em Objetos Voadores, Um Segredo de Estado (Foto: Curta!/divulgação/Athys de Galzain)
Bigelow Aerospace em Objetos Voadores, Um Segredo de Estado (Foto: Curta!/divulgação/Athys de Galzain)

A história também surgiu em questionamentos oficiais dirigidos a Mike Gold, antigo executivo da NASA e participante de discussões governamentais sobre UAPs. Em dezembro de 2024, parlamentares norte-americanos solicitaram esclarecimentos sobre uma suposta tentativa de transferência de materiais da Lockheed Martin para a Bigelow Aerospace Advanced Space Studies (BAASS). As perguntas mencionavam Ryder e Glenn Gaffney, antigo dirigente da CIA, que teria impedido a operação. Gold declarou desconhecer pessoalmente os detalhes da suposta intervenção e não confirmou a transferência. As perguntas, portanto, registram a existência das alegações, não sua veracidade.

Há ainda um antecedente envolvendo o astrofísico Avi Loeb, da Universidade Harvard. Em entrevistas anteriores, Loeb contou ter conversado com um antigo executivo da Lockheed Martin sobre as afirmações de David Grusch relacionadas à recuperação de tecnologias desconhecidas. Questionado se aquelas histórias eram absurdas, o executivo teria respondido que não diria que estavam necessariamente erradas. A declaração já circulava em junho de 2024. Loeb, entretanto, também relatou ter consultado outro ex-funcionário da empresa, que afirmou nunca ter ouvido falar de algo semelhante.

Não está demonstrado que o executivo ouvido por Loeb fosse Ryder. Além disso, a resposta atribuída a ele era muito menos categórica do que a história agora apresentada por Stratton. Uma afirmação vaga de que determinada informação poderia não estar errada é bastante diferente de confirmar a existência de doze veículos não humanos, alguns contendo ocupantes. É precisamente essa evolução que merece atenção: uma narrativa inicialmente sustentada por referências indiretas reaparece com números, personagens e circunstâncias adicionais, mas sem que a documentação pública acompanhe o crescimento dos detalhes.

Operações de isca: dos helicópteros ao submarino nuclear

Outro episódio narrado por Stratton envolve uma suposta operação realizada com um submarino nuclear para atrair um veículo de origem não humana. Segundo a descrição reproduzida pela imprensa, militares teriam utilizado a embarcação para provocar a aproximação de um objeto desconhecido e acompanhar seu comportamento. A hipótese de que determinadas emissões nucleares ou características de equipamentos militares poderiam atrair UAPs, porém, também está longe de ser novidade.

Nos últimos anos, histórias sobre operações de atração deliberada de objetos desconhecidos apareceram associadas a pesquisadores do Rancho Skinwalker, antigo foco de investigações sobre fenômenos paranormais em Utah, e a iniciativas mais recentes, como as divulgadas pelo grupo Skywatcher, de Jake Barber. Nessas narrativas, helicópteros, aeronaves, equipamentos especiais e até procedimentos relacionados à consciência humana seriam utilizados para provocar manifestações de supostos objetos não humanos. Parte dessas atividades foi apresentada ao público em documentários, entrevistas e produções audiovisuais, dificultando a separação entre experimentos efetivamente realizados, interpretações dos participantes e elementos de entretenimento.

O Portal Vigília já havia abordado essas alegações ao analisar a divulgação de um vídeo atribuído a uma operação de recuperação envolvendo a equipe de Barber. A gravação mostraria um objeto de formato oval, semelhante a um ovo, sendo transportado durante uma missão. A autenticidade e o contexto do registro tornaram-se objeto de controvérsia. A divulgação de imagens, entretanto, não demonstrou que o objeto tivesse origem extraterrestre ou que a operação descrita correspondesse a uma missão secreta de recuperação de tecnologia não humana.

Em julho de 2026, o Portal Vigília também publicou uma reportagem sobre documentos governamentais divulgados pela iniciativa Pursue. Entre os registros estavam um formulário de entrevista do FBI, conhecido como FD-302, e o documento ODNI-UAP-D001, que descreviam observações de objetos luminosos durante uma missão com helicóptero militar. Fotografias associadas à ocorrência foram disponibilizadas, mas as gravações embarcadas mais importantes permaneceram indisponíveis. O material passou a ser relacionado a uma suposta operação destinada a atrair UAPs, interpretação posteriormente reforçada por declarações do deputado Eric Burlison.

Nesse caso, existe uma distinção importante. Os documentos oficiais registram depoimentos e circunstâncias de uma operação militar, mas não estabelecem que seu objetivo fosse atrair inteligência não humana, nem demonstram a natureza extraordinária dos objetos observados. A matéria posterior do Portal Vigília, de agosto, já examinava a ampliação dessa interpretação por autoridades políticas. A operação com submarino descrita por Stratton pode envolver acontecimentos diferentes. Até agora, entretanto, não foram apresentados registros públicos que permitam verificar sua realização ou relacioná-la diretamente aos episódios envolvendo helicópteros.

Dois objetos (ou um, com dois focos de calor) registrados em suposta operação de atração de UAPs (orbes) Imagem: https://war.gov/UFO / Release 01 / foto 18
Dois objetos (ou um, com dois focos de calor) registrados em suposta operação de atração de UAPs (orbes) Imagem: https://war.gov/UFO / Release 01 / foto 18

O padrão se repete: um conceito já disseminado na Ufologia, o de operações planejadas para atrair objetos não identificados, reaparece numa narrativa mais espetacular, desta vez envolvendo um submarino nuclear. Isso não significa que Stratton tenha simplesmente inventado o episódio ou que todas essas histórias tenham uma origem comum. Significa que, sem documentação suficiente para identificar datas, participantes, equipamentos e resultados, não é possível determinar se estamos diante de acontecimentos independentes ou de diferentes versões de uma mesma tradição de relatos.

Uma ex-superior contesta diretamente o livro

Uma das primeiras críticas concretas a Out of the Shadows surgiu em 14 de outubro, apenas um dia depois do lançamento. O jornalista Steven Greenstreet, conhecido por sua cobertura crítica sobre a Ufologia contemporânea, publicou uma reportagem na rede X baseada em uma conversa telefônica com Lynn Wright, antiga vice-diretora de Inteligência Naval dos Estados Unidos. Wright ocupava essa função em 2015, quando Stratton trabalhava sob sua autoridade.

No capítulo 24 do livro, Stratton descreve reuniões nas quais teria discutido o tema dos OVNIs com Wright. Segundo sua narrativa, ela também teria sido influenciada por histórias de encontros extraordinários vividos pelo pai e pelo irmão, circunstância que ajudaria a explicar seu interesse em apoiar investigações sobre fenômenos anômalos. O autor ainda atribui a Wright um papel importante no desenvolvimento das iniciativas governamentais que acabariam associadas ao Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais (AATIP).

Greenstreet relatou que Wright confirmou ter trabalhado com Stratton, mas negou categoricamente duas dessas informações. Segundo o jornalista, ela afirmou que os dois não conversaram sobre OVNIs. Também classificou como falsa a história sobre experiências ufológicas de seus familiares, declarando que aquilo nunca havia acontecido. São negativas específicas sobre episódios que Stratton apresenta como parte de sua própria trajetória profissional.

Um detalhe chamou a atenção. De acordo com Greenstreet, Wright começou a explicar que ela e Stratton haviam discutido determinados vídeos, mas interrompeu a frase e se recusou a esclarecer seu conteúdo. A atitude deixou uma questão sem resposta sobre a natureza das gravações. Elas poderiam envolver atividades militares, equipamentos de vigilância ou outros assuntos pertinentes às funções desempenhadas pelos dois. Não há elementos suficientes para concluir que se tratava de vídeos de UAPs. Wright encerrou a conversa antes que o jornalista pudesse questioná-la sobre as demais afirmações do capítulo.

Até o momento, a contestação depende do relato jornalístico de Greenstreet, sem a divulgação de uma gravação integral da entrevista ou resposta pública de Stratton especificamente sobre essas negativas. Mesmo assim, representa um questionamento de natureza diferente das objeções habituais às histórias de objetos extraterrestres. Não se trata de discutir se determinado fenômeno poderia existir, mas de confrontar a descrição de conversas e acontecimentos envolvendo uma pessoa identificada, que afirma não reconhecer partes relevantes do relato.

A Ufologia circular que Sean Kirkpatrick denunciou

A repetição de histórias dentro de um grupo relativamente restrito de pesquisadores e antigos integrantes do governo foi um dos principais argumentos apresentados por Sean Kirkpatrick, primeiro diretor do Escritório de Resolução de Anomalias em Todos os Domínios (AARO), órgão do Pentágono responsável pela investigação de UAPs. Kirkpatrick tornou-se uma figura particularmente criticada por setores entusiastas da Ufologia depois da publicação do relatório histórico da agência, em março de 2024. O documento declarou não ter encontrado evidências verificáveis de programas governamentais de recuperação e engenharia reversa de tecnologia extraterrestre, contrariando frontalmente alegações defendidas por antigos integrantes das iniciativas de investigação.

O relatório sustentava que parte dessas histórias tinha origem em um grupo de indivíduos relacionados aos programas AAWSAP e AATIP, que continuaram trabalhando juntos em diferentes iniciativas ligadas aos UAPs. Em entrevistas, Kirkpatrick afirmou que determinadas informações eram transmitidas entre pessoas que se conheciam, posteriormente reapresentadas a autoridades ou pesquisadores e finalmente citadas como se representassem confirmações independentes. Esse processo produziria uma espécie de círculo de informações, no qual os mesmos relatos retornavam continuamente ao debate, cada vez acompanhados de novas declarações de apoio, mas sem necessariamente acrescentar novas evidências.

Dr. Sean Kirkpatrick, diretor do Escritório de Pesquisas de Anomalias de Todos os Domínios - AARO
Dr. Sean Kirkpatrick, ex-diretor do Escritório de Pesquisas de Anomalias de Todos os Domínios – AARO (Foto: Wikipedia/NASA/Joel Kowsky)

Em uma entrevista publicada pelo The Guardian em março de 2024, Kirkpatrick descreveu um episódio que, segundo ele, ilustrava o problema. Integrantes daquele ambiente teriam encaminhado a uma empresa material que acreditavam ser proveniente de um OVNI acidentado. Posteriormente, a relação da empresa com o material teria sido utilizada para sustentar alegações de que companhias privadas participavam de programas secretos de engenharia reversa de veículos extraterrestres. Na interpretação do ex-diretor, algumas das próprias pessoas que denunciavam essas atividades haviam contribuído para a circulação original das informações utilizadas como suposta confirmação.

Essa interpretação nunca foi aceita pacificamente. Ex-integrantes dos programas e defensores de maior transparência governamental acusaram Kirkpatrick de conduzir uma investigação insuficiente, desconsiderar testemunhos e não conseguir acesso a determinados programas classificados. O ex-diretor, por sua vez, manteve a posição de que não encontrou evidências dos alegados programas de recuperação de tecnologia não humana. A divergência, que se arrasta há anos, ganhou agora contornos ainda mais graves com a publicação do livro de Stratton.

Em Out of the Shadows, Stratton acusa Kirkpatrick de ter sido comprometido e controlado pelo chamado Programa Legado (Legacy Program), uma suposta estrutura clandestina dedicada à recuperação e ao estudo de veículos extraterrestres. O autor afirma ainda que congressistas tiveram acesso a informações classificadas que comprovariam essa interferência. A acusação representa um passo além das críticas habituais à AARO: Stratton sugere que o primeiro diretor da agência não apenas teria falhado em investigar determinados programas, mas atuado sob influência das próprias estruturas que deveria investigar.

Procurado pelo jornalista Ben Schreckinger, da publicação especializada Paradigm, em reportagem de 15 de outubro de 2026, Kirkpatrick reagiu duramente. Classificou a acusação como absurda, negou a existência do Programa Legado e afirmou que Stratton não apresentava evidências para sustentá-la. Em seguida, fez uma acusação igualmente grave: segundo ele, as únicas informações classificadas apresentadas ao Congresso sobre o alegado programa diziam respeito a supostas violações da legislação de segurança nacional cometidas por Stratton e integrantes de seu grupo, chamados depreciativamente por Kirkpatrick de pseudocientistas.

O antigo diretor da AARO também alegou que membros desse círculo teriam participado, nos bastidores, da elaboração de dispositivos legais de proteção a denunciantes, criando condições que impediriam sua responsabilização pelas supostas infrações. Kirkpatrick não especificou quais leis teriam sido violadas, quem estaria envolvido em cada episódio ou quais documentos sustentariam suas acusações. A Paradigm encaminhou perguntas adicionais, mas não havia recebido esclarecimentos até a publicação da reportagem. A editora de Stratton também não respondeu ao pedido de comentário.

As declarações revelam o grau de hostilidade entre dois antigos responsáveis por investigações oficiais de UAPs. Também exigem o mesmo rigor aplicado às alegações de Stratton. Se o autor não pode apresentar como comprovada a existência de um programa clandestino apenas porque recebeu informações de pessoas que afirma considerar confiáveis, Kirkpatrick tampouco pode ter suas acusações de infrações legais aceitas como fatos sem apresentar fundamentos verificáveis. São declarações de antigos funcionários com experiência em segurança nacional, mas a autoridade profissional de ambos não substitui a necessidade de evidências.

A própria reportagem da Paradigm procurou confrontar algumas das fontes mencionadas por Stratton. Segundo o livro, o falecido senador Harry Reid teria contado ao autor que recebeu, por engano, uma apresentação sobre o Programa Legado. Susan McCue, que foi chefe de gabinete de Reid entre 1999 e 2006, afirmou ao jornalista que já havia ouvido essa história, mas não podia confirmá-la. Ela não se recordava de o senador ter mencionado o episódio. Reid havia declarado publicamente ter recebido informações sobre supostos materiais extraterrestres mantidos pela Lockheed Martin, mas não afirmou ter participado de uma apresentação formal sobre o alegado programa clandestino.

Outra fonte citada por Stratton seria um integrante de alta patente da comunidade de operações especiais, que teria participado de uma missão para recuperar tecnologia extraterrestre radioativa. Schreckinger consultou duas pessoas envolvidas nas investigações realizadas pelo Senado que não se recordavam de Stratton ter compartilhado informações sobre operações dessa natureza. Uma delas, Kirk McConnell, antigo funcionário legislativo que atualmente defende maior transparência sobre os UAPs, ponderou que as restrições de segurança existentes na época poderiam explicar a ausência de comunicação. Portanto, embora não houvesse confirmação independente, também não se tratava de uma refutação direta.

O terceiro caso envolve Jim Ryder, antigo executivo da Lockheed Martin. Stratton afirma que Ryder lhe revelou a existência de doze veículos extraterrestres mantidos pela empresa em colaboração com a CIA. A Paradigm observou que Eric Davis, pesquisador que trabalhou com Stratton em investigações de UAPs, já havia relatado, em uma entrevista divulgada em agosto, ter recebido informações semelhantes de uma pessoa cuja descrição corresponde à de Ryder. Mais uma vez, surge a distinção entre multiplicidade de testemunhos e independência das fontes. Se Ryder realmente contou histórias semelhantes a Stratton e Davis, isso pode confirmar que ambos ouviram determinada narrativa. Não demonstra, por si só, que os veículos existam.

A reportagem acrescentou ainda uma avaliação de uma pessoa que participou das investigações legislativas e teve contato profissional com os dois antigos dirigentes. Sob condição de anonimato, a fonte descreveu um ambiente de profunda desconfiança e hostilidade mútua, mas afirmou não ter visto evidências que comprovassem as acusações de qualquer um dos lados. O comentário ajuda a dimensionar um conflito que frequentemente é apresentado ao público como uma disputa entre investigadores comprometidos com a verdade e agentes interessados em escondê-la. Na prática, a documentação disponível ainda não permite estabelecer qual dessas interpretações, se alguma, corresponde aos fatos.

A investigação da Paradigm também evidencia uma dificuldade anterior às declarações de Kirkpatrick. Parte das fontes usadas por Stratton já morreu, como Harry Reid e Jim Ryder. Outras permanecem anônimas ou não podem ser questionadas publicamente sobre informações supostamente classificadas. Com isso, episódios centrais do livro acabam sustentados por conversas privadas, recordações e declarações posteriores de pessoas ligadas ao mesmo ambiente de pesquisa. A impossibilidade de confrontar essas fontes limita a avaliação independente e facilita a permanência das histórias no debate, mesmo quando novos detalhes são acrescentados.

As acusações recentes não comprovam que Kirkpatrick esteja correto em sua interpretação geral sobre a Ufologia contemporânea. O próprio ex-diretor precisa demonstrar a base factual das infrações legais que atribui a seus antigos colegas. Entretanto, a investigação sobre a origem das histórias reproduzidas em Out of the Shadows oferece elementos concretos para examinar a hipótese de circularidade que ele levantou em 2024. Ryder, Reid, Puthoff, Davis, Stratton, Elizondo e outros personagens aparecem, em diferentes momentos, como participantes, interlocutores ou fontes de narrativas que continuam retornando à esfera pública.

Não há, nesse conjunto de relações, prova de uma articulação deliberada para produzir informações falsas. Há, contudo, um problema de independência das fontes que permanece sem solução. Uma informação compartilhada por diferentes pessoas pode parecer mais sólida a cada nova publicação, entrevista ou depoimento. Mas, se todos os caminhos conduzem às mesmas conversas originais, o crescimento do número de narradores não representa necessariamente um crescimento do conhecimento disponível.

Quando o testemunho passa a parecer confirmação

Esse mecanismo representa um problema antigo nas investigações ufológicas. Uma testemunha conta determinado episódio a um pesquisador. O pesquisador compartilha a informação com um ex-militar ou funcionário de inteligência. Anos depois, esse funcionário menciona a história em uma entrevista, atribuindo-lhe a importância de um relato obtido nos bastidores do governo. Outro participante, que ouviu a mesma versão, oferece uma declaração semelhante. Para quem acompanha apenas as manifestações públicas, parecem surgir diferentes pessoas confirmando a mesma ocorrência. Na origem, entretanto, pode existir uma única fonte não verificada.

O risco aumenta quando os envolvidos possuem cargos importantes ou experiência legítima em assuntos de segurança nacional. A autoridade profissional pode ser interpretada como garantia da informação, mesmo quando o antigo funcionário está apenas reproduzindo algo que ouviu. É uma diferença decisiva no caso de Stratton. Sua posição à frente da UAPTF é verificável e torna sua experiência digna de atenção. Isso não significa que tenha testemunhado pessoalmente todos os acontecimentos que descreve, nem que possua documentação capaz de confirmar cada informação recebida.

A própria história de David Grusch ajuda a compreender o problema. Durante sua audiência no Congresso, em julho de 2023, ele afirmou ter obtido informações sobre programas de recuperação e engenharia reversa de veículos não humanos. Grusch também deixou claro que parte importante de suas alegações decorria de entrevistas e informações fornecidas por outras pessoas, algumas das quais, segundo ele, teriam conhecimento direto das operações. A distinção não torna automaticamente falsos os relatos, mas impede que o testemunho de Grusch seja confundido com a apresentação pública de uma nave, um corpo ou resultados científicos capazes de demonstrar sua origem.

O círculo de personagens envolvidos nas alegações inclui nomes como Hal Puthoff, Eric Davis, Luis Elizondo e o próprio Stratton, com diferentes graus de participação em projetos governamentais, pesquisas privadas e iniciativas de divulgação. Há relações profissionais documentadas entre alguns deles, além da participação em documentários, entrevistas e eventos especializados. Esses vínculos, isoladamente, não comprometem sua credibilidade. O problema surge quando declarações produzidas nesse ambiente passam a ser somadas como se fossem fontes independentes, sem que se investigue quem realmente teve contato direto com os acontecimentos narrados.

O livro de Stratton oferece uma oportunidade para examinar esse fenômeno. Muitas das histórias ganharam novos detalhes e passaram a ser apresentadas com maior convicção. Entretanto, a quantidade de documentos, materiais físicos e dados verificáveis disponíveis ao público não cresceu na mesma proporção. A narrativa avança, enquanto as evidências permanecem, em muitos casos, no ponto de partida.

O precedente de Luis Elizondo e a revisão pelo Pentágono

A publicação de Out of the Shadows também apresenta semelhanças com o lançamento de Imminent, livro de Luis Elizondo publicado em 2024. Ambos foram escritos por antigos integrantes de iniciativas governamentais relacionadas aos UAPs e combinam memórias profissionais, experiências pessoais, referências a informações classificadas e alegações sobre programas secretos. Os dois projetos também têm ligação com o produtor Dan Farah, responsável pelo documentário The Age of Disclosure e envolvido em adaptações audiovisuais relacionadas às obras.

Em uma resenha publicada em 14 de outubro, o escritor e pesquisador cético Jason Colavito destacou justamente as semelhanças estruturais entre os livros. Ele criticou a repetição de histórias antigas, a presença de diálogos reconstruídos sem documentação adequada e o uso de referências a segredos governamentais que não podem ser examinados pelo leitor. Colavito também observou que ambos os livros utilizam recursos gráficos associados a trechos censurados, produzindo uma aparência de documentação oficial mesmo em passagens que permanecem impossíveis de verificar.

Uma diferença importante envolve a revisão de segurança dos manuscritos. No caso de Elizondo, tornou-se pública uma carta de liberação emitida em janeiro de 2024, identificada pelo processo 23-SB-0146. O documento foi divulgado pelo pesquisador John Greenewald Jr., responsável pelo arquivo The Black Vault, e registrava a aprovação da publicação com determinadas alterações. A autorização, contudo, não representava uma confirmação do Pentágono sobre as alegações apresentadas no livro. Sua finalidade era verificar a eventual divulgação indevida de informações protegidas.

Luis Elizondo, ex-oficial do Pentágono, lança Imminent - Inside the Pentagon's Hunt for UFOs (montagem sobre reprodução do The History Channel)
Luis Elizondo, ex-oficial do Pentágono, e seu livro Imminent – Inside the Pentagon’s Hunt for UFOs (montagem sobre reprodução do The History Channel)

No caso de Stratton, a revista People informou que a obra teria sido analisada por 21 órgãos e departamentos governamentais antes de receber autorização para publicação. A informação foi atribuída a um representante do autor. Em setembro, durante um evento da PhenomeCon, Stratton já havia afirmado que a revisão não retirara nenhum conteúdo relacionado aos UAPs. Segundo ele, sua experiência com orientações de classificação permitia conhecer os limites do que poderia ser divulgado.

Até 16 de outubro, entretanto, não foi localizada uma carta de aprovação pública equivalente àquela divulgada no caso de Elizondo, tampouco uma relação dos 21 órgãos envolvidos no procedimento. A ausência desse documento no debate público não demonstra que a revisão não tenha ocorrido, mas impede verificar seus detalhes e o alcance das declarações do autor. Mesmo que a aprovação seja comprovada, ela continuará sem constituir endosso governamental às histórias narradas. Uma afirmação pode ser considerada publicável por não revelar informações classificadas, independentemente de ser verdadeira ou falsa.

O que permanece sem resposta

A chegada de Out of the Shadows ao mercado representa um acontecimento relevante para a história recente da Ufologia, sobretudo porque torna pública a versão de um antigo dirigente de investigações oficiais sobre acontecimentos que ele considera fundamentais. Também oferece novos detalhes, atribui informações a personagens identificáveis e pode estimular a busca por documentação ainda desconhecida. Essas contribuições não devem ser ignoradas, mesmo diante das fragilidades encontradas.

Entretanto, o livro chega acompanhado de um contraste difícil de desconsiderar. As afirmações sobre veículos e corpos não humanos continuam sem demonstração material pública. A história envolvendo Jim Ryder e a Lockheed Martin já circulava havia anos. As operações destinadas a atrair UAPs também possuem antecedentes conhecidos, alguns registrados em documentos oficiais cuja interpretação permanece controversa. As experiências paranormais relatadas por Stratton se aproximam das narrativas associadas ao Rancho Skinwalker e, principalmente, de Lue Elizondo. E uma antiga superior hierárquica, Lynn Wright, já contestou publicamente, por intermédio de um jornalista, episódios específicos que o autor atribui à relação profissional entre ambos.

Nada disso permite concluir que todas as histórias sejam inventadas ou que Stratton esteja deliberadamente distorcendo acontecimentos. Também não é possível descartar a existência de informações relevantes que permaneçam classificadas ou que ainda venham a ser apresentadas publicamente. Mas a hipótese levantada por Kirkpatrick, de que um grupo relativamente restrito de pessoas alimenta e reproduz um conjunto de narrativas que acabam ganhando aparência de confirmações independentes, encontra pontos de contato evidentes com a trajetória de várias alegações agora reunidas no livro.

A questão central talvez não seja quantas autoridades repetiram determinada história, mas quantas delas realmente tiveram acesso independente aos fatos que afirmam conhecer. Sem essa distinção, a Ufologia corre o risco de continuar acumulando declarações, livros, documentários e depoimentos que parecem ampliar o conhecimento disponível, quando podem estar apenas acrescentando novas camadas a relatos antigos.

Por enquanto, Out of the Shadows amplia consideravelmente o registro público das convicções e experiências de Jay Stratton. Resta descobrir se também ampliará, de maneira verificável, o conhecimento sobre os fenômenos que ele afirma ter investigado. A resposta dependerá menos da repercussão do livro ou da posição ocupada por seu autor e mais da possibilidade de confrontar suas histórias com fontes independentes, documentos e evidências concretas. Até lá, permanece aberta a pergunta que seu lançamento recolocou no centro do debate: estamos diante de novas revelações ou de mais uma volta da Ufologia em torno de suas próprias histórias?

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Jeferson Martinho

Jornalista, o autor é empresário de comunicação, dono de agência de marketing digital e assessoria de imprensa, publisher de um portal de notícias regionais na Grande São Paulo, fundador e editor do Portal Vigília. Apaixonado por Ufologia de um ponto de vista científico, é autor do livro "Nem Todo OVNI é Extraterrestre - Um guia para entusiastas da ufologia que não querem ser iludidos", disponível na Amazon.

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