Em um artigo publicado na versão online da renomada revista científica Scientific American, intitulado “O Que Realmente Aconteceu no Antigo Escritório de OVNIs do Pentágono?”, os pesquisadores Luis Cayetano Simmari e Vicente-Juan Ballester Olmos expuseram sua visão sobre o histórico de investigações governamentais a respeito de objetos voadores não identificados, ou UAPs, nos Estados Unidos.
Simmari, Ph.D., atualmente afiliado ao Gavilan College, em Gilroy, Califórnia, tem formação em ecologia evolutiva e um interesse tangencial em OVNIs. Ocupa-se especialmente na natureza psicossocial das histórias de OVNIs e nas ligações de extrema direita e extremistas com a saga. É o responsável pelo site Ufologyiscorrupt.com. Ballester Olmos é um pesquisador espanhol de renome no campo da ufologia, autor de diversos livros sobre o tema com décadas de experiência, e curador do FOTOCAT, um banco de dados mundial de eventos de OVNIs com registro em foto ou vídeo.
Juntos eles argumentam que a realidade por trás do tema, nos EUA, assemelha-se mais a “ex-funcionários da defesa promovendo sua mitologia pessoal, do que a qualquer acobertamento de alienígenas”.
Sua análise, de certa forma, reverbera opiniões expressas nos últimos meses pelo ex-chefe do Escritório de Resolução de Anomalias de Todos os Domínios (AARO), mas traz a componente de quem tem anos de experiência na Ufologia e não tem obrigações contratuais com o Pentágono ou qualquer narrativa pró ou contra uma suposta interferência “não-humana” na história da humanidade.
Os autores iniciam sua argumentação relembrando a criação do AAWSAP (Programa de Aplicações de Sistemas Avançados de Armas Aeroespaciais) em 2008, um programa da Agência de Inteligência da Defesa (DIA) que, apesar de oficialmente destinado a pesquisar futuras ameaças aeroespaciais, na prática, dedicava-se à investigação de OVNIs e fenômenos paranormais. Simmari e Olmos, entretanto, adotam uma postura bastante crítica em relação aos resultados apresentados pelo programa e seus defensores, afirmando que as alegações sobre recuperação de tecnologia alienígena e um suposto acobertamento da presença extraterrestre na Terra não passam de “fábulas inverificáveis”.
A alegação é feita diante da total ausência de rastros documentais ou registros definitivos, nos últimos anos bastante alardeados por defensores da “transparência UAP” e até mesmo denunciantes de alto escalão do governo, a exemplo de David Grusch. Os autores chegam a comparar a situação a uma narrativa religiosa, que tentaria empurrar a todo custo o conceito de alienígenas ocultos ou seres interdimensionais.
Necessidade de rigor científico nas investigações de UAPs
Para os pesquisadores, o verdadeiro valor do atual escritório responsável pelas investigações de UAPs, o AARO, está na busca pela resolução de relatos de avistamentos com o que há de mais moderno em tecnologia, e não na busca por evidências que sustentem teorias, até agora, meramente conspiratórias. Eles argumentam que o AARO deveria se concentrar em “resolver os relatórios de avistamentos de OVNIs com a mais recente tecnologia e ferramentas” e “mostrar como os OVNIs podem ser rastreados e resolvidos em tempo real usando sensores de alta tecnologia, em vez de depender de depoimentos de testemunhas abaixo do ideal que preenchem estantes de livros e especiais de notícias a cabo”.
De forma bastante direta, os renomados pesquisadores europeus ressoam e amplificam uma análise já divulgada pelo ex-diretor da AARO, Sean Kirkpatrick, que disse haver um grupo de funcionários de alto escalão dentro do governo que se presta a retroalimentar teorias conspiratórias e mencionam-se uns aos outros — quase sempre os mesmos — como forma de manter acesa uma eterna expectativa em torno de uma narrativa que, em princípio, não pode ser comprovada à luz das provas existentes: a de que os UAP têm qualquer origem não terrestre ou insólita.
Contudo, esse alinhamento dos autores abre espaço para uma ressalva importante que o artigo não menciona. Algumas informações já divulgadas colocam em xeque a lisura a atuação de Kirkpatrick. O Portal Vigília já destacou contradições no discurso de Kirkpatrick. Um exemplo bastante notório ocorreu quando deu informações incorretas sobre sua participação em reunião secreta sobre o Rancho Skinwalker, conhecido por atividades supostamente paranormais. Ou ainda sua falta de iniciativa — e do AARO sob seu comando — em abrir canais seguros para ouvir denunciantes UAP, como David Grusch.
A Ufologia entre a crença e a ciência
Simmari e Ballester Olmos concluem seu artigo alertando para o perigo da “fé ufológica”, onde a crença em extraterrestres e eventos inexplicáveis se sobrepõe à análise crítica e à busca por evidências. Os autores criticam o fato de que “oficiais que abrigam crenças deficientes em evidências em relação a extraterrestres” estejam em cargos de segurança nacional, o que, em suas palavras, “deveria fazer pensar”.
Apesar de sua postura crítica em relação às narrativas ufológicas sensacionalistas, os autores reconhecem a importância de se estudar o fenômeno OVNI de forma séria e metódica. Eles defendem que a ufologia, embora frequentemente vista como um tema marginal, pode oferecer insights valiosos sobre como as pessoas interpretam o desconhecido.
Para Ballester Olmos e Simmari, o estudo dos OVNIs deve se concentrar em entender “seu significado, em vez de cedê-lo a defensores sensacionalistas que empregam metodologias ruins e promovem histórias quase religiosas e sobrenaturais”. Nesse sentido, tanto o AARO quanto a academia têm um papel fundamental a desempenhar: conduzir investigações rigorosas que permitam compreender as raízes históricas e culturais do fenômeno OVNI, sem alimentar especulações infundadas.


